O médico e psicanalista argentino Luis Chiozza, especialista em fenômenos psicossomáticos, tenta entender como o sofrimento do homem se relaciona, diretamente, com a sua própria história de vida

Por: Lucas Vasques Fotos: Eduardo Dayen

Tentar compreender como o sofrimento do homem se relaciona com a sua própria história de vida; como as diferentes emoções, decorrentes das vicissitudes biográficas inerentes à condição humana, quando são reprimidas, normalmente se expressam em humor patológico e distúrbios corporais; buscar um entendimento maior dessa relação para que se consiga estender os limites terapêuticos da Psicanálise para o campo das patologias que alteram a forma e a função dos órgãos. Estes são alguns dos objetivos profissionais de Luis Chiozza, médico e psicólogo argentino, especialista em fenômenos psicossomáticos. Nascido em Buenos Aires, em 1930, Chiozza ressalta que, ao longo dos anos, a Psiquiatria, cada vez mais, vem adquirindo conhecimento, o que veio a se chamar de Psiquiatria Dinâmica. “Os profissionais da área começaram a reunir conceitos, que enriqueceram, sobremaneira, a Psicologia, a Psicanálise e a Psiquiatria, fato que ajuda muito as discussões sobre a ligação entre o corpo e a mente. Exploramos estes dois pontos como aspectos de uma mesma realidade”, explica.

Seu livro Para que sirve el Psicoanálisis? , lançado em 2013, na Argentina, indaga sobre novas respostas à pergunta que dá nome à obra. O autor explica: “Procuro me dedicar a explorar o tema com claridade, mas sem recorrer a simplificações excessivas, uma vez que, apesar da grande divulgação a qual tem sido alvo a Psicanálise, há muita confusão a respeito de qual é seu objetivo essencial. A tese que se desenvolve nos capítulos do livro parte do fato de que muitos sofrimentos na vida cobram um preço elevadíssimo, o qual se paga como consequência de se ter esquecido experiências negativas, que, reprimidas, se transformam em sintomas ou alterações de caráter”. Para o médico, uma das questões essenciais, que devem ser discutidas hoje, não se passa pela necessidade de se modernizar a Psicanálise de Freud, como alguns especialistas apregoam. “Apesar de a investigação, na teoria e na clínica, trazer consigo novos progressos, o ponto crítico, em nossos dias, reside, precisamente, em que, com a justificativa de uma modernização da Psicoterapia, se incorre em deformações. Essas distorções fazem com que se desconheça princípios fundamentais, vendendo ilusões, que, em pouco tempo, desanimam os pacientes e desprestigiam o método”.

Chiozza é diretor do Centro Weizcaecker de Consulta Medica e do Instituto de Docencia e Investigación de La Fundación Luis Chiozza, além de presidente honorário do Instituto di Ricerca Psicosomatica- Psicoanalitica Arminda Aberastury de Perugia, na Itália.

O programa de cuidados de saúde, desenvolvido na Fundação Luis Chiozza, procura desenvolver uma metodologia chamada de estudo patobiográfico. “Esse método, que requer a colaboração de uma equipe de psicoterapeutas e médicos de outras especialidades, permite que você use as descobertas da Psicanálise em casos de emergência, além de implementar a Psicoterapia para resolver situações específicas.

 

 

 

 

Por meio dessa forma de praticar Medicina, orientada para a integração dos recursos fornecidos pelas várias disciplinas que compõem o conhecimento científico, já atendemos mais de 2.5 00 pacientes”, explica Chiozza.

 

Você é especialista em fenômenos psicossomáticos. inicialmente, como se deve conceituar o termo, ou seja, o que são doenças psicossomáticas?

Luis Chiozza – Para que uma enfermidade seja considerada “psicossomática” não significa, na nossa maneira de pensar, que a doença em questão se origina psiquicamente, que é consequência de uma causa psíquica, como muitas pessoas supõem. A palavra correta para definir esse pensamento não seria “psicossomática”. Nesse caso, o correto é utilizar o termo “psicogêneses”. Se quisermos pensar em causas e efeitos, deveríamos assinalar que todas as doenças são, ao mesmo tempo, psicogenéticas e somatogenéticas. Reparemos que uma coisa é dizer que nem sempre encontramos “a causa” psíquica, ou física, de uma doença, mas outra, muito diferente, é sustentar que uma enfermidade é a consequência da única causa que encontramos numa análise superficial. Um micróbio (o bacilo de Koch), por exemplo, é uma condição necessária para provocar a tuberculose. No entanto, não se pode dizer que seja a causa dessa doença, porque não é uma condição suficiente, uma vez que nem todas as pessoas que estão em contato prolongado e frequente com esse micróbio ficam doentes.

Podemos dizer que a psicossomática é a união de dois fatores distintos, a Psique e o corpo, que se influenciam reciprocamente, ou seriam dois aspectos de uma unidade só?

Chiozza – A Psique e o corpo são duas coisas que existem como realidades diferentes, fora da consciência humana. São dois aspectos de uma mesma unidade. O poeta inglês William Blake (que morreu 30 anos antes do nascimento de Sigmund Freud) dizia que chamamos de corpo a parte da alma, a qual se pode perceber por meio dos órgãos sensoriais. A isto agregamos o que chamamos de alma, ou seja, a vida que anima o corpo, que se manifesta como atividade e movimento, a qual denominamos intencional (automobilidade). Quando atribuímos uma vida psíquica aos seres que julgamos semelhantes, o fazemos a partir das sensações que, em nossa consciência, constituem um registro parcial do sentido, que anima nossa própria vida. Podemos usar como exemplo o que ocorre quando duas pessoas se beijam. Elas o fazem, sempre, com o corpo e com a alma. Se não fosse assim, se ao beijo faltasse o corpo ou a alma, já não seria um beijo. Quando mastigamos um caramelo, não há sentido perguntar se o mastigamos com o corpo ou com a alma. Quando ficamos doentes acontece o mesmo. Adoecemos, sempre, no corpo e na alma, ainda que existam algumas doenças as quais nossa consciência registra como se só fossem físicas, e outras que registramos como se, apenas, acontecesse na alma. Pensamos, então, que todas as doenças são “psicossomáticas”, ainda que, nem sempre, nos damos conta de que, ao ficarmos doentes, o corpo e a alma sempre adoecem juntos.

Quando atribuímos uma vida psíquica aos seres que julgamos semelhantes, o fazemos a partir das sensações que, em nossa consciência, constituem um registro parcial do sentido, que anima nossa própria vida

É correto dizer que as pessoas que não desenvolvem mecanismos para enfrentar determinados acontecimentos da vida, que desembocam em estresse, são mais suscetíveis a doenças psicossomáticas?

 

 

Chiozza – A Medicina progrediu muito em seus conhecimentos e em sua eficácia, descobrindo como as causas produzem seus efeitos (quer dizer, descobrindo “mecanismos”). A Psicanálise, com seu descobrimento do psíquico inconsciente, ressaltou um ponto de vista distinto, que enriquece e completa a questão relacionada à “psicossomática”. Importa muito termos conhecimento sobre como adoecemos, mas também é relevante saber por que e para que adoecemos. Podemos dizer, junto com Weizsaecker (o fundador da Antropologia), que tudo o que conhecemos como corpo tem um sentido psicológico, e que todo o psiquismo tem uma correlação corporal.

É correto dizer que até hoje os fenômenos psicossomáticos continuam uma incógnita, apesar de serem alvos de muitos estudos? Qual a principal importância da Psicossomática nos dias de hoje?

Chiozza – Existem dois pontos de vista: um que busca as causas e outro que indaga o significado inconsciente, de uma determinada doença, na vida da pessoa. Ambos não se excluem. Ao contrário, complementam-se, ampliando as possibilidades de terapia. Isso existe, apesar do fato de que a quantidade de pessoas que solicita assistência psicológica é maior a cada dia. Entretanto, falta dar um passo muito importante, que, hoje, nos parece extremamente distante: consiste em compreender que a Psicanálise não deve ser considerada um ramo especializado da Neuropsiquiatria. Pelo contrário, deve fazer parte da formação de todo o médico, uma vez que (como acontece com a Microbiologia) seus conhecimentos são necessários para o exercício de qualquer especialidade.

 

Quais as diferenças das abordagens da Medicina e da Psicanálise em relação a esses fenômenos? A Medicina, frequentemente, utiliza medicamentos para o tratamento, atacando os sintomas e não as causas. Essa prática não corre o risco de mascarar o problema real?

Chiozza – A partir do momento em que os executivos conseguirem, por meio dos exercícios propostos, controlar o impulso e tomar decisões que vão ao encontro dos anseios e vontades legítimos, certamente conquistarão melhores resultados com eles e suas equipes Todo médico sabe que aliviar os sintomas, utilizando medicamentos, pode ser um recurso valioso, mas que há ocasiões em que é necessário evitar que o tratamento mascare o progresso da doença que esses sintomas representam. Essa maneira de proceder, que surge da observação do que ocorre, por exemplo, como algumas infecções, segue sendo válida, quando levamos em conta a evolução dos significados inconscientes dos processos patológicos. Quando compreendemos que todas as doenças surgem como consequência de uma crise na vida, a qual o paciente não consegue resolver sem prejudicar o funcionamento de seus órgãos, passamos a entender, também, que, se em lugar de abordar os conflitos inconscientes que se expressam por meio dos sintomas, “suprimirmos” esses sintomas utilizando medicamentos, o mal estar reprimido, certamente, vai se agravar.

Adoecemos, sempre, no corpo e na alma, ainda que existam algumas doenças as quais nossa consciência registra como se só fossem físicas, e outras que registramos como se, apenas, acontecesse na alma

A medicina convencional classifica algumas doenças como psicossomáticas. por exemplo, síndrome do intestino irritável, fibromialgia, fadiga crônica, Lúpus, hipertensão, dermatite, doenças alérgicas, entre outras. isso está correto?

Chiozza – As primeiras observações conduzem a um grupo grande de autores, que sustenta que havia enfermidades “psicossomáticas” (dermatites, bronquite asmática etc.), nas quais o que se chamava “a influência do fator psíquico” se considerava

 

 

 

indubitável, e outras (como o câncer ou a cirrose hepática), nas quais essa influência não era tão importante. Fez parte desse modo de pensar a tentativa de defender a tese de que determinadas estruturas de personalidade eram propensas a apresentar alterações “de origem psicossomática”.

Como diagnosticar e de que forma deve ser abordado pelo profissional da psicanálise o fenômeno das doenças psicossomáticas? existe um perfil clássico de características de personalidade que facilitam o surgimento desse problema?

Chiozza – Uma observação mais aprofundada conduziu – a partir do que sustentavam Sigmund Freud e Victor Von Weizsaecker – a outro ponto de vista, de uma minoria, que foi crescendo pouco a pouco. Consiste em pensar que todas as doenças “são psicossomáticas”, já que o organismo humano, em si mesmo, “é psicossomático”. Faz parte deste último critério a compreensão de que o psiquismo não opera como um fator entre outras causas, sendo que, sem rechaçar a investigação das causas e os mecanismos, mediante os quais exercem seus efeitos, os transtornos físicos dos seres vivos expressam significados inconscientes. Desse ângulo de observação, a doença – como “gesto” inconsciente – não é só a consequência de um conjunto de causas. É uma forma de linguagem, uma maneira expressiva dentre todas aquelas, por meio da qual os seres animados buscam levar a cabo seus propósitos, administrando suas dificuldades para realizar suas intenções. Não há dúvida de que as emoções são “comoções” viscerais (típicas), que se reprimem quando entram em um conflito com outros sentimentos, algo que não se consegue conciliar. Freud se ocupou em descrever de que maneira essas emoções reprimidas surgem como ações ou sentimentos inadequados, que configuram um “núcleo” neurótico, psicopático ou psicótico da personalidade. Em todas essas conclusões do “retorno” do reprimido, os afetos mantêm sua coerência e surgem, na consciência, como emoções diferentes. Com o tempo, descobrimos, todavia, que as doenças são processos “patossomáticos”, nos quais a repressão, deformando os afetos, conduz ao surgimento, na consciência atual, da figura típica de uma emoção, que se manifesta pelas alterações patológicas (igualmente típicas), que denominamos enfermidades.

Todo médico sabe que aliviar os sintomas, utilizando medicamentos, pode ser um recurso valioso, mas que há ocasiões em que é necessário evitar que o tratamento mascare o progresso da doença que esses sintomas representam

Os fatores externos ao corpo, como vivências traumáticas, fragmentação familiar, hábitos comportamentais, enfim, os históricos de vida (relação pais- -filho) podem influenciar na ocorrência de doenças psicossomáticas?

Chiozza – Da mesma forma que acontecem interpretações dos conflitos pessoais, com base na trajetória do indivíduo dentro dos aspectos que impõem uma transformação social, ocorre quando se trata de vivências relacionadas à fragmentação familiar.

 

A pobreza e as transformações sociais podem ser consideradas importantes fatores de risco para o estresse, para o suicídio, para o abuso de substâncias e, em consequência, para o surgimento de doenças psicossomáticas?

Chiozza – É fato que a enfermidade pode tomar parte, de maneira geralmente inconsciente, do que se configura como uma manifestação perversa ou sadomasoquista. Essa afirmação não contradiz outra, fundamental, que sustenta que o processo patológico constitui a forma que o paciente procura resolver os

 

 

conflitos que o atormentam. Esses conflitos podem ser interpretados, por meio de diversas óticas, inclusive na relação com as transformações sociais.

O nosso trabalho é mais abrangente e, ao mesmo tempo, mais efetivo e especifico, pois possui elementos terapêuticos, inclusive, algumas técnicas do coaching, técnicas de grupo terapia e exercícios dirigidos de cunho comportamental em empresas e negócios

O ego tem um papel significativo na ocorrência desses fenômenos?

Chiozza – Esses fenômenos também podem ser interpretados como respostas a situações de estresse, que ultrapassam os limites da capacidade de adaptação, ou como um produto da incapacidade do ego para reagir, de maneira adequada, diante das exigências da realidade. É preciso levar em conta que a teoria postulada por Hans Selve, sobre estresse, nunca pretendeu explicar por que os efeitos provocados pelas situações estressantes, em um indivíduo, podem provocar enfarto do miocárdio e, em outro, apenas uma dor de cabeça. A investigação psicoanalítica revela que os significados inconscientes que encontramos em uma determinada doença (aqueles que revelam o histórico biográfico específico) são tão típicos dessa enfermidade como os transtornos fisiopatológicos que a caracterizam. Costuma-se afirmar que não existem enfermidades sem os enfermos, querendo dizer com isso que não encontraremos dois pacientes com os mesmos transtornos. É verdade, até certo ponto. Entretanto, se não pudermos aprender com um paciente o que pode ocorrer com outro, a patologia médica, como Ciência, deixará de existir. Não encontraremos nos seres humanos dois narizes exatamente iguais, mas há algo que distingue os narizes e que, sem dúvida, os diferencia do que caracteriza as orelhas. À medida em que progredimos na compreensão psicoanalítica das doenças, fomos descobrindo que os acontecimentos biográficos que as determinam ocorrem em função de uma independência direta com os traços de caráter, que constituem a maneira de ser e proceder de uma pessoa.

Uma vez tratadas, essas doenças podem voltar?

Chiozza – Uma vez que é muito pouco o que podemos fazer para modificar as circunstâncias biográficas do sujeito, surge, com clareza, a percepção de que a Psicoterapia que oferece as melhores possibilidades de evitar que os transtornos retornem será a que aponta para a modificação de caráter. É importante sublinhar (para evitar enganos e falsas ilusões que, costumeiramente, conduzem a decepções que poderiam ser evitadas) que se trata de uma tarefa que, como é evidente nos processos de treinamento e de aprendizagem, requer uma dedicação prolongada, reiterada e frequente.

Fonte: http://psiquecienciaevida.uol.com.br/ESPS/Edicoes/99/artigo311614-1.asp