Mulheres mais livres tornam os homens mais espertos

Luc Ferry associa a clareza com a consistência e faz da filosofia um estudo consequente. Considerado um dos mais importantes filósofos franceses da atualidade, Ferry, aos 63 anos bem pensados e bem vividos, acumula uma extensa obra exposta em mais de 20 livros, muitos deles editados em português – como Do Amor – Uma Filosofia para o Século 21 (ed. Difel).Polêmico, o filósofo não teme desagradar a alguns, como quando, sendo ministro da Educação da França, no governo Chirac, proibiu o uso do véu por muçulmanas nas escolas públicas. Também soube incomodar ao escrever um livro relativizando o propagado heroísmo intelectual da orgulhosa geração 68, aquela das barricadas estudantis.

Tornamo-nos os melhores amigos de infância ao chegarmos, por caminhos muito diferentes – ele, pela filosofia; eu, pela psicanálise –, a conclusões em tudo semelhantes da existência de um “novo amor”, nos tempos atuais de pós-modernidade. Um novo amor que, diferente do anterior, responde por um “eu quero” sem maiores justificativas, sejam elas da tradição, sejam da religião, econômicas ou outras. Esse aspecto revolucionário marca um novo paradigma no laço social, abre-se a um novo humanismo, que pode nos orientar nessa época do homem desbussolado.

O que segue são trechos escolhidos de uma conversa que tivemos recentemente, em sua casa parisiense, ao cair da tarde de um dia frio, mas cheio de conversa quente e atual sobre como viver o século 21.

 Jorge Forbes – O que você costuma chamar de “novo humanismo”?

Luc Ferry – Tivemos dois grandes momentos do humanismo: o do século 18-19, herdeiro das luzes, é o humanismo do direito e da razão, que levou ao pensamento republicano, à democracia e à ideia de tornar justa a vida dos seres humanos. O segundo humanismo é justamente o que chamei de “a revolução do amor”. É a invenção do casamento por amor. A passagem do casamento arranjado ao casamento escolhido. Só depois da Segunda Guerra Mundial o casamento por amor vai se tornar a regra.

 Jorge Forbes – Como o casamento por amor muda a humanidade?

Luc Ferry – Os historiadores nos ensinam que foi o capitalismo moderno que inventou o casamento por amor. Evidentemente, sem querer. Simultaneamente ao surgimento do assalariado, deu-se o nascimento do indivíduo. Com a autonomia material que o salário proporciona, as pessoas decidem casar-se, e não mais serem casadas. É a história do século

  1. Antes os motivos do casamento eram a linhagem, a economia e a biologia. A classe operária começa a se casar por amor bem antes da classe burguesa, por razões patrimoniais evidentes. Os operários não tinham nada a perder. E quando inventam o casamento por amor na Europa, quase que imediatamente inventa-se o divórcio. Foi na França do final do século 19, em 1884.

Jorge Forbes – E como essa herança impacta as famílias do século 21?

Luc Ferry – A revolução do amor, por mais íntimo que seja o sentimento no qual se apoia, transforma todos os domínios da atividade humana. E não subverte nossa existência apenas na vida privada, mas na esfera pública. No fundo há três idades da família. Primeiro, a aristocrática: sem amor e sem divórcio. Segundo, a burguesa, de 1850 a 1950. Não havia divórcios na família burguesa. O presidente da República não se divorciava. As pessoas se amavam seis dias e se aporrinhavam 60 anos. Homens enganavam mulheres dia e noite. O bordel era, evidentemente, uma instituição que permitia que a família sobrevivesse. E, finalmente, depois de 1960, vem a terceira idade da família, que é a atual. Hoje, 50% dos casamentos terminam em divórcio em toda a Europa. É o preço da liberdade do amor. A liberdade e o amor são bem mais difíceis que a tradição.

 Jorge Forbes – O divórcio e o amor-paixão…?

Luc Ferry – Se não havia amor nos casamentos, não precisava haver divórcio. Ao fundamentarmos o casamento no amor-paixão, é evidente que se fundamenta a instituição casamento em algo frágil e variável. Para um casal atual, o fato de não mais se amarem torna-se motivo de divórcio. Na Idade Média, o desamor não constituía motivo para tal. Foi somente após a Segunda Guerra Mundial, na Europa, depois de 1945, e olhe lá!…

 Jorge Forbes – E o amor em si? Amor é o relato do amor? Se não houvesse relato, haveria amor?

Luc Ferry – O amor é provavelmente tão velho quanto a humanidade. Não é simplesmente o relato do amor, mesmo que para um psicanalista ele possa se apresentar, por vezes, assim. O que você recebe no seu consultório são pessoas que vão contar suas desventuras, seus fracassos, seus medos em relação ao amor. O amor-paixão é difícil. É o sentimento que nos faz sair de nós mesmos antes que possamos falar dele.

 Jorge Forbes – A passagem da sociedade tradicional, vertical, à sociedade horizontal, contemporânea, deixou o homem de hoje sem referências…

Luc Ferry – Estou escrevendo um pequeno livro bem impactante. Não é o crescimento pelo incentivo ao consumo que caracteriza o capitalismo. O que produz crescimento é a lógica da inovação e a ruptura com a tradição. O iPhone é o símbolo perfeito do capitalismo moderno. Mas isso acontece em todos os setores. É da lógica do capitalismo inovar. Não só nos iPhones, nos computers, mas no casamento gay, nos costumes, na informação que muda todo dia, na arte contemporânea que é pura inovação e ruptura, na moda. A moda não existe nas sociedades tradicionais. O sari, o quimono permaneceram os mesmos durante séculos.

 Jorge Forbes – A inovação seria sempre positiva?

Luc Ferry – Na inovação, há duas lógicas: a do melhor e a do pior. Há a emancipação das mulheres, que é a melhor notícia do século, porque não existe homem livre sem mulher livre.

isso que salvará o Terceiro Mundo. Conta-se com as mulheres. Damos dois dólares a um homem nos confins de uma sociedade tradicional, ele vai comprar uma cerveja; damos os mesmos dois dólares a uma mulher, ela vai comprar grãos de trigo para plantá-los.

Jorge Forbes – E a diferença entre gêneros?

Luc Ferry – Em termos históricos, é evidente que a mulher é o doméstico, a vida privada. Cuidavam dos velhos, dos doentes e das crianças. Assim eram mais afetivas que intelectuais, mais privadas do que públicas. O que acontece nas sociedades modernas é o resultado da emancipação das mulheres. Nesse sentido, repito, como você lembrou, Simone de Beauvoir: as mulheres são de fato homens como os outros. Não vejo diferença entre uma mulher política e um homem político. São iguaizinhos: o mesmo desejo de conquista. Angela Merkel é claramente um homem como os outros. Mas, na escala da história, é uma novidade absoluta. E não apenas vivemos inovações magníficas, mas vivemos muito mais, muito melhor, muito mais livres. Vivemos com mulheres que são elas próprias mais livres. E que tornam os homens bem mais espertos.

 Jorge Forbes – Inovar significa também destruir…

Luc Ferry – Sim. A inovação rompe com a tradição e desconstrói os costumes tradicionais. O casamento gay, debatido no Ocidente, era inimaginável para os meus avós. Assim, temos inovação e desconstrução. A verdade é que estamos vivendo num mundo de inovação genial e destruição terrificante. Há também notícias terríveis: a desestruturação da escola, da educação, a perda da civilidade.

 Jorge Forbes – O novo humanismo responde a essas rupturas?

Luc Ferry – O principal efeito dessa era de inovação e ruptura é a revolução do amor. É uma revolução na ordem do sagrado. O sagrado não é o religioso. É aquilo pelo que poderíamos nos sacrificar. Aquilo pelo que daríamos a vida. É a história das guerras: já se morreu por Deus, já se morreu pela pátria e pela revolução. E hoje ninguém mais está disposto a morrer por nada disso. Em compensação, pelas pessoas que amamos, estamos prontos a arriscar nossas vidas. Vivemos a sacralização do humano. Há uma transcendência do ser amado que nos faz sair de nós mesmos. Pela primeira vez na história da humanidade, essa transcendência não vem do céu, mas está no coração.

 Jorge Forbes – Para Sartre, a existência precede a essência. Que incidência temos desse pensamento no século 21?

Luc Ferry – Para o ser humano, diz Sartre, primeiro existimos e depois nos definimos. Que problema isso coloca com relação ao envelhecimento, por exemplo? É que nas sociedades em que vivemos há essências flutuantes. Há papéis sociais que podemos de algum modo adotar, como se, ao voltarmos para casa, enfiássemos os pés num velho sapato confortável. Assim, temos a possibilidade de nos identificar com papéis como a mulher infantil, o machão bocó, o revolucionário de cabelos longos, o jornalista irônico, o pai de família, o psicanalista que tira os óculos e diz para seu paciente “bom, vejamos”. Todos esses papéis estão prontos e são tentadores. São modelos conhecidos. E o simbólico é a capacidade de se libertar disso. Podemos nos libertar dos papéis sociais.

Jorge Forbes – O que você pensa do perigo de se vestir papéis?

Luc Ferry – A questão é: como envelhecer sem se tornar imbecil? Como envelhecer sem entrar em uma essência prévia? Como permanecer livre? Os escritores, por exemplo. Vejo meus amigos escritores, ao envelhecer, preferirem administrar um fundo de comércio – espécie de essência que foi construída pelos livros que escreveram – em vez de continuar a inventar coisas. Isso é o perigo. E isso é o envelhecimento. No fundo nos conformamos a uma essência que construímos de nós mesmos, que acaba por nos aprisionar.

 Jorge Forbes – Um beijo gay em um final de uma novela parou o Brasil. Como pensar isso?

Luc Ferry – O Brasil talvez seja, de todos os países do mundo, aquele que foi mais transtornado pelo fato de ser, ao mesmo tempo, o mais tradicionalista e o mais inovador. Entre os BRICS, o Brasil é o que mais cultiva a tradição – não só católica, mas de vários povos tradicionais que coexistem no País – e o mais centrado na novidade, na modernidade. É um país que está saindo da tradição de modo extraordinariamente rápido. Na Europa, isso durou séculos. O Brasil e a China são os dois países ao mesmo tempo mais tradicionais e mais inovadores na globalização contemporânea. Um símbolo como o casamento gay, ou o reconhecimento da legitimidade da homossexualidade, é inovador. E se inscreve dentro da lógica da tradição. É “destruição criadora”. Nesses países simultaneamente tradicionais e inovadores, isso é sentido de modo violento e fascinante. Jamais na história da humanidade se viveu tal erosão dos valores tradicionais. E o Brasil está no coração desse processo.

 Jorge Forbes – Para concluir, como repercutiu em você a derrota do Brasil na Copa do Mundo?

Luc Ferry – Gosto de esportes, mas não da loucura atual em torno do futebol. Acho preocupante fazermos desses jogadores os Ulisses e os Aquiles da nossa era. Apesar de todo o marketing milionário, eles estão muito longe disso. Me sinto desesperado ao ver a importância que tomou o futebol, em nossos dias. O mundo estaria melhor se torcêssemos com o mesmo empenho por Stravinsky ou por Einstein, como o fazemos por Zidane ou Ribéry. Os brasileiros bem souberam apontar a incongruência dos gastos abusivos nas reformas e construções de estádios fantasmas. É delirante. Diferenciando o que é o amor pelo futebol, do seu em torno de conchavos interesseiros, o Brasil reagiu muito bem, mostrando a possibilidade de encontrar uma medida mais justa a essa paixão.

Entrevista publicada na revista IstoÉ GENTE – agosto de 2014.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s