Remédio não basta para hiperatividade, diz médico

Prefeitura de São Paulo resolveu restringir acesso ao medicamento

Segundo especialista, medida leva refletir sobre o excesso de diagnóstico de déficit de atenção em crianças

CLÁUDIA COLLUCCI

DE SÃO PAULO

20/07/2014 02h05

Na última semana, ao menos dez entidades médicas fizeram manifestos contrários à decisão da Prefeitura de São Paulo de restringir a oferta de remédio indicado para crianças e adolescentes hiperativos ou com deficit de atenção.

Mas, para o psiquiatra e psicanalista Mário Eduardo Costa Pereira, 53, a medida da prefeitura é saudável e acende um “alerta amarelo” sobre o excesso de diagnóstico de TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade).

Professor livre docente da Unicamp e titular da Universidade Aix-Marseille (França), ele diz que está faltando aos médicos serem mais clínicos e associarem ao diagnóstico contextos familiares, escolares e sociais. A seguir, trechos da entrevista à Folha.

Folha – Como o sr. avalia a decisão da prefeitura?

Mário Eduardo Costa Pereira – Acho muito saudável, desde que não seja apenas uma medida administrativa. Pode ser um sinal amarelo, uma amostra de que existe um mal estar, de que a sociedade está preocupada e que não é uma coisa banal essa história [de medicalizar cada vez mais]. Talvez as coisas sejam um pouco mais complexas. Talvez isso leve a sociedade pensar se é normal dar Ritalina às crianças cada vez mais cedo só porque um consenso americano diz que é assim.

O sr. é contra a medicação?

Não sou contra diagnosticar e medicar. É claro que, se uma criança fica muito desadaptada, pode medicar. Mas, fazer disso um problema de saúde pública, dizer que uma em cada 20 crianças precisa de Ritalina, é outra história. Não posso só fazer o diagnóstico, prescrever metilfenidato [medicamento] e um abraço. Tem que ver o que está acontecendo com a família, com a escola, com a sociedade. Está faltando clínica psiquiátrica. Volto a dizer: minha posição não é antipsiquiatria, sou contra a psiquiatria acrítica.

Estudos mostram que as pessoas com TDAH têm alterações neurocerebrais, o que justificaria a medicação…

Há todo um discurso travestido de biologia pura. No TDAH existe uma composição de fatores biológicos e sociológicos que você não sabe como se articulam. Mesmo que o TDAH tivesse 100% causas biológicas, ainda assim teria que ser visto dentro de um contexto maior. Peguemos o exemplo da síndrome de Down.

Há 30 anos, quando uma criança nascia com a síndrome, o médico dizia: ‘Ele tem alteração biológica incurável, será retardado mental e morrerá mais cedo’.

E morria mesmo. Não pela causa biológica, mas porque ninguém investia nele. Hoje, está aí na sociedade, trabalhando, envolvido em projetos culturais, casando. Isso não melhorou por causa de tratamentos biológicos. Mudou porque a gente começou a estimular essas crianças precocemente, a investir numa educação específica. Guardadas as proporções, por que não ter a mesma atitude em relação ao TDAH?

A questão é que a psiquiatria exercida hoje é quase sinônimo de medicação…

Essa não é uma voz hegemônica, um discurso único. Há muitos psiquiatras que pensam diferente. A questão hoje é que o sujeito, desde a faculdade, tem uma orientação voltada para a pesquisa experimental. O que falta são psiquiatras mais clínicos, que se sirvam de uma maneira mais crítica e menos servil dos instrumentos que têm.

A sua crítica é ao DSM-5 [manual de diagnóstico?

Não estou dizendo que não tem que ter manual de diagnósticos. A questão é o manual se transformar no centro da prática clínica, ser o objeto de controle da prática médica. O médico passa a ser um instrumento do instrumento. Os residentes, os estudantes só estudam o manual, não conhecem psicopatologia, não sabem entrevistar um paciente. O DSM é uma composição de forças com fatores biológicos, psicológicos, políticos e econômicos. Essas forças mudam a cada edição e nunca são baseadas exclusivamente em ciência pura.

O que sr. diria aos pais?

Diria que o diagnóstico não é o espelho do seu filho, é só um instrumento, um elemento prático que orienta algumas tomadas de decisões. Diria para se cercar de profissionais que entendam da técnica, mas que também tenham uma visão global do seu filho, que vá além dos critérios estabelecidos nos consensos norte-americanos.

Fonte:   Folha de S. Paulo  –  http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/07/1488684-remedio-nao-basta-para-hiperatividade-diz-medico.shtml

 

 

 

 

 

“Mais do que entender seus filhos, os pais precisam saber como educá-los”

Um respeitado psiquiatra infantil explica como uma separação sem sofrimento ajuda a criança a crescer.

KÁTIA MELLO

De quatro décadas de trabalho com crianças com problemas psicológicos, o psiquiatra francês Marcel Rufo extraiu lições sobre dificuldades comuns a todos os pais – como o meio-termo entre equilíbrio e superproteção e a abordagem da sexualidade dos filhos. Rufo discute essas questões em dois livros recém-lançados, Me Larga! Separar-se para Crescer e Tudo o Que Você Jamais Deveria Saber sobre a Sexualidade de Seus Filhos (editora Martins Fontes).

ÉPOCA – Por que o senhor diz que os pais de hoje querem compreender os filhos, mais que educá-los?

Marcel Rufo – Os pais de hoje fizeram progressos extraordinários em relação aos de antigamente. Os filhos nunca foram tão bem criados. Do ponto de vista físico, corporal, não há mais preocupações. O problema que resta aos pais é se os filhos vão ser felizes e inteligentes. Para isso, é preciso compreendê-los. Hoje, os pais, mais que educar, tentam entender seus filhos. E compreender é mais democrático que educar. Houve uma “democratização” da família, que virou uma espécie de sindicato em que todos podem falar e debater. É por isso que os filhos, que não são bobos, não nos abandonam mais. Eles têm mais dificuldade para partir que para ficar.

ÉPOCA – Isso quer dizer que o progresso dos pais não é necessariamente bom?

Rufo – Os pais progrediram, mas é preciso que aprendam a não ser tão bons assim. O psicanalista inglês Donald W. Winnicott (1896-1971) criou um conceito muito interessante, o de “good enough mothers”, “mães boas o suficiente”. Esse termo mostra bem o que é preciso fazer. Ser um pai mediano, e não excelente, ajuda as crianças. No fundo, os filhos nos amam por nossos defeitos, mais que por nossas qualidades.

ÉPOCA – Como evitar a superproteção?

Rufo – Separar-se de uma criança é respeitar seu gosto pela aventura e pela descoberta. É preciso, de vez em quando, deixar segredos para que os filhos façam suas próprias descobertas, o que não ocorre quando os pais estão sempre presentes. Cabe às crianças, sozinhas, “redescobrir” as coisas que nós mesmos descobrimos quando tínhamos a idade delas.

ÉPOCA – Hoje é comum que crianças façam terapia. Com que idade elas podem fazer análise? E com que idade se pode prescrever medicamentos para tratar problemas psicológicos?

Rufo – Muito cedo. Pode-se fazer análise com 6 ou 7 anos. O mais comum é que se comece com 13 ou 14. Quanto a medicamentos, não gosto muito deles. Prefiro formular hipóteses sobre o futuro da criança e cometer equívocos na análise a receitar remédios. O psiquiatra deve prescrever a si mesmo, como se fosse um medicamento. Meu melhor remédio é a palavra.

ÉPOCA – O que o senhor pensa das famílias em que, por conta das separações, os filhos tem dois pais e duas mães?                                                                                  

Rufo – Não é tão ruim assim. A partir do momento em que os pais se separam, é melhor ter um padrasto e uma madrasta que ter o pai ou a mãe isolados. Quando os cônjuges que se separaram se recompõem em um casal, isso ajuda a restabelecer a afeição.

ÉPOCA – Qual é sua opinião sobre a guarda compartilhada, em que pai e mãe dividem por igual o tempo com os filhos?

Rufo – Não gosto. Crianças precisam de um único lar, mais que de pais que se revezem. Na guarda compartilhada, a criança não veste o luto da família perdida: ela sempre vai acreditar que tudo pode recomeçar. Creio que ela só funcione em casos excepcionais, de famílias muito inteligentes, com excelentes condições financeiras e em que pai e mãe não vivam muito longe um do outro.

ÉPOCA – Que sistema o senhor considera ideal, então?

Rufo – Um sistema melhor seria outro tipo de alternância. Por exemplo, de 0 a 3 anos, o filho fica com a mãe; de 3 a 6, com o pai; de 6 a 12, com a mãe; e assim por diante. Essas idades correspondem às fases da escola: maternal, ensino fundamental, ensino médio… É bom que o pai reivindique seu direito sobre os filhos, mas quando eles são pequenos nada substitui a mãe.

ÉPOCA – Como o abandono e a posterior adoção afetam o futuro da criança?

Rufo – Como psiquiatra, vejo muitos casos difíceis de filhos adotivos. Toda criança adotada sonha com a família biológica. Vou dizer uma coisa que pode parecer surpreendente: é mais difícil ser filho adotivo em um meio socialmente elevado que em famílias modestas. O motivo é que, numa família rica, a criança tende a ser fiel a sua origem biológica “misteriosa”, e não quer ser como a família que a acolheu.

ÉPOCA – Qual seria a melhor forma de tratar os bebês candidatos a adoção?

Rufo – Meu modelo teórico é um que foi adotado por uma instituição para menores abandonados de Budapeste, na Hungria. Lá, uma cuidadora fica 18 meses, às vezes dois anos, sempre com o mesmo bebê. A mãe pode não estar por perto, mas esse sistema funciona como uma espécie de “suplementação maternal”. E isso ajuda muito o bebê.

ÉPOCA – Muitos menores abandonados acabam na delinquência juvenil. O senhor acha que uma criança que sofreu com o abandono é recuperável?

Rufo – A diferença entre o tratamento psiquiátrico de um adulto e o de uma criança é que, com as crianças, tudo ainda é possível, nada é definitivo. Um menor abandonado pode encontrar uma boa família adotiva; pode ter um professor notável; pode ter grandes amigos; pode viver uma bela história de amor. Nessas condições, a criança adotada pode se sair bem na vida.

ÉPOCA – Por que o senhor diz que as crianças precisam mentir?

Rufo – Quando uma criança de 2 ou 3 anos mente, isso quer dizer que ela pensa. Sou fã da mentira. Adoro crianças que mentem. Quando um menino me diz: “Já fui a três psiquiatras, e não adiantou nada”, e descubro que não é verdade, fico maravilhado. E digo isso aos pais. É um desafio que a criança impõe, uma bela forma de resistência. Às vezes, a mentira é uma forma de enfrentar uma realidade que é difícil.

ÉPOCA – Por que os pais, em sua opinião, interferem excessivamente na vida sexual dos filhos?

Rufo – Porque são idiotas (risos). Assim como nós só adquirimos nossa própria sexualidade porque ignoramos a de nossos pais, é preciso que os pais “ignorem” a dos filhos.

ÉPOCA – Quais os casos mais difíceis que o senhor enfrentou como psiquiatra?

Rufo – Os de filhos desprezados pelos pais. Aqueles que os pais não acham inteligentes e dizem “você é muito burro para entender o que eu digo”. A sevícia psicológica é quase tão ruim quanto a sexual. O abuso psicológico é terrível porque você não é reconhecido aos olhos daquele com quem deseja se parecer. Costumo dizer que os pais têm de ser “torcedores” do filho, assim como se torce pelo Boca Juniors.

                      Revista Época – Edição nº 502 – 14/01/2008

Mães que odeiam os filhos

O assunto é delicado e dele pouco se fala. Existem mães que odeiam os filhos e vice-versa. Na mitologia grega, Medeia mata os próprios para se vingar de Jasão, que a deixou por outra mulher. Ele a acusa: “Infanticida! Fêmea abominável”. Procne, menos conhecida, mata o filho para vingar o adultério do marido e depois lhe serve a carne da criança cozida. Gea, a Mãe Terra, é o berço do nascimento e a sepultura da morte.

Mitologia e literatura oferecem outra visão da mãe, diferente da que quer passar o modelo social. Em Mãe em noite de lua cheia, de Luiz Antônio Aguiar, uma personagem escolhe realizar seus sonhos, mesmo que isso magoe a filha adolescente. Em Dois irmãos, Milton Hatoun descreve a personagem Mãe Zana com toques realistas. O cronista Rubem Braga não deixou por menos. Em um conto dedicado ao Dia das Mães, descreve como o excessivo zelo materno, somado às frustrações pessoais, torna-se um peso para o pequeno João, de oito anos. O dia em que troquei de mãe, de Jacqueline Mattos, revela uma personagem, Bruna, que foge por não aguentar sua mãe.

Na clássica peça Álbum de família, de Nelson Rodrigues, o diálogo entre os irmãos, Glória e Edmundo, é nu e cru: “Eu nunca disse a ninguém, sempre escondi, mas agora vou dizer: não gosto de mamãe. Não está em mim – ela é má, sinto que ela é capaz de matar uma pessoa. Sempre tive medo de ficar sozinha com ela! Medo que ela me matasse”. E a resposta, não menos crua, da mãe: “Isso aqui agora vai ficar pior – Glória vem aí… Ela nunca me tolerou, Edmundo, nunca! Quando nasceu e disseram MENINA, e tive o pressentimento de que ia ser minha inimiga. Acertei”. E depois, em conversa com a ex-nora: “Estou cansada, farta de não falar, de esconder há tanto tempo as coisas que eu sinto, que eu penso. Podem dizer o que quiserem. Mas eu dei graças a Deus quando minha filha morreu!”.

Em 1944, a peça causou repulsa. Até hoje, em fóruns acadêmicos ou debates públicos, o tema incita reações violentas. Tem gente que não acredita. Mas a verdade, explica a psicanalista Márcia Neder, é que as relações familiares engendram impulsos amorosos e hostis, mesmo que essa hostilidade permaneça escondida e disfarçada. Há tempos, o movimento feminista representado por Betty Friedan botou o dedo na ferida. Sim, há mães que detestam sê-lo.

O nascimento de um bebê não traz só euforia e plenitude; os berros do recém-nascido, a dependência absoluta do adulto, a urgência em mamar estão longe de provocar as mesmas reações. A mulher pode viver essa experiência como fonte de prazer ou… um fardo. Freud foi dos primeiros a nomear a ambivalência materna. Dentre as histórias clínicas que apresentou, há duas: a da mãe que não conseguia amamentar os filhos e a da que culpava a criança pela morte do pai. Ele revelou que a idealização – a mãe é fonte inesgotável de amor – oculta sentimentos agressivos: violência, irritação, vergonha e culpa.

Até meados do século XX, era comuns que mães, no seu momento “bruxa”, imprimisse nos filhos, e sobretudo nas filhas, modelos de autorrestrição. A obrigação de obedecer, assim como a vigilância sobre regras, eram constantes. As mães podiam punir tudo o que era considerado “indesejável” com “surras e cascudos”. Ou com pressão psicológica. As ameaças de retirada de afeto (“Você age assim e ninguém gosta…”), as ameaças de abandono e solidão (“Moça assim não casa…”), os castigos do Céu (“Nossa Senhora está olhando você e está triste), remorso (“Quando eu morrer, você vai ver a falta que vou fazer…”) ou culpa (“Só quero o seu bem…você está fazendo uma ingratidão”) abatiam-se sobre as costas dos filhos. Antes, a preocupação era que os filhos fossem bem-educados, que respeitassem os idosos, que fossem alvos de elogios. Hoje, preocupa “o que serão” e seu futuro.

Pesquisas publicadas nos Estados Unidos demonstram que o modelo da mãe ideal é tão forte que aquelas que não se identificam com ele sentem-se “desviantes”. Mesmo na psicoterapia, tais mulheres conseguem indignar os terapeutas: a “mãe má” é um tabu! É monstruoso mostrar esse lado sombrio da mulher. A intolerância contra colegas, amigos ou pessoas do outro sexo pode definir alguém como irracional ou infeliz, mas, a intolerância em relação aos filhos torna uma pessoa a encarnação do mal.

Segundo Márcia Neder, no reino da pedocracia, em que o culto à criança, o “reizinho” da casa, está plenamente instituído, é crime não amá-la e vergonhoso admitir que não se ame o próprio filho. A supervalorização da maternidade leva a analisar a “síndrome do ninho vazio” de maneira errada, ela explica. Longe de sofrer porque os filhos amadureceram, cresceram e saíram de casa, esse momento pode traduzir o alívio e a satisfação ao vê-los partir – aliada à autonomia da prole, vem a alforria da mãe, que pode voltar a pensar em si mesma.

Vale lembrar que ser mãe é uma condição subjetiva; nem toda a mulher fértil está apta a exercer a maternidade. Nem ela é mágica capaz de transformar o caráter da mulher.

Publicado em 12 de julho de 2014 por marcia

Fonte: http://historiahoje.com/?p=2901