A corrupção no divã

 

Corromper, diferentemente de subornar, significa quebrar em pedaços, desnaturar, tornar podre. O que apodrece? No limite, as próprias instituições democráticas

 A corrupção sempre foi endêmica entre nós, mas nos últimos anos ela foi oficialmente institucionalizada. Corromper, diferentemente de subornar, significa quebrar em pedaços, desnaturar, tornar podre. O que apodrece? No limite, as próprias instituições democráticas. Pois, uma vez institucionalizada, a corrupção torna natural um modo de vida no qual os valores ligados à democracia são desqualificados, e se tornam marginais ao sistema.

Para a Psicanálise, a corrupção pode ser entendida como um fenômeno, que se produz no entrecruzamento de três espaços psíquicos distintos: a) individual, marcado por um funcionamento mental paranoico; b) intersubjetivo, no qual a pessoa que tem poder “enlouquece”, com a ajuda das pessoas com quem convive e c) institucional, em que a corrupção foi transformada em uma instituição. A participação de cada um desses três espaços psíquicos pode se dar em “proporções” diferentes, originando “corrupções” distintas. Respectivamente: a) como sintoma de uma estrutura patológica, b) como efeito de um “enlouquecimento” mais ou menos transitório e c) como modo de vida. A corrupção descarada e deslavada é efeito da potencialização recíproca desses três espaços psíquicos.

Começo abordando o funcionamento paranoico, ligado ao espaço psíquico individual. O termo “indivíduo” aqui se refere tanto a uma pessoa, quanto a um grupo, por exemplo, um partido político.

Psiquicamente, o paranoico não é capaz de conceber, nem de processar, situações complexas. Ele, simplesmente, não tem esse “chip”. Por isso, as situações são simplificadas e reduzidas a um esquema binário, no qual o bem e o mal são vividos como absolutos. Sua visão de mundo é sempre “nós, os bons, contra eles, os maus”. O paranoico se percebe como perfeito, melhor do que os outros: é justo, correto e bom, enquanto os outros são injustos, estão errados e são do mal. Candidamente, ele se põe no centro do mundo: só existe uma opinião, a dele. Por isso, tem a expectativa sincera de que o outro reconheça sua superioridade e se submeta a ele, renunciando a suas próprias necessidades e desejos. Espera amor incondicional. É autoritário, tem ideias de grandeza, certezas absolutas e não admite críticas. Se alguém tem uma opinião diferente, é visto como desleal e traidor. Ou, então, é visto como incapaz e fraco, digno de desprezo. O paranoico também não tem o “chip” que lhe permitiria empatizar com o

sofrimento do outro; não o vê como um “semelhante”, que tem as mesmas necessidades e os mesmos direitos.

O paranoico luta fanaticamente para defender sua causa. Se for preciso transgredir a lei para atingir seus objetivos, fará isso como um herói que se sacrifica por um bem maior

Para o paranoico, seus objetivos, que são sempre bons, justos e nobres, justificam os meios. Ele fará qualquer coisa para alcançar seus objetivos. Se é acusado de alguma coisa, se ofende, porque a acusação é vivida como injusta. Sente-se, cronicamente, lesado em seus direitos. Por isso, é ressentido e rancoroso. Estrutura-se em torno do ódio ao outro, sempre visto como inimigo e como ameaça a seus projetos pessoais. Nessas condições, o paranoico pode se tornar violento e as pessoas sentem medo dele. Para Elias Canetti, o paranoico, como o ditador, sofre de uma doença do poder. Esta se caracteriza por uma vontade patológica de sobrevivência exclusiva e por uma disposição, ou mesmo um impulso, para sacrificar o resto do mundo em nome da sobrevivência.

O segundo espaço psíquico, que contribui para o fenômeno da corrupção, é o intersubjetivo. Para a Psicanálise, ninguém enlouquece sozinho, mas no espaço psíquico constituído pela relação com outros sujeitos. O poderoso pode enlouquecer num vínculo com pessoas que, sistematicamente, assumem uma posição reverente, intimidada, subserviente, de devoção fascinada e apaixonada. Por todas as características já descritas, o paranoico está bem talhado para produzir, exatamente, este tipo de reação nas pessoas que o cercam. Aliás, é a mesma atitude acrítica que a criança pequena tem em relação aos pais, que são vividos como aqueles que “podem tudo”. O poderoso enlouquece quando se identifica com isso, isto é, quando “acredita”, na mensagem que lhe é transmitida, inconscientemente, pelo lado mais infantil das pessoas com quem convive: que ele é superior aos outros e, por isso, tem o direito e o dever de gozar mais do que todos. Desta perspectiva, a corrupção pode ser entendida como sintoma de certo tipo de enlouquecimento – não no sentido de doença mental, mas no de hybris, palavra que, em grego, significa excesso ou desmesura. A hybris pode acometer a pessoa que tem poder político, financeiro e/ou simbólico. Sua loucura consiste em tentar se igualar aos deuses – que não precisam temer nada, porque estão acima do bem e do mal. Quanto mais ficamos fascinados numa posição de submissão apaixonada, menos nos atrevemos a lhe mostrar que a lei vale para todos, e mais contribuímos para enlouquecer quem tem poder.

A corrupção é o processo por meio do qual o pacto perverso, que seduz o sujeito autorizando-o a gozar mais do que todos, vai sendo instituído

O terceiro espaço psíquico, que contribui para o fenômeno da corrupção, é o institucional. Para a Psicanálise, os sistemas simbólicos instituídos, em certa época e lugar, formam o pano de fundo de nossa vida psíquica. Isso quer dizer que instituem ideias e valores que determinam nossa maneira de sentir, pensar e agir. Ora, a corrupção pode deixar de ser uma prática ocasional para se tornar uma instituição. Esse processo tem duas fases: a desnaturação das instituições democráticas e a instituição da corrupção.

A primeira acontece quando alguém que ocupa, formalmente, o cargo de representante de uma instituição, se “demite psiquicamente” de seu lugar simbólico. Ele deixa de sustentar, por meio de seus atos cotidianos, os valores instituídos. Em vez disso, coloca interesses pessoais acima dos interesses da instituição. O efeito dessa “demissão” é a corrupção e a desnaturação da própria ordem simbólica, que funda e sustenta aquela instituição.

Um exemplo. Quando um juiz se deixa subornar, ou, simplesmente, intimidar, – e vimos, acima, como o paranoico pode se tornar violento a ponto de, realmente, causar medo – ele está se “demitindo” de seu lugar simbólico. O que acontece é que o vínculo, até então naturalizado, entre a palavra “juiz” e o significado “justiça”, vai se enfraquecendo, até que, no limite, se dissolve e se desnatura. Segue-se um efeito em dominó. Todas as palavras ligadas a este sistema simbólico perdem o lastro que a instituição viva e o símbolo forte garantiam. Em lugar de inspirar afetos do tipo temor respeitoso, a toga e a beca nos parecem roupas engraçadas; as palavras “réu”, “culpa”, “transgressão”, “punição”, “lei”, “justiça” continuam existindo no vocabulário, mas estão vazias de significado emocional, já não acreditamos nelas. A instituição se torna disfuncional; ideias e valores,

que justificavam sua existência, entram em crise. Instala-se uma condição de miséria simbólica, que deixa as pessoas sem rumo. O suborno do juiz corrompe a instituição justiça.

Processo cultural Paralelamente, a corrupção se institucionaliza. Torna-se uma cultura que tende a se reproduzir de forma autônoma. O pacto social democrático está baseado em um “contrato”, mediante o qual cada um de nós aceita renunciar às aspirações infantis de realizar todos os nossos desejos de forma absoluta, para, em troca, fazer parte da comunidade humana. Aceitamos que a lei vale para todos, porque todos precisamos da proteção da lei. A renúncia ao absoluto e a submissão à lei, contudo, são feitas a contragosto e nunca de forma definitiva. Gastamos bastante energia psíquica para fazer a gestão desses desejos e mantê-los sob certo controle civilizado. Por isso, essas fantasias regressivas de plenitude e onipotência, que estão latentes em todos nós, podem ser “acordadas” a qualquer momento. Basta que “alguém” acene com essa possibilidade. Aí, é a fome com a vontade de comer.

O desvio de recursos é criminoso, e certamente prejudica o país, mas a institucionalização da desqualificação da lei coloca em risco a democracia

Esse “alguém” é a corrupção como instituição. Ela seduz o sujeito propondo- lhe um pacto perverso no lugar do pacto social. Ele é convidado a desqualificar a lei e a renúncia, em troca da possibilidade de realizar o desejo imorredouro de transcender os limites inerentes à condição humana. A desqualificação da lei se torna um valor e origina um modo de vida. Não é difícil perceber que o pacto perverso não tem condições de garantir a vida em sociedade.

A institucionalização da corrupção é gravíssima porque institui como um valor a desqualificação da lei – aquela que coloca limites à desmesura de nossos desejos, base do pacto social democrático. O pacto perverso seduz e agencia o sujeito acenando-lhe com a possibilidade, vetada pela lei, de gozar mais do que todos. A corrupção, como instituição, faz do pacto com o diabo um valor e um modo de vida.

 

Propina na ficção

 

Em tempos de Mensalão e Petrolão, o filme Sindicato de ladrões ( Elia K azan, 1 954, O n the waterfront) é obrigatório. Conta a história da luta contra a corrupção que tomou conta do sindicato dos estivadores de Nova York na década de 1950. O sindicato, que deveria ser dirigido pelos trabalhadores, está nas mãos de uma máfia que controla as operações embolsando lucros milionários. Propinas e superfaturamento fazem parte do cotidiano. Ninguém mais consegue trabalho se não se submeter às chantagens e extorsões dos chefões. Para garantir seus privilégios, estes são implacáveis com qualquer um que os critique ou se oponha a seus projetos pessoais. Os “traidores” são sumariamente eliminados, sem que os mandantes dos crimes sejam punidos. O efeito psicológico desse sistema corrupto é que os trabalhadores perdem a dignidade, atemorizam-se e perdem a esperança em um futuro melhor. O clima é opressivo e depressivo. As coisas começam a mudar quando uns poucos inconformados se mobilizam para recuperar a autonomia do sindicato. No começo, com medo das consequências, os estivadores hostilizam os colegas que denunciam o esquema e tentam desmontá-lo. Aos poucos, na medida em que recuperam a autoestima e a esperança, descobrem que são muitos contra poucos. Vencem a inércia, saem da passividade e passam a se responsabilizar pelo que é deles.

Assim, de um ponto de vista psicanalítico, podemos definir a corrupção como o processo por meio do qual a desqualificação da lei – aquela que coloca limites aos nossos desejos individuais megalomaníacos, e que, por isso mesmo, é base do pacto social democrático – vai sendo institucionalizada. O processo se completa quando a corrupção se torna, em si mesma, uma instituição. O desvio de recursos é criminoso e, certamente, prejudica o País, mas a institucionalização da desqualificação da lei coloca em risco a democracia.

Reunindo os fios da meada: quando um indivíduo ou grupo tem uma visão de mundo paranoica do tipo “nós, os bons/justos/donos da verdade, contra eles, os maus/desleais, que ameaçam nossa sobrevivência”; quando este indivíduo ou grupo convoca, pela via do amor ou da intimidação, o lado inconsciente, infantil, submisso e reverente das pessoas que o cercam; quando a instituição torna natural a desqualificação da lei, e acena, sedutora, mas perversamente, com a possibilidade de realização das fantasias infantis de onipotência, estão dadas as condições, do ponto de vista psíquico, para a corrupção descarada e deslavada. Mais cedo ou mais tarde, paga-se, como na lenda sobre o Dr. Fausto, o preço de se vender a alma ao diabo.

 

Marion Minerbo – Psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

 

 

Fonte: http://psiquecienciaevida.uol.com.br/ESPS/Edicoes/109/a-corrupcao-no-diva-corromper-diferentemente-de-subornar-significa-337880-1.asp

 

 

 

Medicina reconhece obsessão espiritual

Código Internacional de Doenças (OMS) inclui influência dos Espíritos

 

Dr. Sérgio Felipe de Oliveira com a palavra:

Ouvir vozes e ver espíritos não é motivo para tomar remédio de faixa preta pelo resto da vida… Até que enfim as mentes materialistas estão se abrindo para a Nova Era; para aqueles que queiram acordar, boa viagem, para os que preferem ainda não mudar de opinião, boa viagem também…

Uma nova postura da medicina frente aos desafios da espiritualidade.

Vejam que interessante a palestra sobre a glândula pineal do Dr. Sérgio Felipe de Oliveira, médico psiquiatra que coordena a cadeira de Medicina e Espiritualidade na USP:

A obsessão espiritual como doença da alma, já é reconhecida pela Medicina. Em artigos anteriores, escrevi que a obsessão espiritual, na qualidade de doença da alma, ainda não era catalogada nos compêndios da Medicina, por esta se estruturar numa visão cartesiana, puramente organicista do Ser e, com isso, não levava em consideração a existência da alma, do espírito. No entanto, quero retificar, atualizar os leitores de meus artigos com essa informação, pois desde 1998, a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu o bem-estar espiritual como uma das definições de saúde, ao lado do aspecto físico, mental e social. Antes, a OMS definia saúde como o estado de completo bem-estar biológico, psicológico e social do indivíduo e desconsiderava o bem estar espiritual, isto é, o sofrimento da alma; tinha, portanto, uma visão reducionista, organicista da natureza humana, não a vendo em sua totalidade:

Mente, corpo e espírito.

Mas, após a data mencionada acima, ela passou a definir saúde como o estado de completo bem-estar do ser humano integral:

Biológico, psicológico e espiritual.

Desta forma, a obsessão espiritual oficialmente passou a ser conhecida na Medicina como possessão e estado de transe, que é um item do CID – Código Internacional de Doenças – que permite o diagnóstico da interferência espiritual Obsessora.

O CID 10, item F.44.3 – define estado de transe e possessão como a perda transitória da identidade com manutenção de consciência do meio-ambiente, fazendo a distinção entre os normais, ou seja, os que acontecem por incorporação ou atuação dos espíritos, dos que são patológicos, provocados por doença.

Os casos, por exemplo, em que a pessoa entra em transe durante os cultos religiosos e sessões mediúnicas não são considerados doença.

Neste aspecto, a alucinação é um sintoma que pode surgir tanto nos transtornos mentais psiquiátricos – nesse caso, seria uma doença, um transtorno dissociativo psicótico ou o que popularmente se chama de loucura bem como na interferência de um ser desencarnado, a Obsessão espiritual.

Portanto, a Psiquiatria já faz a distinção entre o estado de transe normal e o dos psicóticos que seriam anormais ou doentios.

O manual de estatística de desordens mentais da Associação Americana de Psiquiatria – DSM IV – alerta que o médico deve tomar cuidado para não diagnosticar de forma equivocada como alucinação ou psicose, casos de pessoas de determinadas comunidades religiosas que dizem ver ou ouvir espíritos de pessoas mortas, porque isso pode não significar uma alucinação ou loucura.

Na Faculdade de Medicina DA USP, o Dr. Sérgio Felipe de Oliveira, médico, que coordena a cadeira (hoje obrigatória) de Medicina e Espiritualidade.

Na Psicologia, Carl Gustav Jung, discípulo de Freud, estudou o caso de uma médium que recebia espíritos por incorporação nas sessões espíritas.

Na prática, embora o Código Internacional de Doenças (CID) seja conhecido no mundo todo, lamentavelmente o que se percebe ainda é muitos médicos rotularem todas as pessoas que dizem ouvir vozes ou ver espíritos como psicóticas e tratam-nas com medicamentos pesados pelo resto de suas vidas.

Em minha prática clínica (também praticada por Ian Stevenson), a grande maioria dos pacientes, rotulados pelos psiquiatras de “psicóticos” por ouvirem vozes (clariaudiência) ou verem espíritos (clarividência), na verdade, são médiuns com desequilíbrio mediúnico e não com um desequilíbrio mental, psiquiátrico. (Muitos desses pacientes poderiam se curar a partir do momento que tivermos uma Medicina que leva em consideração o Ser Integral).

Portanto, a obsessão espiritual como uma enfermidade da alma, merece ser estudada de forma séria e aprofundada para que possamos melhorar a qualidade de vida do enfermo.

 

Texto de Osvaldo Shimod

 

Fonte:http://www.espiritbook.com.br/forum/topics/medicina-reconhece-obsess-o-espiritual-2?commentId=6387740%3AComment%3A2122276

 

 

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Conceitos da Psicanálise contribuem para melhorar o Direito de Família

Já é antiga, intensa e, por vezes, tensa a união estável entre o Direito de Família e a Psicanálise. Esta, desde seus primórdios ousou empregar a metodologia de análise crítica que lhe é própria, ampliando o conhecimento — e as resistências a este — dos atos e fatos jurídicos. E, então, a questão da verdade, da objetividade, e mesmo da imparcialidade, passou a ganhar nuances das verdades subjetivas e da inelutável interação entre sujeito e objeto; aspectos por vezes difíceis em incorporar. Nesta coluna, elenco alguns conceitos operativos da Psicanálise ao Direito de Família, apontando algumas das direções que se afiguram num horizonte de mudanças.

A noção de um inconsciente, não descoberto mas sistematizado por Sigmund Freud, como integrando a dinâmica psíquica que nos constitui, trouxe importante contribuição, relativizando a autonomia da vontade. Também representou um golpe a uma pretensa proximidade do ideal de ciência exata e à ideia de que o processo resolve o conflito. Golpe que ganhou força com a noção de que é vã a pretensão em dissociar e, mesmo artificialmente, opor o pensamento ao sentimento ou a razão à emoção. A consequência de tal pretensão era a do afeto entrando pela porta dos fundos nos processos familiares, pretensão balanceada por uma excessiva racionalização. Golpes de sorte em uma paradoxal desumanização das ciências humanas….

A compreensão da mente como composta de instâncias como id, ego e superego — modelo inspirado na estrutura judicial — sistematizou lugares na mente: aos impulsos, às funções da personalidade, aos afetos, à instância crítica, às leis internas ao sujeito. Instâncias por natureza conflitivas entre si. E o conflito passou a ser visto como inerente à vida que se desdobra a partir de suas transformações.

A concepção da mente como composta por instâncias permitiu a compreensão dos necessários ecos que a lei tem no superego e na formação da personalidade. Foi ressaltada a importância do relacionamento familiar como base da formação do caráter e constituição do indivíduo. É na família que se aprendem as leis. Evidenciou-se, assim, um dos porquês da necessária proteção à família como base da sociedade.

O conflito e a angústia passaram a ser compreendidos não mais como tensões indesejáveis nem como sinais psicopatológicos de “doença” a ser curada, mas como inerentes à própria

existência humana. Sonhos, atos falhos, comportamentos e sintomas próprios ao humano ganharam um lugar de símbolos a serem compreendidos.

Faz-se necessário entender a origem da angústia e dos sintomas, decodificando os símbolos, estes decorrentes do impasse da luta pela satisfação dos desejos e sua proibição. Pelo ângulo do Direito, o que não é proibido é permitido e, pelo ângulo, do desejo, o que é proibido é tentador.

A Psicanálise trouxe um outro enfoque ao conflito entre amor e ódio e à compreensão das paixões e da sexualidade. Assim, foi formulada a lei fundamental de constituição da família e da personalidade — a interdição do incesto — e de realização de desejos que colocam em risco as relações e a sociedade. A luta entre Eros e Thanatos, entre impulso de vida e impulso de morte, entre amor e ódio foi compreendida como inerente à vida de relações.

Se queremos abordar a complexidade da família, devemos compreendê-la, abraça-la, como uma estrutura psicológica, em cuja organização cada um ocupa um lugar e, sobretudo, exerce uma função, criando-se, assim, os vínculos entre seus integrantes. A família é uma organização marcada pela diferença entre as gerações e entre as funções, cuja finalidade é a de proteção daqueles que são os mais vulneráveis — crianças, adolescentes e idosos. A família é o espaço de realização dos mais fundamentais direitos da personalidade. As funções aí exercidas são necessariamente complementares e se traduzem no Direito nas questões do estado — de filho, de pai, de mãe, parental e conjugal — em que os sujeitos de direito o são em relação aos seus pares. Direitos complementares.

Ainda outra contribuição da Psicanálise está no conceito ampliado da sexualidade, cujas manifestações afetivas permeiam a compreensão da família e de cada um em sua fase de vida. Sexualidade entendida como as diversas formas de ligação, de vínculo. Por óbvio não se trata aqui da sexualidade em seu sentido genital. Despida do preconceito, a noção ampla de sexualidade integra a compreensão do que é próprio à vida mental dos desejos e fantasias, aquilo que é da ordem da subjetividade. E, também, tal noção ampla integra a realidade da ordem da objetividade, e daquilo que é proibido e do que é permitido.

E despir de preconcepções a sexualidade, dando-lhe um lugar digno na existência humana — o de matéria prima da formação dos vínculos —, por sua vez elevou o afeto à integrar lugar central no Direito de Família, chegando a ser entendido, por alguns, como princípio e como valor jurídico.

Ademais da contribuição epistemológica da Psicanálise, mais recentemente se estabilizam suas contribuições no seio dos processos familiares, nas questões da equalização do poder familiar nas disputas pela guarda, nas da alienação parental, nas tocantes às denúncias de abuso sexual e nas questões da parentalidade e da multiparentalidade.

A compreensão dos processos como sintomas de relações disfuncionais e a experiência e frustração em relação aos resultados das lides judiciais, com a cronificação dos conflitos e rompimento das relações familiares, e os efeitos traumáticos dos processos judiciais, questionam a função e papel do Judiciário e os institutos de que este dispõe quanto à abordagem dos conflitos familiares. Determinações e sentenças não cumpridas e a consciência de que os conflitos em muito ultrapassam o aparente objeto das lides, demandam outros institutos que transcendem o aprimoramento legislativo. Assistimos uma crescente demanda pela colaboração dos operadores da saúde mental, psicólogos, psicanalistas, psiquiatras e assistentes sociais para tentar elucidar e encaminhar os sintomáticos impasses levados ao Judiciário. As tentativas de acordo, sem a compreensão daquilo que anima os conflitos, têm, cada vez mais, levado ao questionamento do dito: “antes um mau acordo do que uma boa demanda”. Os ventos sopram em direção a um outro norte, em que não só as perícias, mas a conciliação, a mediação e as denominadas práticas colaborativas ganham um lugar privilegiado na nobre tarefa em fortalecer e restaurar as relações familiares.

 

Por Giselle Câmara Groeninga

Fonte: http://www.conjur.com.br/2015-mar-22/processo-familiar-conceitos-psicanalise-contribuem-direito-familia

 

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