Função da Psicanálise

Afinal, para que serve a psicanálise? O que está em jogo durante o tratamento analítico? Qual o papel do psicanalista? Tais questões são discutidas no artigo abaixo, do psicanalista e membro da SBPSP Claudio Castelo Filho. Vale a leitura!

Corroída pela própria rejeição de si mesma, uma pessoa não pode contar consigo mesma. Enfraquece, adoece, e fica cada vez mais a mercê dos grupos e da opinião alheia às quais não pode fazer face por não dispor de recursos com que contar. Uma pessoa que está de bem consigo própria pode pertencer a qualquer tipo de minoria (as pessoas que consideram e se valem do próprio discernimento, adquirido pela experiência e não por submissão a autoridades ou dogmas, sempre fazem parte de uma minoria), mas estando em maioria consigo mesma, poderá enfrentar e lidar com esse fato.

Considero que a única função de uma psicanálise é apresentar uma pessoa a ela mesma – a quem de fato é, não a quem acredita ser, ou considera que deveria ou seria o certo ser – para que possa, se assim quiser e se dispuser, “casar-se consigo”. Como ela mesma é a única pessoa de quem de fato não pode se separar, seria fundamental para sua qualidade de vida e possível felicidade que esteja num bom casamento com sua própria personalidade.

Não tente se curar de você mesmo! É como doença autoimune: devasta!

Mesmo que uma pessoa possa ter uma natureza como a do Japão, com terremoto, maremoto, vulcões, tufões, invernos rigorosos, pouca terra produtiva, o reconhecimento e respeito a essa natureza, considerando-a tal como realmente é, e não como seria bom que fosse ou como deveria ser, permite um grande desenvolvimento justamente por conta da necessidade de manejar e tirar partido dessa natureza. Brigar com ela ou negá-la certamente não resulta em boa coisa… E certamente o que lá fizeram evidencia o quanto de proveito conseguiram tirar dessa natureza. Como dizia Wilfred Bion: how to make the best of a bad job, ou como se diz em português: como tornar proveitoso um mal negócio. Obviamente o psicanalista não faz isso só. A cooperação e o interesse verdadeiro do analisando em conhecer a realidade, mesmo que a princípio possa se sentir muito incomodado com o que for percebendo, são fundamentais para a tarefa ir adiante. A atitude de verdadeira compaixão e simpatia humana por parte do analista é também fundamental. Isso só é possível para um analista que tenha tido ele mesmo a mais extensa e profunda análise de sua própria personalidade. E numa formação séria de um psicanalista essa é uma questão sine qua non..

Minha tarefa é a de auxiliar uma pessoa a usar seus próprios recursos psíquicos, aqueles que realmente tem, que são os passíveis de evoluir com o processo analítico, para pensar por si mesma. Paradoxalmente, o desenvolvimento da autonomia de um indivíduo e de sua possibilidade de pensar livre e criativamente é o que pode trazer as maiores contribuições reais para os grupos de que possa fazer parte. Basta considerar o exemplo de Freud.

* Claudio Castelo Filho é analista didata da SBPSP, doutor em Psicologia Social, professor livre docente em Psicologia Clínica pela USP.

Fonte: http://psicanaliseblog.com.br/

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