“Nós sufocamos os homens” Camille Paglia

 

“As mulheres pedem aos homens que eles sejam o que não são e, quando eles se tornam o que não são, elas não os querem mais”

A escritora americana diz que a prevalência dos valores femininos nas casas, nas escolas e nos governos “apagou” a masculinidade do mapa e deixou os homens perdidos as mulheres ganharam. Ou, pelo menos, a maneira feminina de encarar o mundo vem levando a melhor – e isso não é necessariamente bom, diz Camille Paglia. Para ela, a valorização das características associadas às mulheres emparedou os homens e fez com que certas virtudes masculinas caíssem perigosamente em desuso. Em entrevista a VEJA, a autora de Personas Sexuais mostra que, aos 66 anos, continua sendo uma fervorosa dissidente do feminismo ortodoxo dos anos 60. Segundo ela, ao priorizarem o sucesso profissional, as mulheres da sua geração deram “de cara com a parede” – e em breve verão que as felizes de verdade não são as ricas e bem-sucedidas, mas as que, em vez de correr atrás do sucesso, se dedicaram a construir grandes famílias.

As mulheres venceram?

Nosso mundo político e econômico certamente não é regido pelas mulheres. Os homens ainda são maioria, talvez porque seja mais fácil para eles trabalhar harmoniosamente em equipe. As mulheres, porém, reinam nos domínios emocional e psicológico. Valores femininos como cooperação, sensibilidade e compromisso hoje são promovidos em todas as escolas públicas dos Estados Unidos e do Reino Unido. Fico preocupada com isso. Não é responsabilidade escolar moldar ou influenciar o caráter dos alunos. Então, sim, há uma vitória feminina no sistema de educação, e é por isso que tantos meninos se sentem sufocados ou presos nesse ambiente governado por mulheres.

Essa constatação veio da sua experiência de ser mãe de um menino?

(Camille adotou Lucien, hoje com 11 anos.) A maternidade apenas confirmou minhas opiniões. Nos meus trabalhos, sempre parti de uma observação social, e não de teorias criadas a priori. Ser mãe me permitiu outras descobertas, entre elas a existência de uma rede de mulheres com enorme poder de organização e capacidade de administrar o próprio tempo.

Mas os homens estão mais frágeis?

A masculinidade tradicional está numa encruzilhada. O que os homens podem ser? Como eles podem se diferenciar das mulheres?

Alguns não veem problema em receber ordens delas. Mas, para outros, é como se a masculinidade tivesse sido apagada, como se eles tivessem perdido sua posição dentro da família. Sentem-se sufocados e precisam estar com outros homens. Aí entram a pornografia, os clubes de strip-tease, os esportes: é quando os homens escapam para o mundo deles. Chutar uma bola no meio do campo é muito revigorante e bom para escapar das mulheres.

“Há um grande desentendimento no casamento moderno porque mulheres e homens não têm tanto em comum assim. Quando nasce uma criança, então, o homem é marginalizado”

Em outras palavras, elas fazem com que eles se sintam errados o tempo todo?

Sim! Em uma palavra: sim! Houve um tempo em que homens faziam coisas que as mulheres não podiam fazer. Então, ninguém questionava se eles “eram homens” ou não.

Eu lembro que, em casa, depois do jantar, os homens ficavam na sala, falavam de carro, assistiam a algum esporte na TV. Enquanto isso, as mulheres conversavam arrumando a cozinha. Hoje, elas querem que o homem seja igual à mulher. Querem falar com ele do mesmo jeito que conversam com as amigas.

Isso é com os gays! Os gays conversam por horas, fofocam, falam sobre a vida pessoal… Os héteros não. Eles não querem aprofundar-se nos sentimentos.

Há um grande desentendimento no casamento moderno porque mulheres e homens não têm tanto em comum assim. Quando nasce uma criança, então, o homem é marginalizado. Pode escolher entre escapar de casa e ser apenas mais um dos planetas orbitando ao redor do “Sol”.

Famílias de classe média são basicamente ambientes femininos. Tudo é bom e gentil, e os homens têm de mudar seu comportamento para se encaixar nelas.

As mulheres pedem a eles que sejam o que não são e, quando eles se tornam o que não são, elas não os querem mais. “Ah, meu marido é meu terceiro filho, é meu bebê.”

Ouvimos isso o tempo todo.

O problema número 1 é que as mulheres não estão receptivas aos homens.

Elas precisam ouvi-los. O feminismo é duro demais com eles.

Ao longo do tempo, as mulheres incorporaram alguns atributos masculinos. Diz-se frequentemente que agora é hora de eles incorporarem atributos femininos. A senhora não concorda?

Não. No que diz respeito aos governos ocidentais, por exemplo, a tendência é agirem no estilo “estado-babá”, cheios de complacência e cuidados, atributos associados ao universo feminino. Só que isso está incapacitando as nações de ficar seriamente em alerta contra as ameaças do terrorismo, por exemplo. As sociedades ocidentais são ingênuas e complacentes ao imaginar que todo mundo é naturalmente benevolente.

Várias grandes civilizações entraram em colapso por se apresentar vulneráveis. A compaixão e a sensibilidade femininas são virtudes positivas, mas as maiores conquistas nas áreas de cultura e tecnologia ainda requerem certos traços masculinos, bem como planejar a defesa de uma sociedade sob ameaça de ataque.

Essa “lacuna” explicaria o fato de existirem poucas mulheres no poder?

O líder de uma nação tem de ter diferentes atributos. Precisa saber compor, comandar, controlar os nervos – precisa combinar qualidades masculinas e femininas. Falta às mulheres uma educação voltada a desenvolver visões de longo prazo, capacidade de decisão, pensamento militar.

Essa história de ser carinhosa e ter compaixão já está resolvida – vamos parar de falar disso. O que não é valorizado como deveria é a capacidade de decisão. E, do jeito que as mulheres são educadas, não vejo como essa mudança pode acontecer. Por exemplo: liderar uma nação significa cuidar também de suas questões militares. Isso requer um tipo de personalidade firme e assertiva. Por isso, em vez de estudarem questões de gênero, as mulheres que querem ascender politicamente deveriam estudar história militar e economia.

Não é fixando proporções – “as mulheres têm de representar 50% dos legisladores” – que produziremos lideranças. O Brasil não tem a mesma obsessão pela questão militar que os Estados Unidos, por isso vocês têm uma mulher presidente.

Como a senhora avalia uma eventual candidatura de Hillary Clinton à Presidência em 2016?

Hillary Clinton é completamente incompetente. Em tudo o que fez, não obteve êxito. Seu currículo segue em branco, sem nenhuma grande conquista, exceto ter se casado com Bill Clinton. É incrível como temos poucas candidatas. Sempre achei que a senadora democrata Dianne Feinstein, da Califórnia, deveria ter tentado concorrer à Presidência, e não Hillary Clinton.

O que precisamos aprender é como exercer a liderança e nos comunicar com as pessoas sem que nos sintamos diminuídas, da maneira como a Hillary Clinton faz. Ela é estridente, irritante, sempre sorrindo, sorrindo, sorrindo. E é mal-humorada, tola – o oposto do que queremos de um líder. Continuar a impulsioná-la vai atrasar a evolução feminina em décadas.

Quais as perspectivas femininas para as próximas décadas?

Eu vejo um mundo muito instável à frente, tanto política como economicamente. Acho que essa maneira de encarar as coisas baseada em gêneros está errada. É como se as mulheres tivessem respostas para tudo. E, se não estão felizes, a culpa é dos homens.

Temos de olhar para a natureza da vida moderna, para o nosso isolamento psicológico, para essa quebra da família tradicional, transformada em pequenos núcleos. Tudo isso resulta em ansiedade.

As mulheres sentem que têm de ser essas pessoas bem-sucedidas, tudo na vida delas tem de estar relacionado com o poder feminino, com “encarar obstáculos”. É um modo de vida muito estressante.

E ainda há a questão não resolvida de como conciliar carreira e vida pessoal. Por que isso continua a ser um sofrimento?

O feminismo cometeu o engano de tentar reduzir a vida feminina às conquistas profissionais. Uma coisa é exigir que se retirem as barreiras para o avanço social das mulheres e que se ofereçam a elas oportunidades, promoções, salário etc. Outra é supor que essas conquistas suprirão as demandas da vida pessoal – não suprirão.

Questões pessoais são de uma natureza diferente das profissionais: têm a ver com sexo, procriação e viver a vida. Essas feministas anglo-americanas dos anos 60 têm uma visão mecânica do que é viver. Há ainda um grande problema com o sistema de carreira moderno.

O modo de progredir profissionalmente faz com que seja difícil para elas lidar com os homens em pé de igualdade. A mulher precisa ter uma vida dupla: ser ambiciosa e dominadora no escritório, mas adaptar-se em casa para ser sexualmente desejada e emocionalmente carinhosa.

Minha prioridade sempre foi esta: temos de parar de culpar os homens e começar a olhar o sistema e as mudanças ocorridas no trabalho e nos lares no último século.

Quais seriam as transformações mais significativas?

Uma das que mais merecem atenção é o isolamento feminino. As pessoas amam ter privacidade, ter sua própria casa. O resultado disso é uma quantidade tremenda de trabalho doméstico que recai sobre as mulheres e do qual elas têm de dar conta sem a ajuda de outras mulheres.

Não muito tempo atrás, as pessoas viviam em uma espécie de tribo, em que umas olhavam pelas outras. Minha mãe se lembra disso em sua infância na Itália. As mulheres reuniam-se, pegavam suas crianças e iam lavar roupa nas pedras. Havia uma comunidade de mulheres, uma vida social construída a partir dessas atividades.

Hoje estamos muito felizes com as nossas máquinas de lavar e secar, mas o que isso significa? Isolamento total! A mulher está isolada, desconectada do mundo feminino. Quando você é parte de um grupo, você sabe quem você é, não precisa ir descobrir.

Recentemente, a senhora foi criticada por declarar que as mulheres deveriam pensar melhor no que vestem para não ficar tão vulneráveis. O que quis dizer?

Eu apoio totalmente as mulheres que se vestem de maneira sexy. Mas quem faz isso tem de compreender que sinais está enviando. Quando disse isso, estava me referindo às garotas americanas brancas de classe alta, que frequentaram as melhores universidades e terão os melhores empregos. Elas usam roupas sexy, mas seu corpo está morto, sua mente está morta. Elas nem entendem o que estão vestindo.

Por que esse diagnóstico se restringe às americanas?

Mulheres na Itália, França, Espanha, Brasil e outros países da América do Sul comunicam melhor sua sexualidade, estão mais confortáveis com seu corpo. Afro-ame­ricanas também sabem fazer isso. Mas as mulheres americanas brancas que estão cursando as melhores universidades… oh! Bom, você deve se lembrar de Sex and the City. Elas são espertas e ambiciosas, mas vivem uma situação em que fazem sexo com uma incrível quantidade de homens e de repente é o homem quem escolhe com quem vai ficar e quando é a hora de casar. E, quando resolvem casar, querem as de 20 anos. É muito difícil. Antigamente não se fazia sexo antes de casar. Mas hoje… as mulheres são tediosas.

Tediosas?

Quando eu vou a Nova York vejo essas mulheres nas ruas: bem cuidadas, lindas, bem-sucedidas, graduadas em Harvard, Yale e… tediosas! Te-di-o-sas. Não têm nenhuma mística erótica. Acho que o número de homens gays vem aumentando porque os homens são mais interessantes do que as mulheres.

Onde elas deveriam buscar a felicidade?

Bem, achar que as mulheres profissionalmente bem-sucedidas são o ponto máximo da raça humana é ridículo. Vejo tantas delas sem filhos porque acreditaram que podiam ter tudo: ser bem-sucedidas e mães aos 40 anos. Minha geração inteira deu de cara com a parede. Quando chegarmos aos 70, 80 anos, acredito que a felicidade não estará com as ricas e poderosas, mas com as mulheres de classe média que conseguiram produzir grandes famílias.

Entrevista concedida a Mariana Barros, publicada em edição impressa de VEJA

                                                                                                      15/03/14 Tema Livre

Uso de antipsicóticos cresce entre crianças e adolescentes nos EUA

Remédios antipsicóticos são receitados em quase uma em três visitas de crianças e adolescentes ao psiquiatra nos EUA. Na década de 90, só uma em 11 consultas acabava com uma prescrição de medicamento dessa classe. A comparação foi feita em um novo estudo publicado nesta semana na revista “Archives of General Psychiatry”.  Os diagnósticos de transtorno de deficit de atenção e hiperatividade respondem por boa parte do aumento nas receitas dos antipsicóticos, ainda que não haja medicamentos dessa classe aprovados nos EUA para tratar esse o problema. “Eles são usados para esquizofrenia, transtorno bipolar e irritabilidade no autismo. Nenhuma é aprovada para deficit de atenção”, afirmou Mark Olfson, autor principal da pesquisa e professor de psiquiatria clínica na Universidade Columbia, em Nova York. De acordo com o trabalho, 90% das prescrições de antipsicóticos para crianças e adolescentes nas consultas entre 2005 e 2009 foram “off label”: os remédios foram receitados para algo diferente do uso aprovado pela agência de vigilância sanitária americana (FDA). Apesar de o estudo não conseguir dizer se as receitas eram desnecessárias, a eficácia de antipsicóticos no tratamento de deficit de atenção e hiperatividade não é provada. Esse remédios também já foram ligados a ganho de peso e diabetes. No ano passado, um estudo feito pela Universidade de Massachusetts mostrou que crianças usuárias de antipsicóticos tinham quatro vezes mais risco de desenvolver diabetes do que as que não usam. Em setembro, um conselho da FDA levantou questões preocupantes sobre essas drogas e pediu à agência que monitorasse o ganho de peso e outros problemas metabólicos em crianças usuárias de antipsicóticos.

ALTERNATIVAS

Para o estudo, Olfson e seus colegas usaram informações sobre quase 500 mil consultas médicas nos EUA entre 1993 e 2009. As receitas de antipsicóticos aumentaram em todas as faixas etárias, incluindo entre os adultos. Entre crianças e adolescentes, no entanto, o aumento foi mais rápido. O número de crianças recebendo receitas de antipsicóticos aumentou de 0,24 a cada 100 pessoas entre 1993 e 1998 para 1,83 a cada 100 pessoas entre 2005 e 2009. Entre adolescentes, o número foi de 0,78 por 100 nos anos 90 para 3,76 em 100 na década de 2000. “Há poucas dúvidas sobre o fato de essas drogas estarem sendo mais receitadas para crianças do que antigamente”, afirmou Olfson. Esses números só representam os casos em que o atendimento aconteceu em um consultório, excluindo clínicas, centros comunitários e outros centros médicos. Os pesquisadores não sabem por quanto tempo as pessoas tomaram os remédios e se as receitas eram dadas para o mesmo paciente em sucessivas consultas. O autor do estudo afirmou esperar que os pais façam mais perguntas sobre os antipsicóticos e sobre a possibilidade de outros tratamentos. Olfson disse que intervenções comportamentais podem controlar comportamentos agressivos das crianças, mas destaca que esse tipo de terapia é mais caro e leva mais tempo.

“Talvez, se isso estivesse mais disponível, não estaríamos vendo um uso tão grande de medicação.”

Fonte:”http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/1133813-uso-de-antipsicoticos-cresce-entre-criancas-e-adolescentes-nos-eua.shtml,”

Parece, mas não é!

Algumas diferenças entre

a Psicologia e a Psicanálise

 

Roberta Ecleide Ol. Gomes-Kelly*

Esta comunicação é fruto de meus estudos em Psicanálise e, mais especificamente, de meus esforços em mostrar aos alunos do curso de Fonoaudiologia da PUC-SP que nem todos os psicólogos com que entrarão em contato saberão discutir a Psicanálise tal como a vêem aqui; assim como nem todos os psicanalistas têm a Psicologia como ponto de partida.

A adoção da Psicanálise como uma disciplina presente no currículo do curso de Fonoaudiologia é uma característica da PUC-SP que imprime algumas particularidades. Uma delas é a de levar o aluno a compreender a constituição de umasubjetividade, subjacente aos sintomas (de/na linguagem) apresentados. Sendo assim, esta é uma reflexão advinda de meus apontamentos, sem pretensão de esgotar ou abranger todos os aspectos da Psicologia ou da Psicanálise. Da mesma maneira, não pretendo aqui explicar todos os aspectos abordados, remetendo o leitor, ao final, a uma série de referências que poderão auxiliar os iniciantes nesta discussão. Para quem não está envolvido com estudos sobre o psiquismo, a Psicologia e a Psicanálise parecem disciplinas afins, até mesmo idênticas.  No entanto, é necessário delimitar algumas nuances, para que se bem utilizem as  possibilidades de uma e de outra.  Há quem diga que é tudo a mesma coisa. Parto do princípio que não e mostrarei o porquê.

De início, e já complicando, temos que nem a Psicologia  nem a  Psicanálise   poderiam ser tratadas como unas. Há, na      Psicologia,  muitas Psicologias; e o  mesmo  acontece com a  Psicanálise .Dentre as muitas   Psicologias, tratarei   daquela   que está   mais próxima de um raciocínio positivista, a que busca verificar os comportamentos humanos por meio de experimentos, por ser esta a que mais se diferencia da Psicanálise.

Como disse, são muitas as Psicologias e muitas delas têm propostas de compreensão do psiquismo que fazem uso da Psicanálise ou discutem o psiquismo como resultado de uma dinâmica psíquica (por exemplo: psicodrama, gestalt, etc.). A partir destas, as diferenças são sutis e difíceis de tratar em um breve artigo. A Psicologia Experimental, por sua vez, apresenta diferenças marcantes e acaba por ser bastante conhecida por pessoas fora da área.1

Os psicólogos podem fazer uso da Psicanálise apenas como um instrumento dentre muitos outros, tal como se vê na análise de alguns testes projetivos. Ou podem começar a praticar uma psicoterapia de base analítica. Ou mesmo fazer referência a apenas um ou outro aspecto na prática terapêutica, quando pressupõem em todas as ações humanas algo de latente ou inconsciente.

Por sua vez, a Psicanálise também se faz presente em muitas apresentações, variando-se a corrente de acordo com o enfoque ou com o teórico que desenvolveu esta ou aquela idéia. Como Psicanálise, abordarei mais especificamente as obras freudiana e lacaniana, sem nenhum demérito em relação aos outros teóricos psicanalistas, tendo como norte minhas possibilidades de aprofundamento, dentro do que conheço.

 De maneira geral, a Psicanálise dificilmente se aproxima da Psicologia como possibilidade de contribuição.

Os psicanalistas, pelo contrário, parecem buscar justamente o que diferencia as duas disciplinas, fazendo referência à Psicologia apenas para afastá-la e não para conhecê-la.

Apresentarei cinco pontos de diferenças entre a Psicologia e a Psicanálise, definidos didaticamente, já que todos se relacionam:

  • o eixo (aquilo que norteia o raciocínio teórico da disciplina, o objeto de estudo);
  • a etiologia (como são estabelecidas as propostas teóricas acerca da etiologia dos sintomas);
  • o patológico (as possíveis classificações psicopatológicas);
  • a ética (e a direção da cura);
  • o papel do clínico.

O eixo

A Psicologia tem como objeto de estudo o comportamento e a manifestação sintomática, sendo isto mais importante que quaisquer sentidos que possam ser construídos a partir dos sintomas apresentados. É a partir do tipo de comportamento apresentado que se pode chegar a uma classificação.

Por exemplo, quando temos uma pessoa que costuma lavar as mãos, isto é tido como um comportamento compulsivo, que deve ser extinto. Pudesse lançar mão da Psiquiatria, na recomendação de remédios próprios para este quadro ou mesmo de técnicas de dessensibilização e controle do comportamento. O motivo pelo qual o comportamento se deu pode até ser pensado ou apresentado pela própria pessoa, mas estará sujeito às condições de um trabalho que leve à remissão dos sintomas.

Como eixo, então, teríamos o binômio saúde/ doença ou mesmo normalidade/anormalidade, e o sintoma se refere ao momento doente e a busca terapêutica deve ser em direção à saúde, logo, à extinção dos sintomas ou do comportamento anormal.

Na Psicanálise, o eixo é a trama imaginária construída por cada pessoa, diante das experiências de frustração e da castração (tanto no sentido imaginário como no sentido dos limites aos quais todos estamos submetidos). Cada um de nós constrói uma rede de fantasias, de impressões particulares acerca do que vive. É baseando-se nesta rede, tecida muito precocemente em nossa infância, que nos conduzimos em situações novas e mesmo nos direcionamos para este ou aquele lugar.

Poder-se-ia compreender esta trama imaginária como um padrão de relacionamentos, algo que pode ser modificado simplesmente por novos aprendizados. No entanto, é mais que isso, é uma forma de funcionamento que se impõe aos acontecimentos cotidianos buscando tramar o mesmo, repetitivamente.

O sintoma é, pois, um sinal dessa trama imaginária, é uma das peças de um quebra-cabeça muito maior, a ser montado no processo terapêutico. Um sentido deve ser construído, à medida que o quebra- cabeça se monta, e, se isto levar à remissão dos sintomas, pode ser uma vantagem ou uma desvantagem. Se o sintoma é um sinal – a peça que revela a existência de um quadro maior –, seu desaparecimento pode significar a perda da bússola deste quadro.

Assim, estabelecer uma classificação se torna muito mais difícil, já que cada pessoa traz uma composição diferente. Existe, porém, uma delimitação dos quadros clínicos pela sua forma de funcionamento, que veremos no item “patológico”.

A etiologia

A Psicologia se volta para as causas de uma patologia como imediatamente desencadeadoras dos sintomas. Mesmo que se coloque uma proposta “multifatorial”, envolvendo ambiente, personalidade e mesmo a genética, todos seriam tomados como agentes do sintoma. Decorrem daí estudos sobre fatores de risco para este ou aquele quadro, assim como a importância de elementos determinantes para o acontecimento de uma patologia, além de propostas de prevenção, pela eliminação dos fatores de risco.

A Psicanálise toma o sujeito como ponto de partida e a construção do próprio psiquismo como uma estratégia que já é ele mesmo (o próprio psiquismo).

Como o sintoma é menos importante que o sentido que esconde, vê-se o trabalho do sujeito como algo a ser considerado. A etiologia está no próprio sujeito, na interação que estabelece com todos os outros fatores – ambiente, personalidade e condições físicas de existência – e deve ser repensada a cada sujeito. Não há, pois, como prevenir, a não ser que se pense isso a cada sujeito.

O patológico

Como visto no primeiro item, os sintomas são a condição para determinação de um quadro, na Psicologia. Assim, Psicologia, por vezes, faz uso das classificações psiquiátricas, que se baseiam na  descrição minuciosa de sintomas, tais como a classificação da Associação Psiquiátrica Americana (DSM IV, 1995) e da Organização Mundial de Saúde (CID 10, 1993). Tais classificações, que visam uma maior comunicabilidade entre os profissionais usando um referencial único, é a-teórica e descritiva.

Aparentemente, por ser descritiva e por não exigir uma compreensão teórica, esta proposta classificatória pode parecer simples. No entanto, sem que o profissional tenha um conhecimento clínico, é um referencial bastante complexo, por demandar um conhecimento profundo das funções psíquicas e suas alterações.

Permanece, implícita, a visão do patológico como contraposto ao normal, ao sem sintomas. Logo, a classificação diagnóstica remete a uma terapêutica que seja eficaz na abolição desses sintomas, retornando o sujeito a um estado saudável, não doente.

Para a Psicanálise, o patológico faz parte do ser humano. Ou seja, a cada momento, sintomas podem ser “feitos” como possibilidades de defesa, de manifestação de um desejo inconsciente. Assim, não há alguém sem sintomas e não se pode classificar os sintomas, pois podem se referir a muitas formas de funcionamento.

Uma possibilidade de classificação pode ser observada na leitura lacaniana da Psicanálise, em que se aponta para as estruturas clínicas – neurose, psicose e perversão (talvez, o autismo em separado) – como posturas ante o binômio Édipo/Castração. Mesmo assim, não se  pode compreender tais estruturas como patológicas, em contraposição a uma normalidade fora delas. São formas de organização, tendo um determinado funcionamento característico para cada uma delas, que só se fazem presentes no espaço analítico.

Em outras palavras, tais estruturas não podem servir de categorizações em um espaço não clínico. É sob a transferência que se observa, no discurso do analisando, traços indicativos desta ou daquela estrutura. Poderíamos dizer, pois, que, fora do setting terapêutico da análise, somos todos híbridos, e só a escuta, sob transferência, nos definiria.

A ética

A procura por um auxílio terapêutico  implica, na maioria dos casos, a busca do alívio para um mal-estar. A herança médica que permeia as práticas terapêuticas faz com que, aliadas ao anseio do paciente, se criem técnicas para a cura do sofrimento psíquico, de maneira rápida que, por vezes, desconsidera a importância da manifestação sintomática.

Falar em cura para o psiquismo implica considerar um aspecto essencial: o próprio paciente que sofre. Seu anseio em melhorar conta muitos pontos nesta caminhada em direção à remissão dos sintomas. Mas este anseio é algo que dificilmente pode ser “inventado” de fora para dentro, não se estabelece à base de conselhos ou boas palavras. Pode-se dizer que é uma incógnita aquilo que dá, a um, condições de superar um sofrimento atroz e que não permite que outro levante a cabeça.

A Psicologia conta com um aliado importante para tentar chegar a desenvolver este anseio: os psicofármacos.

O surgimento da medicação psicotrópica e das técnicas psicoterapêuticas – a partir da Segunda Guerra Mundial – fez com que os hospitais psiquiátricos abandonassem sua característica custodial e pudessem se voltar para o paciente em si mesmo. Desde então, vêem-se muitas tentativas de tomar o sofrimento psíquico na ordem de  algo a ser superado por ser um estado e não uma produção que fosse o próprio sujeito.

Vê-se na Psicologia que a psicoterapia se alia ao uso de medicamentos como solução para problemas organicamente determinados; na Síndrome do Pânico e na depressão, principalmente. Seriam, então, as psicopatologias quadros determinados por disfunções biológicas (fisiológicas, neuroquímicas), advindas especificamente de falhas genéticas, a serem disparadas por determinadas condições ambientais. Assim, a medicação entraria como um corretivo, à semelhança dos tratamentos das epilepsias pelos anticonvulsivantes. A psicoterapia serviria de apoio, de coadjuvante, mas não seria uma medida terapêutica em si mesma.

O destino de tais práticas – medicamentos + psicoterapia – seria chegar a um bem-estar, a um estado em que o paciente estivesse adaptado a seu meio, sem sofrimento e sem angústia. Isto corrobora a idéia, que já indiquei antes, de que a patologia psíquica é um estado, determinado pelo aparecimento dos sintomas, que são algo em si mesmos.

Impera, na Psicologia, a ética do bem-estar, do bom, da norma, da exclusão do desvio. É algo que visa o bem-estar do indivíduo na sociedade, levando- se e conta uma moralidade, sem nenhum demérito em relação a tal ponto de vista. Há uma moralidade, um conjunto de conduções, que determina o que é estar bem e o que é estar mal.

Na Psicanálise, como o sintoma é pleno de sentidos que escapam, por vezes, às apresentações dos sintomas, a ética não está voltada para o bem-estar,de acordo com um consenso social ou moral. A ética, na Psicanálise, volta-se para o desejo inconsciente.

Um desejo que não pode ser destruído por nenhum objeto, que jamais pode ser plenamente satisfeito e que se move em direção à satisfação como ideal. Um desejo que se fez e faz de acordo com a trama imaginária (já mencionada), ligado aos caminhos trilhados para evitar a tensão no aparelho psíquico desde que o sujeito se constituiu.

Por vezes, para evitar esta tensão, cria-se mais tensão, e este excedente passa a ser visto não como tensionador, mas como aquilo que encobre a tensão principal, da qual não se quer saber. Isto é importante porque pode significar, em termos cotidianos, uma pessoa que não consiga estar satisfeita em situações socialmente consideradas boas e felizes.

Se é ao desejo que o trabalho psicanalítico se dirige, os sintomas têm um papel preponderante ao servirem de sinais ou indicativos dos conteúdos presentes neste desejo. Logo, conhecer o sintoma é tão importante quanto pensar em sua remissão, ainda que leve em conta o sofrimento que ele impõe ao sujeito.

Para minorar este sofrimento, que não é pequeno por ser psíquico, é necessário que o sujeito tome sobre si a responsabilidade pelo seu aparecimento.

É necessário que o sujeito veja o sintoma como uma produção pessoal, tecida pelo sujeito a partir das circunstâncias, da história e de seu próprio desejo.

Para a Psicanálise, importa, pois, a ética do desejo, o bem do sujeito dentro de seus próprios limites, circunstâncias e possibilidades. Às vezes, para se chegar ao bem do sujeito é preciso romper com as normas sociais ou criar estratégias para lidar com elas.

O papel do clínico

O clínico, devido a tudo que já expus, chega ao espaço terapêutico de uma maneira quase neutra, à parte do processo que pertence ao paciente – desde o motivo do adoecimento (orgânico) até a técnica terapêutica, que, como técnica, é aplicada “de fora”, isentando o clínico de interferência efetiva.

Com isto, não se desconsidera a capacidade do clínico, mas ressalto que aqui a competência é fundamental. Competência no sentido de saber fazer,de saber usar a técnica. Há um saber contido do lado do clínico, que é o que sustenta o sem número de especialistas – do sexo, da depressão, do pânico, etc.

Na Psicanálise, o clínico é alguém que faz parte do próprio processo, sendo um elemento desse processo. O clínico, pois, deve criar condições para o estabelecimento da transferência, além de suportá- la. O saber não está do lado do analista, só pode ser construído a partir dos sentidos tecidos no sintoma do sujeito.

     O saber necessita ser suposto no analista para que o sujeito chegue à análise.

Ninguém vai procurar um terapeuta no qual não acredite haver um saber. Cuidado, porém: para o psicanalista, crer nisto também é tomar-se como um deus onisciente – o que está na esfera da psicose, é claro. O saber, então, é suposto e deve ser sustentado, não corroborado, para levar o sujeito à descoberta de seu desejo – o único saber a que se pode chegar.

De tudo isto, a partir da Psicanálise, considero que se leve em conta o desejo do sujeito, pois é de acordo com ele que  se procure qualquer terapêutica. Há pessoas que desejam se livrar de um sintoma a qualquer custo, e que não estão dispostas ao autoconhecimento. Outras desejam conhecer-se mais que à formação sintomática. É não perdendo isto de vista que tanto a Psicologia como a Psicanálise podem ser consideradas importantes para o alívio do sofrimento psíquico.

Como avisei inicialmente, este artigo é um espaço de reflexão, uma tentativa de “amarrar” uma série de conclusões que não foram estabelecidas por mim, é claro. Foi a partir de muitas leituras, de minha prática e da observação constante que cheguei a esta exposição.

Para maiores esclarecimentos, indico alguns textos importantes, que subsidiaram minhas idéias, embora não estejam todos claramente apontados neste breve texto.

Referências

APA. Manual Diagnóstico e Estatístico das Doenças Mentais – DSM IV. Porto Alegre. Artes Médicas; 1995. Bleichmar CL, Bleichmar NM. A Psicanálise depois de Freud. Porto Alegre. Artes Médicas; 1992. Cottet S. Sobre o analista objeto a. FALO 1987; 1: 73-80. Cunha JA. Psicodiagnóstico-R. Porto Alegre. Artes Médicas; 1995. Dor J. Clínica Psicanalítica. Porto Alegre. Artes Médicas; 1996. Ey H et al. Manual de Psiquiatria. São Paulo. Masso; (s. d.). Foucault M. História da Loucura. São Paulo. Perspectiva; 1991. Freud S. Obras Psicológicas Completas. Edição Standard

Brasileira. Rio de Janeiro. Imago; 1980.

Garcia-Roza LA. Introdução à MetaPsicologia Freudiana. Artigos de MetaPsicologia – 3. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor; 1995.

Kury JÁ, Pérez CD. Desenvolvimento em Psicopatologia Psicanalítica. São Paulo. Papirus; 1988. Laplanche J, Pontalis JB. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo. Martins Fontes; 1992.

Mcdougall J. Em defesa de uma certa anormalidade. Porto Alegre. Artes Médicas; 1983. Mannoni M. O psiquiatra, seu “louco” e a Psicanálise. Rio de Janeiro. Zahar; 1971. Mannoni M. Um saber que não se sabe. A experiência analítica. Campinas. Papirus; 1989.

Mezan R. Figuras da Teoria Psicanalítica. São Paulo. Escuta/ Edusp; 1995. Nasio JD. A criança magnífica da Psicanálise. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Ed.; 1988. Pacheco Filho RA, Coelho Jr N, Rosa MD. Ciência, Pesquisa, Representação e Realidade em Psicanálise. São Paulo. Educ/ Casa do Psicólogo; 2000. Pinto JM. Psicologia/Psicanálise: sobre a teoria da clínica e sobre a clínica da teoria. Conselho Regional De Psicologia – 4a. Região. Psicologia: possíveis olhares outros fazeres. Belo Horizonte. CRP 4a Região; 1992. Quinet A. Clínica da Psicose. Seminários da Clínica Freudiana- 2. Salvador. Fator; 1986. Rudge AM. Pulsão e Linguagem. Rio de janeiro. Jorge Zahar Ed.; 1998.

Trinca W. O Pensamento Clínico em Diagnóstico de Personalidade. Petrópolis. Vozes; 1983. WHO. Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID 10. Porto Alegre. Artes Médicas; 1993.

Zygouris R. Ah! As Belas Lições! São Paulo. Escuta; 1995. Endereço para correspondência Roberta Ecleide Kelly

 

Entrevista de Jorge Forbes para Época negócios

Para o psiquiatra e psicanalista, as empresas precisam fazer análise para entenderem as peculiaridades de uma época, na qual as hierarquias rígidas e verticalizadas fazem pouco sentido.

Como gerir equipes, reter talentos ou se comunicar com os consumidores em um mundo sem bússolas, em constante mutação? Lidar com dilemas desse quilate, óbvio, não é uma tarefa simples. Mas algumas pistas para a solução de problemas desse tipo podem ser encontradas em um lugar insólito: em um divã, por exemplo. O psiquiatra e psicanalista  Jorge Forbes, um dos introdutores das teorias de Jacques Lacan no Brasil, está convicto de que as empresas precisam fazer análise. Isso para que entendam as peculiaridades de uma época, na qual as hierarquias rígidas e verticalizadas fazem pouco — ou nenhum — sentido. “As relações humanas, sob o ponto de vista psicanalítico, não são mais intermediadas por um padrão estável”, diz Forbes. “E isso torna todos mais frágeis. Por isso, as pessoas estão cada vez mais sujeitas a passar por verdadeiros curtos-circuitos”. Daí,  observa o médico, a explicação para a ocorrência de tumultos variados, o que inclui desde manifestações populares ao aumento de crimes provocados por reações intempestivas.

O senhor tem observado a ocorrência frequente de crimes hediondos, envolvendo pessoas comuns. O que está acontecendo em nossa sociedade?

Temos de constatar algo óbvio. Um tipo específico de crime, até recentemente raro, está se tornando cada vez mais comum, quase habitual. Presenciamos uma verdadeira epidemia desse gênero de crimes, marcado por linchamentos, pessoas picadas (zeladores e maridos), além de pais, mães e filhos assassinados uns pelos outros. Não estou dizendo que vivemos em uma época em que acontecem mais crimes. Não é isso. Mas é inegável que há um aumento de um problema específico. Casos que antes eram raros, hoje se tornaram mais comuns.

O que distingue esses crimes?

Todos são hediondos e foram praticados por pessoas comuns, sem antecedentes criminais, sem ficha corrida.

Por isso, surpreendem?

Exato. São inusitados, no sentido específico da palavra — ou seja, parecem fora de lugar. As pessoas que os cometeram são muito semelhantes àquelas que nunca fizeram nada parecido. Esse tipo de situação coloca todos em alerta. Deixa as pessoas angustiadas. Elas dizem: “Me explique qual a diferença entre mim e esses criminosos, porque eu quero ter certeza de que nunca faria algo parecido”. O ser humano está se defrontando com um aspecto assustador da sua condição: somos bichos perigosos. E a nossa época favorece essa percepção.

Por quê? Qual a influência desta época?

O homem reage de forma diferente conforme a época em que vive. Aliás, nós chamamos de época a forma como o homem fixa a interação com os outros homens e com o ambiente em determinado espaço de tempo. Nós passamos do período moderno para o pós-moderno. As mudanças foram expressivas.

Qual a diferença entre esses dois períodos?

No moderno, sob o ponto de vista psicanalítico, as relação humanas eram intermediadas por um padrão estável. Na família, havia a lei do pai. Nas empresas, os funcionários seguiam a lei do chefe. Na sociedade civil, vigoravam as leias da pátria. A relação era piramidal. Ela estabelecia o certo e o errado e as pessoas criavam uma identidade a partir desse padrão.

O que ocorre na sociedade pós-modernidade?

O laço social muda. Ele deixa de ser único, hierarquizado. O padrão até existe, mas se torna multifacetado. Há uma multiplicidade de padrões. Na sociedade pós-moderna, que também é chamada de “rede”, as relações humanas também são mais diretas. Elas são menos intermediadas. Não passam por um elemento comum de reconhecimento, como o pai, o chefe e a pátria. Essas novas relações tendem a ter uma intensidade maior, mas sofrem rupturas de maneira muito mais rápida. O chamado “deletar”, utilizado no computador, passa a ser aplicado nas relações pessoais. As pessoas se “deletam” o tempo todo. Hoje, são próximas. Amanhã, acabou. Não estou dizendo que isso vai ficar assim. Eu defendo a ideia de que estamos vivendo um momento de passagem.

E o que a época tem a ver com os crimes inesperados?

Esse novo mundo tem uma característica importante. Ele cria uma relação afetiva sujeita a curtos-circuitos.

Como assim?

Antes, havia um circuito pactuado, com o pai, o chefe e a pátria, em que você tinha maneiras de se relacionar e até de brigar. Agora, não. Os padrões são menos evidentes. E, de repente, uma pessoa entra em curto-circuito e pode cometer uma atrocidade. O que é uma surpresa até mesmo para ela. Repito: com isso, não quero justificar e nem diminuir responsabilidade dos criminosos por seus atos. É justamente o contrário. Como vivemos em uma sociedade que passou por uma desregulamentação, que não tem mais uma norma clara, temos de aumentar o botão da responsabilidade subjetiva. É bom que nos assustemos com esses crimes, porque, sim, nós somos parecidos com os criminosos. Qualquer pessoa está fragilizada e pode ter reações intempestivas.

O senhor fala que vivemos em um mundo sem bússolas. Faltam valores?

Sim, os valores têm tudo a ver com isso. Na verdade, estamos em um período de mudança de valores. Fomos criados com base em valores externos. Nesse ponto, concordo com Luc Ferry [filósofo francês]. Ele diz que o homem ocidental não morre mais por grandes ideais, mas morre pelas pessoas que lhe são próximas. É mais sensível à família, ao amigo, à namorada. O que existe é uma responsabilidade menos heroica. A amizade toma o lugar da admiração.

Por que as pessoas estariam dispostas a morrer?

A pergunta é por que, ou por quem, eu me sacrifico. A palavra sacrifício tem a mesma base etimológica do termo sagrado. Aquilo que é sagrado para mim são as pessoas mais próximas. Aquelas que dividem um espaço tangível na minha experiência vital: meu irmão, meu filho, minha mãe, meu professor. Na época moderna, por ser vertical, nós admirávamos pessoas como Winston Churchill, John Kennedy, Juscelino Kubitschek. Admirávamos os grandes homens. Se bem que é verdade que o Brasil nunca admirou muito ninguém. O brasileiro nunca se tomou muito a sério, o que faz com que este seja um a país pós-moderno por excelência.

Essa mudança na forma de admirar também altera a atitude das pessoas?

Sim. As pessoas, principalmente com mais de 40 anos, mediam as suas atitudes para saber se elas estavam mais próximas ou distantes da pessoa admirada. Se você educar um menino do século 21 a partir desses moldes, ele vai achar graça. O mundo de hoje não tem lugar para esse tipo de admiração vertical e distante.

Como as empresas entram nesse cenário?

Mal, mal, muito mal. Elas cometem erros básicos. Ainda acham, por exemplo, que a amizade pode ser uma coisa perigosa. Na verdade, é o contrário. Como vimos, ela é um valor fundamental nesta época. Antes, quando você indicava uma pessoa para um posto no trabalho, dizia: “Ele é um cara bom e não porque é meu amigo”. Hoje, as pessoas dizem: “Ele é bom e, além do mais, é meu amigo”. Não há problema nessa relação de amizade e nem todas as empresas perceberam essa mudança como parte de uma alteração maior. Hoje, como eu disse, vivemos em período mais flexível, com menor padronização. Por isso, ele se torna incompleto. A subjetividade surge como um recurso importante para completar este mundo. Daí, a importância dada à amizade. Este momento que vivemos é muito mais da razão sensível do que da razão asséptica.

Quais os outros problemas das empresas?

Elas tentam criar uma imagem de meninas bem comportadas de uma forma equivocada. É por isso que os seus princípios — missões, valores e códigos de ética — são genéricos. Todos dizem que se trata de uma companhia sustentável, que respeita a competição ética, além dos funcionários e do meio ambiente… Esses documentos corporativos usam termos padronizados. Assim, todos parecem iguais. Mas isso dá uma impressão de falsidade. Depois, os executivos perguntam: “Por que não temos aderência? Por que perdemos tantos funcionários?”. Ora, quem acredita nesse tipo de coisa? Ninguém. Nem eles mesmos.

O que fazer? Como melhorar esses códigos de ética?

Estamos em um mundo novo, com novos sintomas, mas utilizando velhos remédios. Essa é a pior coisa a ser feita. Você vai dormir tranquilo, achando que está medicado, mas é o contrário. O problema continua lá e só está aumentando. As empresas devem falar mais ao desejo e menos à necessidade das pessoas. Elas têm de dar menos valor às histórias gloriosas e acentuar as histórias singulares. Os códigos de ética têm de ser mais parecidos com pactos, nos quais os funcionários vejam representado o mundo atual e não o mundo anterior, que era de caráter disciplinador.

As empresas precisam ir para o divã?

Sim. Eu concordo com o jornalista Zuenir Ventura. Ele disse recentemente que a sociologia não dará mais conta da nossa sociedade. A psicanálise, por sua vez, é uma teoria mais forte para entender a época atual. Nós temos uma prática bastante consistente e estabelecida conceitualmente para não nos apavorarmos diante do mundo incompleto. Inconsciente, aliás, quer dizer aquilo que eu não sei. O mundo de hoje funciona através de mecanismos incompletos.

Quais os outros erros das empresas?

Vejo que, às vezes, as empresas não entendem qual é o produto que realmente têm. O iPhone, por exemplo, não foi exposto por Steve Jobs como uma máquina. Ele foi apresentado ao mundo como uma interface. Com isso, deixou de ser um objeto de consumo. Ele se tornou uma referência cultural. Uma empresa não sobreviverá por muito tempo se não for uma editora de cultura. E não estou falando de patrocínio de cultura. Isso é outra coisa. As empresas têm de descobrir qual é a maneira que os seus produtos alteram o contexto de nossas vidas. É isso o que devem enfatizar.

O senhor disse que o software criado por Freud não dá mais conta da sociedade. Isso também tem a ver com a pós-modernidade?

Sim. Freud criou um software maravilhoso. Muito melhor do que o do Bill Gates. Pelo menos, durou cem anos. Ele precisava entender de que maneira o homem estava articulado com o mundo. Captou a estrutura da organização humana da sua época. Percebeu que ela era piramidal. Colocou a mãe, do ponto de vista metafórico, como aquilo que quero alcançar. E colocou o pai como o percurso. Tudo isso com uma simplicidade inacreditável. Ele nos convenceu de que éramos edípicos, que a verdade humana era edípica. Agora, isso mudou.

Como?

Antes, eu buscava, na minha condução analítica, interpretar a posição edípica das pessoas. Com isso, elas ficavam sabendo mais de si mesmas. Hoje, essa passagem também existe na análise, mas há algo mais importante: tentar saber agir frente aquilo que não se compreende. Não vivemos mais em uma sociedade iluminista. Está é uma sociedade que funciona por meio de monólogos articulados e não de diálogos.

O senhor pode citar um exemplo?

Nas manifestações de rua do ano passado, todos ficaram loucos para entender que diabo era aquilo. E não tem nada para entender. Aquilo era um diabo mesmo. Era tudo multifacetado. Não havia uma bandeira de luta. Não adianta tentar entender aquelas manifestações como os protestos de 1968. Aliás, hoje, as pessoas não perguntam mais se os outros estão compreendendo os seus pontos de vista. Elas perguntam se aquilo que faz sentido para mim, também faz para você. E não se trata do mesmo sentido para ambos. Daí o surgimento de termos como “tá ligado?”. Ele questiona se houve um sentido compartido. Não se existiu uma significação comum. É isso o que está na essência da chamada sociedade viral. As empresas também não sabem trabalhar nesse ambiente. Estão reagindo e insistindo com modelos do mundo anterior porque se sentem mais seguras. Ficam inseguras quando se tira o padrão. Elas adotam palavras do mundo pós-moderno e agem como antes. Precisam fazer essa passagem paradigmática.

Mas as manifestações de 2013 não mostram que as pessoas buscavam uma liderança? Não havia um anseio pela velha verticalização?

Só conseguimos entender a organização por meio da figura do líder, aquele que conduz uma série de pessoas que dão a ele esse papel. Esse é o modelo anterior. O novo modelo de líder não é esse. É de uma pessoa que cause em você mais um desejo e menos que explique para você como lidar com uma necessidade. Observe, durante os protestos, o governo tentou responder àquelas pessoas por meio do discurso da necessidade. Ele dizia: “Ah, vocês querem que o preço das passagens de ônibus diminua? Está bem”. Mas não era isso que estava em jogo.

E como o governo deveria responder?

Mas a questão é justamente essa. Não se trata de responder. É preciso interagir. Nós ainda estamos presos a modelos antigos. Observamos um problema e tentamos encontrar uma solução. Não é isso. Neste caso, é interessante observar como as mulheres agem. Elas são muito mais pós-modernas do que os homens. Quando uma mulher traz um problema, o homem já pensa em sugerir uma solução. Diz: “Ligue para o marceneiro, para o encanador, faça isso, faça aquilo”. Mas ela não quer uma solução. Ela quer expor o problema. Estamos agindo como homens que não conseguem lidar com a queixa feminina. A pós-modernidade tem um quê de queixa feminina. Ela não tem, necessariamente, um objeto definido. Com ela, muitas vezes, o mais importante é interagir. Não solucionar.

Entrevista publicada no site da revista ÉPOCA NEGÓCIOS em 16/6/2014