Os benefícios do tempo

 

Pesquisas comprovam que pessoas mais velhas não têm necessariamente pior desempenho. muitas tarefas são realizadas com mais eficiência pelos idosos.

Eles são muito lentos, esquecidos, inflexíveis. Quando submetidos a pressão, cometem mais erros, desconhecem o trabalho em equipe e ignoram as novas técnicas. Essa é a opinião corrente sobre os profissionais mais velhos. Com frequência, os supeeriores decidem em favor de candidatos na faixa dos 30 anos. Pesquisas recentes, entretanto, mostram que, com o avanço da idade, algumas capacidades cognitivas são fortalecidas. Muitas vezes isso ocorre como resultado de um mecanismo que procura compensar a menor velocidade de trabalho em outras funções. Nos últimos anos, estudos realizados com técnicas de imageamento revelaram que, com o transcorrer do tempo, as redes neurais são reestruturadas e o sistema nervoso central simplesmente passa a ativar diferentes áreas cerebrais. Como a expectativa de vida aumentou, a idade de ingresso na aposentadoria é cada vez maior e muitas pessoas retornam ao mercado de trabalho; cresceu também o contingente de pessoas que pemanecem profissionalmente ativas por mais tempo. Algumas áreas já apresentam um quadro paradoxal: enquanto os profissionais com mais de 40 anos têm muita dificuldade de se empregar; as organizações reclamam da falta de candidatos qualificados. Minguam os trabalhadores mais jovens e bem formados. Faz-se necessária uma mudança de modelos, pois considerar inadequado um candidato com mais de 45 anos em decorrência da idade corresponde a desqualificar sua experiência e seus valiosos recursos.

Pesquisas gerontológicas mostram que, quando comparadas entre si, as pessoas mais velhas apresentam diferenças de desempenho notáveis em muitas tarefas consideradas críticas. Tal fato contradiz a opinião generalizada de que ao envelhecer todo ser humano necessariamente desenvolve deficiências. Os estudos comprovam ainda mais: só alguns processos cerebrais são afetados pelo envelhecimento. Hoje; nenhum especialista crê na idéia de que as funções cognitivas são prejudicadas em sua totalidade com o passar do tempo.

O pesquisador Cheryl Grady,! do Insstirúto de Pesquisa em Toronto, Canadá, demonstrou que, nos indivíduos mais velhos, outras regiões do córtex cerebral, diferentes das utilizadas pelos jovens, são responsáveis pelo reconhecimento fisionômico, por exemplo. Na Universidade Duke, Carolina do Norte, Roberto Cabreza encontrou provas de que as pessoas com mais idade e pior desempenho de memória tinham ativadas as mesmas regiões cerebrais que os jovens. Já os mais velhos com boa performance apresentavam um padrão de ativação neurológica diverso. Ficou claro que a reestruturação neural pode compensar eventuais déficits de rendimento. Aparentemente, porém, nem todas as pessoas com idade avançada apresentam essa capacidade.

  • Vantagem pela experiência

De qualquer maneira, os idosos possuem uma vantagem muito nítida sobre os principiantes: o conhecimento constituído por meio da experiência, a que os pesquisadores chamam “inteligência cristalizada”. Esta abrange os conhecimentos gerais e o vocabulário dominado pela pessoa. Além disso, os mais velhos frequentemente apresentam competência social muito superior à dos jovens. Tal fato é crescentemente reconhecido pelos empregadores, que preferem os mais experientes para as tarefas de assessoria e relacionamento com o cliente.

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Com o avanço da idade, o rendimento da inteligência cristalizada se mantém constante ou até aumenta em indivíduos saudáveis.

Todavia, cada vez menos o mundo do trabalho moderno faz uso das competências dessa habilidade. O que conta em todas as profissões é rapidez e flexibilidade. Motoristas de caminhão têm rotinas de trabalho muito dinâmicas e precisam se orientar com agilidade em ambientes desconhecidos. A realização dessas tarefas fica a cargo da chamada “inteligência fluida”, responsável pelo bom desempenho quando é necessário mudar rapidamente de uma tarefa para outra ou em ocasiões em que é preciso direcionar o foco de atenção e selecionar informações relevantes.

Nesse âmbito os mais velhos ficam em pior atuação. A psicóloga Jutta Kray, da Universidade de Saarbrücken, Alemanha, comprovou que as dificuldades são especialmente grandes quando é necessário coordenar duas tarefas simultâneas. A pesquisadora expôs pessoas de diferentes idades a figuras coloridas ou em preto-e-branco nas quais estava representado um retângulo ou um triângulo. Elas tinham de informar se viam cores ou formas – no caso, um triângulo ou um retângulo. A informação deveria vir intercalada: duas vezes seguidas era preciso identificar a cor da figura e nas duas vezes subsequentes, o formato; depois novamente a cor, e assim por diante.

Ficou demonstrado que os mais velhos sempre apresentavam desempenho pior quando mudavam de tarefa. O custo da alteração cognitiva era, portanto, mais alto para eles. As capacidades basais do controle cognitivo pareciam afetadas: mesmo depois de transcorridos inúmeros testes, as dificuldades permaneciam e não era possível removê-Ias com treinamento.

 

Porém, nem todas as notícias são ruins. Algumas indicações relativizam a idéia da “idade inflexível”, pois as falhas dependem bastante de condições marginais. As restrições podem ser plenamente compensadas quando as condições de trabalho são modificadas.

  • Difícil decisão

Com o estudo mais detalhado das bases fisiológicas no cérebro, muitas restrições cognitivas adquirem novo significado. Recentemente, nosso grupo de trabalho associou-se a Juliana Yordanova e Vasil Kolev, da Academia Búlgara de Ciências, para estudar o motivo do atraso da reação em pessoas mais idosas expostas a estímulos que exigiam respostas diferenciadas.

Elaboramos um experimento no qual os participantes liam em um monitor ou ouviam em um fone uma das quatro vogais: A, E, I e O. A cada letra lida ou ouvida, deveriam pressionar uma tecla o mais rápido possível. A tecla correspondente a cada vogal deveria ser acionada com um dedo diferente (indicador ou médio da mão esquerda e da direita, respectivamente). Quando surgiam novos estímulos, as pessoas tinham, então, de decidir como reagir enquanto sua atividade cerebral era medida por meio de eletroencefalograma.

Nos processos cognitivos ou nas percepções sensoriais, ocorrem os chamados potenciais relacionados a eventos (event-related brain potentials – ERPs). Os componentes do ERP permitem interferir no funcionamento dos processos neurais. A porção inicial do sinal corresponde, no experimento das vogais, ao processamento do estímulo. As ondas seguintes representam o desenvolvimento do pensamento e da decisão de ação. Por fim, pouco antes da resposta motora, há um componente que representa a preparação do movimento do dedo. O tempo de reação dos mais velhos foi cerca de 60 milissegundos mais longo que o dos mais jovens, e a porcentagem de erro, mais baixa.

Como se produz o retardamento da reação? Esse experimento não mostrou em qual etapa os cérebros mais idosos perdiam mais tempo: se na percepção visual ou na auditiva, na decisão sobre qual dedo usar ou na execução da resposta motora. Para obter essa informação, foi feito um teste de controle, no qual os estímulos eram os mesmos que no primeiro experimento, mas a reação deveria ocorrer sempre com o mesmo dedo.

Essa tarefa simplificada era realizada com mais velocidade por todos, e as diferenças de desempenho entre jovens e velhos desapareciam. As faixas etárias apresentavam diferenças estatisticamente insignificantes. Seria possível concluir que o processo de decisão sobre qual dedo usar era responsável pelo retardamento da reação nas pessoas mais velhas.

Contudo, como se apresentava o quadro quando os potenciais relacionados a eventos desse teste eram analisados? Surpreendentemente, os potenciais responsáveis pelo reconhecimento do estímulo eram bem mais

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altos nos indivíduos mais idosos que nos jovens. Assim, seu cérebro parecia compensar algo, ou seja, despendia maior esforço para chegar ao mesmo resultado.

Além disso, os ERPs relativos à percepção visual dos mais velhos eram retardados por alguns milissegundos, o que não acontecia com os estímulos acústicos. Isso mostra que o processamento visual é um pouco menos eficiente nos mais velhos, embora a diferença com relação aos moços seja muito pequena. Todavia, não explica por que os primeiros demoravam mais a decidir entre as teclas no experimento em que era necessário determinar qual dedo usar, e por que esse retardo era igualmente longo em estímulos visuais e acústicos, apesar de a percepção visual ser um pouco mais lenta que a sonora.

A explicação foi encontrada na porção do ERP que espelha o preparo da resposta. Quando determinado dedo é mobilizado, há aumento substancial de atividade na área cerebral correspondente a esse dedo. O chamado potencial lateralizado de prontidão (lateralized readiness potential – LRP) indica quão inntensamente o cérebro se prepara para determinada ação.

O sinal elétrico do potencial de prontidão era iniciado sem demora nos mais velhos. Porém era bem mais intenso que nos jovens. E até que a reação fosse desencadeada, passava-se mais tempo. O real motivo do atraso não é então a demanda de tempo maior para a tomada de decisão, mas reside muito mais no tempo necessário para os preparativos da resposta motora.

  • Elogio à lentidão

Pode ser que o centro motor do cérebro mais velho seja menos sensível. Isso é pouco provável, já que o teste-controle evidenciaria diferenças entre pessoas jovens e velhas, o que não ocorreu. Estamos convencidos de que se trata de uma segunda alternativa: o limiar de reação parece aumentado nas pessoas mais velhas por motivos estratégicos: para reagir com mais cautela e diminuir as possibilidades de erro. Essa hipótese está em conformidade com os resultados corroborados pela análise de muitos outros potenciais. Parece que cérebros mais velhos “gostam” de trabalhar mais devagar, porém o fazem com maior precisão. A conclusão do estudo é que as pessoas com mais idade não possuem audição prejudicada em comparação com os mais jovens e, apesar de processarem a informação visual de modo levemente piorado, seu cérebro é capaz de tomar decisões com relação a respostas motoras com a mesma rapidez dos jovens. Apenas o seu limiar motor é mais alto.

As consequências para o cotidiano profissional são grandes. As atividades de controle de qualidade, por exemplo, requerem decisões frequentes e habilidades de seleção rápida. Como mostra nosso estudo, os processos cognitivos inerentes a essas tarefas não ficam prejudicados com o passar dos anos. Mesmo quando diminui a velocidade de sua execução por causa da ligeira elevação do limiar de reação, não há motivos práticos para não delegar tais tarefas aos funcionários mais velhos. Pelo contrário, pode haver evidentes vantagens em fazê-lo, pois é certo que as atividades de controle de qualidade dependem de uma baixa taxa de erro, tal como é observada nos mais experientes.

Outros estudos demonstraram que indivíduos mais velhos muitas vezes cometem menos erros que os moços, em especial nas tarefas que exigem capacidade de concentração. Os resultados causaram surpresa, pois em geral considera-se que as pessoas de mais idade são mais suscetíveis a distração. Pensava-se que desviavam a atenção de um interIocutor com mais facilidade quando, por exemplo, houvesse pessoas conversando em volta.

Nossa equipe trabalhou com estímulos visuais desenvolvidos pelo neuropsicólogo Bruno Knopp, da Universidade de Braunschweig, Alemanha. As pessoas deveriam reagir ao aparecimento de setas luminosas no centro de um pequeno monitor pressionando uma tecla, usando a mão para a qual a seta apontasse.

Procuramos distrair as pessoas pouco antes do aparecimento do estímulo, usando outras setas próximas à principal, na parte superior ou inferior do monitor. Em metade dos casos, as setas marginais apontavam na mesma direção da seta no centro da tela – congruentes; na outra metade, apontavam na direção oposta – incongruentes.

  • Distração? Não, obrigado!

Quando ocorria a interferência de estímulos que apontavam na direção oposta, os tempos de reação eram mais longos, independentemente da idade. Todas as pessoas apresentavam maior taxa de erro. O potencial lateralizado de prontidão ratificou essa observação: de início, sua curva era ascendente, indicando uma reação incorreta. Nesse caso, a mão errada estava sendo preparada para agir. Apenas depois disso a curva era descendente, indicando a ativação da mão correta.

 

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Os mais velhos são tão suscetíveis quanto os mais jovens a estímulos de distração, o que se espelha no pico positivo da curva. Além disso, a reação correta, refletida no vale da curva, demora mais a ser desencadeada. Apesar disso, os idosos cometem apenas metade da quantidade de erros dos moços. Qual a causa disso?

Notamos que os LRPs dos mais jovens eram iniciados antes, o que significa que reagiam com mais rapidez aos estímulos falsos (as setas incongruentes), de modo que não era possível evitar a resposta incorreta: eles pressionavam a tecla errada. Nas pessoas com mais idade, a ativação da resposta demora mais, o que evitava os equívocos. Os supostamente mais vagarosos possuem, portanto, enorme vantagem conferida por esse mecanismo de retardamento.

Situações como essas podem ocorrer, por exemplo, no trânsito, em que há frequente alteração dos estímulos. Em um cruzamento com inúmeros semáforos, os jovens podem errar com mais facilidade, reagindo precocemente a um sinal verde que talvez não seja o correto para a faixa em que se encontram.

A propensão ao erro depende, todavia, do tipo de tarefa. Os mais velhos não apresentam desempenho tão bom se submetidos a pressão temporal, sobretudo quando necessitam encontrar algo com rapidez usando a visão. Desenvolvemos um experimennto para demonstrar tal dificuldade. A tarefa consistia em encontrar no monitor, um sinal luminoso específico: um anel aberto de um dos lados. Apenas metade dos mostradores possuía tal característica, à qual os indivíduos deveriam reagir pressionando uma tecla. Seu tempo de busca era de 15 segundos, intervalo aproximado para a reação em um cruzamento viário.

As pessoas mais velhas apresentavam porcentagem de erro maior, e a resolução da tarefa era invariavelmennte mais demorada quando comparada à dos jovens. Além disso, os sujeitos com mais idade consideravam o teste muito cansativo, o que se refletia em seu padrão de ondas cerebrais. Antes do aparecimento do sinal luminoso na tela, uma onda especial de preparação, a chamada “variação contingente negativa”, surgia na região frontal do cérebro. Essa onda era visivelmente aumentada nas pessoas mais idosas. Seu cérebro parecia se preparar muiito mais para a execução da tarefa. Concluímos que se trata de um mecanismo de compensação, cujo esforço adicional levava a um grande cansaço, embora neste caso não fosse registrado melhor desempenho.

Tais tarefas de busca visual realizadas sob pressão constituem uma dificuldade para os trabalhadores mais velhos. Enntretanto, na execução de uma atividade profissional, o problema seria solucionado com facilidade. Os motoristas de caminhão poderiam dispor de um sistema computadorizado de navegação por estímulos sonoros. É claro que tal sistema não deveria distrair o condutor.

 

Deficiências relacionadas à idade aparecem apenas em determinadas ocupações. Como os profissionais mais experientes apresentam melhor performance em muitas outras tarefas, sua classificação genérica como menos eficientes não se justifica. Muitos dos eventuais déficits podem ser compensados pela reorganização dos locais de trabalho. Os métodos neurofisiológicos hoje permitem encontrar com precisão as causas de deficiências de desempenho, abrindo a possibilidade da reestruturação de tarefas.

 

Revista Scientific American – por Michael Falkenstein e Sacha Sommer

 

Fonte: http://www.methodus.com.br/artigo/379/beneficios-do-tempo.html

 

 

 

 

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Opinião: “Escreveu, não leu…”

 

Todas as grandes figuras do pensamento geram uma mitologia em torno do que escreveram e são citadas de maneira impressionista por aqueles que não as leram.

Freud parece ter um lugar de destaque nessa galeria. Desperta ódio entre feministas e preconceitos variados.Mas há conceitos seus que são alvos especiais do “achismo” baseado no ouvir falar, entre eles o do inconsciente. Enquanto a coisa se dá como palpite de botequim, a liberdade de expressão a protege. Mas, quando a distorção sai escrita por “sábios”, aí é preciso dizer umas coisas em nome do velho professor.

Eu sei como termina a frase do título, mas ouvi um final mais engraçado para ela: “Escreveu, não leu… é analfabeto funcional”. Tal condição poderia se aplicar a quem escreve que o inconsciente descrito por Freud é lúgubre e doentio. Ou a quem escreve, como se fosse novidade, que 90% do que fazemos não se origina na consciência.

Ora, Freud nos descreveu como alguém montado a cavalo (o cavalo seria o inconsciente). O cavaleiro pode ter a impressão de que está no comando, mas é frequente que o cavalo tenha ideias próprias e a direção mude. Ele descreveu três instâncias para além do que percebemos de forma consciente:

  1. O grande oceano inconsciente do “id” (a boa tradução do alemão “das es” seria “algo em nós”, como na frase “algo em mim me diz que…”), onde mora o motor de nossos atos chamado “desejo”, emaranhado de memórias com instintos animais primitivos cuja maior ordem é procriar (daí dizerem que Freud só pensava “naquilo”).
  2. O inconsciente reprimido pelo superego (programa que nos critica e censura, além de estabelecer ideais inalcançáveis se alimentado por nossa criação nesse sentido), onde moram impulsos considerados proibidos. Exemplo: o desejo exibicionista, que faz parte do sexual, pode ser visto como errado e virar timidez. Esse inconsciente, sim, é causador de doenças, pois a timidez pode se tornar fobia social.
  3. O pré-consciente. Esse guarda memórias e percepções que não estão na tela consciente no momento, mas podem entrar nela. Exemplo: o que você comeu no jantar? Agora que perguntei, a memória saiu do pré-consciente e se tornou consciente. Mulheres costumam levá-lo a sério, são capazes de dizer “ele está me traindo” porque perceberam que o marido saiu com um nó duplo na gravata e voltou com um nó simples (“em algum momento ele tirou a roupa”). É o mesmo que nos diz para não comprar carro usado de certos ministros de Minas e Energia, só de olhar para a cara deles.

Portanto, se vai publicar algo sério sobre alguém, é melhor ler antes.

FRANCISCO DAUDT
COLUNISTA DA FOLHA

Fonte: www1.folha.uol.com.br

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Entenda a cleptomania

É comum que novelas e notícias de jornais tratem de pessoas que, aparentemente, furtam apenas por prazer. Pouco comum é ouvirmos falar em pessoas que sofrem de cleptomania, uma doença psiquiátrica classificada como um tipo de Transtorno de Controle dos Impulsos.

 

Entenda a cleptomaniaOutros exemplos deste tipo de transtorno são os alimentares e as adições – que podem ser químicas (como o vício em drogas e álcool), e não-químicas (como o vício pelo jogo).

 

“A cleptomania é um problema crônico, não tem cura, só acompanhamento. E demora a se chegar a um tratamento”, afirma a psiquiatra do Einstein, Dra. Mara Fernandes Maranhão. “O indivíduo precisa estar sempre atento, pois existem períodos de mais vulnerabilidade como, por exemplo, os episódio que envolvem estresse”, explica.

 

“A doença proporciona um prazer momentâneo em possuir algo que não é seu, muitas vezes sem valor monetário, e em fazer algo perigoso, proibido e de forma impulsiva. A pessoa sabe que pode prejudicar, mas não resiste ao ato de furtar”, analisa a psiquiatra.

 

De acordo com ela, o indivíduo que sofre desta doença experimenta três momentos bem distintos:

 

Antes do ato, existe uma tensão crescente.

Durante o furto, a sensação é de prazer. O cérebro libera dopamina, que aciona o chamado sistema de recompensa

Por fim, depois do ato, a sensação é de culpa, remorso e vergonha, o que pode levar o indivíduo a um afastamento da sociedade.

 

A principal diferença entre o cleptomaníaco e um ladrão comum é que, para o segundo, existe a recompensa do valor do bem roubado.

 

“O indivíduo com esse tipo de transtorno muitas vezes nem chega a fazer uso dos objetos furtados, podendo guardá-los, devolvê-los ao dono, doá-los ou mesmo jogá-los fora”, relata a médica.

Diagnóstico e tipos de tratamento

A cleptomania já vem sendo estudada há muitos anos, mas é de difícil diagnóstico por conta do preconceito do próprio paciente. Saber que o ato de furtar é socialmente condenado faz com que o paciente geralmente procure o psiquiatra por outros problemas, como depressão, ansiedade e transtornos de personalidade.

 

Segundo a psiquiatra, o aparecimento da doença costuma ocorrer no final da adolescência e início da idade adulta. “Apesar de existirem poucos estudos científicos sobre a cleptomania, ela parece acometer as mulheres mais frequentemente (mais ou menos 2/3 dos casos). Mas não se sabe se isso ocorre pelo fato de as mulheres procurarem mais ajuda do que os homens”, explica a Dra. Mara.

 

A doença pode aparecer combinada a outro transtorno psiquiátrico e o tratamento também é um grande problema para os médicos, pois nem sempre atinge o resultado esperado.

 

Ele compreende terapias farmacológicas (em geral medicamentos que diminuem a impulsividade – como anticonvulsivantes e/ou antidepressivos) e não-farmacológicas.

 

Neste segundo grupo estão as terapias psicodinâmicas, que são de longo prazo e que não focam apenas nos sintomas, mas no significado dos atos para o indivíduo, e as chamadas cognitivo-comportamentais – que o ajudam a analisar o comportamento atual e a encontrar formas de modificá-lo.

 

Fonte:http://www.einstein.br/einstein-saude/em-dia-com-a-saude/Paginas/entenda-a-cleptomania.aspx

 

 

 

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‘Nossos julgamentos são afetados por sentimentos que não percebemos’

Doutor em física e matemática, o americano Leonard Mlodinow se interessa pela mente humana e pelo acaso. Além de ensinar teoria da aleatoriedade no Instituto de Tecnologia da Califórnia, ele já escreveu roteiros para séries de TV como “MacGyver” e “Jornada nas Estrelas” e livros de divulgação científica que viraram best-sellers.

Foi assim nos casos de “O Andar do Bêbado” e “Uma Nova História do Tempo” –esse em parceria com Stephen Hawking. Em “Subliminar” (Ed. Zahar), lançado neste mês no Brasil, Mlodinow, 59, reúne dezenas de experimentos para dizer que somos comandados por dois cérebros: o consciente, que responde por 5% da capacidade cognitiva, e o inconsciente, que dá conta dos outros 95%. Os dois cérebros atuam juntos para garantir desde a mais básica sobrevivência até a escolha de um bom vinho. Nesta entrevista por e-mail, o autor tenta explicar como aquilo que não percebemos afeta as nossas escolhas.

 

Folha – Como o inconsciente comanda nossa vida?

 

Leonard Mlodinow – O inconsciente governa o nosso coração, os movimentos, a visão e a audição e nos permite andar, falar e reagir sem parar para pensar a cada palavra ou movimento. Só os humanos têm essa capacidade bem desenvolvida, e os cientistas não sabem por que é assim. Todos os julgamentos são afetados por sentimentos que não percebemos.

O senhor diz no livro que processos como percepção ou julgamento são comandados por estruturas cerebrais separadas da consciência. Como sabemos isso?

 

Por meio dos recentes avanços da neurociência nós sabemos que essas estruturas são inerentes à mente inconsciente e inacessíveis à mente consciente. Estão conectadas e todo o trabalho é feito em conjunto para criar uma experiência da realidade em termos físicos e em termos das relações sociais.

Pode dar um exemplo de como a razão sai de campo na hora das decisões?

Em um estudo feito em um supermercado da Inglaterra, dispuseram nas prateleiras vinhos franceses e vinhos alemães. Música francesa e alemã eram alternadas no alto-falante. Nos dias com trilha sonora francesa, 77% dos vinhos escolhidos eram franceses; nos dias de hits germânicos, 73% das garrafas vendidas eram da Alemanha. Mas só um em cada sete consumidores declarou ter sido influenciado pelo som.

E na hora de escolher parceiro, o inconsciente comanda?

Isso é um pouco mais complicado. Existem elementos sutis. Por exemplo, o rosto ou a voz da pessoa nos parecem familiares. Pode ser um sorriso ou músculos bem torneados. Experimentos mostram que o nome de uma pessoa pode influenciar o coração, caso ele combine com o nosso. Em questões financeiras também acontece: em Wall Street, ações com nomes fáceis de pronunciar são mais procuradas por investidores.

Assumir que somos guiados pelo subliminar nos torna mais ou menos lúcidos?

Quanto mais compreendermos as motivações subliminares, melhor nossa mente consciente poderá fazer julgamentos acertados.

De que maneira a compreensão da fisiologia do cérebro ajuda a lidar com medo, raiva?

Quando encontro algo perigoso no ambiente –um animal feroz, uma pessoa agressiva– imediatamente isso é registrado pelo inconsciente e o corpo responde com mudanças no nível de adrenalina ou na pulsação.Essa resposta acontece em grande parte na região do cérebro chamada amígdala. A mente consciente percebe

a resposta corporal um ou dois segundos depois e leva isso em conta para interpretar o que está acontecendo. Depois disso percebemos que estamos sentindo é medo. Com a raiva é semelhante. Outras emoções menos primárias como angústia ou embaraço funcionam de um modo um pouco mais complicado –mas, basicamente, é o mesmo mecanismo.

Essa maneira de sentir é útil para tomar a atitude necessária rapidamente, deixando para pensar sobre o ocorrido depois.

O senhor diz que não choramos porque nos sentimos tristes, mas, ao contrário: tomamos ciência de que estamos tristes porque choramos. Fingir um sorriso pode, de fato, despertar um estado feliz?

Há muito tempo os professores de ioga dizem: “Acalme seu corpo, acalme sua mente”. A neurociência social, agora, dá evidências disso. De fato, estudos sugerem que assumir o estado físico de alguém feliz pode fazer você se sentir mais feliz.

Nessa era do ‘novo inconsciente’, o divã nada pode?

Tanta gente faz anos de psicanálise e não chega a lugar algum. Claro, Freud teve o mérito de ter descoberto o inconsciente usando métodos imprecisos, o que produziu um conhecimento difuso, mas, mesmo assim, a origem das emoções permaneceu obscura. Hoje, o intercâmbio entre neurociência e psicologia experimental e os avanços da tecnologia nos permitem, pela primeira vez, construir uma ciência do inconsciente.

Fonte: http://tools.folha.com.br/print?site=emcimadahora&url=http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2013/04/1259183-nossos-julgamentos-sao-afetados-por-sentimentos-que-nao-percebemos.shtml

 

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Simples diários complexos

Em mais uma visita ao Brasil, Edgar Morin lança três novos livros. Seus diários, importante forma de escrita durante sua vida, aprofundam aspectos essenciais por meio de elementos comuns

É uma luta contra o tempo.” Assim Edgard Morin define o diário. Ele fala da importância desse tipo de relato em sua vida – e por que voltou a fazer suas reflexões por meio desses escritos depois de alguns anos – em um encontro que aconteceu no Sesc Pompeia, em São Paulo, no final de outubro de 2012. “Para que os dias que passam não se dissolvam inteiramente (…) é querer correr atrás da vida que está passando e recolher migalhas dela.”

Diário da Califórnia, Um ano sísifo e Chorar, amar, rir, compreender – que foram reeditados pelas Edições Sesc-SP e lançados no Brasil nesta mesma ocasião – relatam momentos de sua vida comum, em episódios que mesclam o sumiço momentâneo de um animal de estimação, o prazer de ver uma partida da seleção brasileira na Copa do Mundo pela TV e a indignação com a paralisia da Europa em relação aos conflitos catastróficos passados na África no ano de 1994, com milhares de mortos. Se as contribuições de suas teorias são enormes, seu humanismo, algo anacrônico nos dias de hoje, é igualmente importante.

Opor questões científicas com humanistas, para Morin, é perder dos dois lados. Vivemos em um mundo onde nunca se disseminou tanto conhecimento e, por isso, articular as diferentes áreas

nunca foi tão necessário, segundo o filósofo. Justamente pelo fato de o mundo ter ficado mais complexo, Morin busca novas estruturas mentais de compreensão desse novo universo, formas alternativas de integração. Seu trabalho, há mais de meio século, tem sido o de mostrar conexões entre os saberes e, tanto para questões perenes, como a vida e a morte, quanto para os novos desafios que as tecnologias e as novas descobertas científicas impõem ao ser humano, Edgar Morin demonstra ávido interesse. Nessa entrevista, concedida à Filosofia no hotel em que ficou hospedado em São Paulo, na Alameda Santos, ele fala sobre a crise econômica na Europa, aspectos filosóficos da Ciência e da Educação, o seu não lugar como intelectual e as fronteiras limitadoras dos saberes em reflexões muito atuais e desafiadoras.

Lutar contra a crise é passar por uma retomada econômica, mas como isso é possível se as pessoas não têm dinheiro, não têm trabalho, não têm esperança?

FILOSOFIA ● Eu inicio com uma pergunta sobre a Europa. Há uma crise europeia e que começa a se tornar uma crise da própria União Europeia. Os países começam a buscar soluções individualistas, como, por exemplo, a Grécia. Como é possível manter a complexidade e sua união institucional?

Edgar Morin ● Para entender esse aspecto é necessário voltarmos à história, é necessário pensar que a ideia de União Europeia vem do desastre da Segunda Guerra Mundial, que foi um suicídio para a Europa que foi salva pelos americanos e soviéticos. Então, a ideia de fazer uma

Europa política e cultural, por assim dizer, é uma ideia evidente para que os Estados estejam reunidos, confederados. Porém, desde o início vemos uma resistência nacionalista que não quer perder a soberania, sobretudo na França; Charles de Gaulle recusou uma união militar. Em 1953,ao mesmo tempo em que houve uma crise na Europa, quero dizer, um fiasco da Europa política, um grande desenvolvimento econômico começava a atravessar a região, e sob esse desenvolvimento começou-se a fabricar uma Europa econômica. Porém, a Europa econômica permanece política e, por isso, nos vimos entre muitas crises. A primeira crise, não podemos esquecer, foi a guerra da Iugoslávia, ela mesma um microcosmo da Europa, com os gregos, os sérvios de religião ortodoxa, os croatas católicos, os muçulmanos, todos juntos. Os países europeus foram incapazes de impedir essa guerra. Temos também a questão da guerra de Kosovo, com a intervenção americana. Logo, a incapacidade política da Europa é um fato fundamental. Esses países que se formaram após a queda do império soviético foram aceitos nesse meio tempo pela Europa para buscar uma harmonia e manter uma condição econômica, mas não houve nenhuma unidade política. Logo, há uma heterogeneidade enorme. Tome, por exemplo, a segunda guerra do Iraque. Se olharmos para a intervenção americana contra Saddan Hussein, a França e a Alemanha foram contra essa guerra, entendendo que era arriscado desintegrar o Iraque sob um pretexto duvidoso, que eram as armas químicas. Então havia divergência entre os pontos de vista. Essas divergências permanecem e são múltiplas. Não há nenhuma unidade sobre a questão do Oriente Médio, sobre a questão da Palestina e de Israel, por isso a debilidade política da Europa é total. Então, chegamos à crise de 2008, que trouxe consigo a angústia, a perda do futuro. Não há nenhuma esperança no futuro, nenhum progresso nos meios mecânicos, nada que indique a retomada da identidade e do passado, e temos o desenvolvimento de países europeus de tendência nacionalista, por vezes xenófoba. Vemos que os interesses comuns da Europa já estão ameaçados, e podemos falar de mais dois eventos, com a Grécia e a Hungria. A Grécia tem imposto uma política, a meu ver, completamente absurda sobre o povo grego. As políticas de austeridade têm sido catastróficas. Começamos a compreender que lutar contra a crise é passar por uma retomada econômica, mas como isso é possível se as pessoas não têm dinheiro, não têm trabalho, não têm esperança? A Grécia está um caos terrível. De outro lado, a Hungria começou a se fechar como um sistema autoritário e antidemocrático. Portanto, a Europa está ameaçada e você bem notou que o euro também, que, apesar de ser uma moeda muito sólida, está ameaçada, pois não há uma autoridade um banco central dotado de poder político. Então, estamos numa crise política muito ameaçadora. A Europa com a sua diversidade não foi capaz de conduzir sua unidade. A crise cria a ocasião para aqueles que querem dar um passo à frente, mas também permite que se dê um passo para trás. A crise é ambivalente, temos a progressão e a regressão. Não sabemos se continuará. As soluções encontradas até aqui não nos fazem crer que vai acabar. A Alemanha, por exemplo, se recusa quando se fala da revisão das dívidas, de solidariedade econômica…

Então, a Europa está duplamente ameaçada, ela pode sair da crise, mas o seu problema continua. Ela não pode consolidar sem se criar uma unidade econômica, e essa unidade econômica supõe a perda de parte da soberania em proveito da comunidade. Temos, portanto, incerteza e inquietude. Eu acrescentaria que a opinião pública não tem vez na Europa. Simplesmente o que se admite é o passado europeu, são seus símbolos. Mas eles são insuficientes. Não há um pensamento político na Europa, não há um renascimento como o do século XV. A meu ver, as probabilidades são ruins, mas sempre acreditei que o improvável é possível. Eu sempre estou pelo improvável. Então, eu espero pelo improvável.

FILOSOFIA ● Você disse no seu livro Um ano Sísifo que o seu amigo Milan Kundera se recusa a dar entrevistas, pois é frequentemente mal interpretado. Você acredita que existam ideias suas mal compreendidas ainda hoje?

Morin ● Sabe, Milan Kundera tem razão nisso, e ele conseguiu delimitar essas entrevistas; eu não pude fazê-lo e eu vou te explicar o porquê. Quando se escreve, o livro vira uma testemunha. O autor não é o livro, mas sempre temos muitos jornalistas, escritores que tentam compreender o pensamento do autor para decifrar o livro. Eu entendo que isso é uma dispersão e uma superficialização. Nós estamos numa época de jornalistas preguiçosos, que antes de fazer as críticas dos livros preferem entrevistar o autor. Eu mesmo sou um autor sempre convidado a falar dos meus livros. Mas, por outro lado, há bons e maus entrevistadores. Quais são os bons entrevistadores? Eu encontrei bons jornalistas na Folha e no Globo aqui no Brasil e no Clarín da Argentina. Os bons entrevistadores são os jornalistas cultos, que conhecem a minha obra e que não vão trair as minhas ideias. Mas há menos de um mês eu tive em Paris uma entrevista criminosa. Falei com uma jornalista e, quando ela me mostrou, havia cortado e preenchido passagens intermediárias com sua linguagem, e acabei perdendo 4 horas para corrigir a entrevista. Então há algumas entrevistas assim. Agora, por que eu continuo dando entrevistas? Porque a crítica de livros franceses não se interessa muito por mim. Há muitas razões: para os críticos, os escritores, os filósofos, os sociólogos, eu sou uma espécie de camaleão, não sou um escritor, não sou um filósofo, um sociólogo, não tenho forma, não tenho etiqueta, logo não inspiro interesse. Então, uma maneira de fazer as minhas ideias serem conhecidas é fazê-las passar também pelas entrevistas. Me sinto um pouco obrigado a dar entrevistas. Kundera disse muito sabiamente certa vez: “Um dia eu espero vir dog

livros. Mas, por outro lado, há bons e maus entrevistadores. Quais são os bons entrevistadores? Eu encontrei bons jornalistas na Folha e no Globo aqui no Brasil e no Clarín da Argentina. Os bons entrevistadores são os jornalistas cultos, que conhecem a minha obra e que não vão trair as minhas ideias. Mas há menos de um mês eu tive em Paris uma entrevista criminosa. Falei com uma jornalista e, quando ela me mostrou, havia cortado e preenchido passagens intermediárias com sua linguagem, e acabei perdendo 4 horas para corrigir a entrevista. Então há algumas entrevistas assim. Agora, por que eu continuo dando entrevistas? Porque a crítica de livros franceses não se interessa muito por mim. Há muitas razões: para os críticos, os escritores, os filósofos, os sociólogos, eu sou uma espécie de camaleão, não sou um escritor, não sou um filósofo, um sociólogo, não tenho forma, não tenho etiqueta, logo não inspiro interesse. Então, uma maneira de fazer as minhas ideias serem conhecidas é fazê-las passar também pelas entrevistas. Me sinto um pouco obrigado a dar entrevistas. Kundera disse muito sabiamente certa vez: “Um dia eu espero vir dogmático, mas isso eu ainda não sou”.

Os filósofos continuam a dizer que a Filosofia trata do pensamento, dos autores do passado e alguns do presente. Eles estão fechados à Ciência

FILOSOFIA ● Hoje em dia muitos pensamentos filosóficos são vistos sob a luz das novas descobertas cientificas. Como você avalia essa revisão dos pensamentos filosóficos na óptica das ciências naturais?

Morin ● Bom, no que me diz respeito, falando da França e de alguns outros países europeus, em geral os filósofos continuam a dizer que a Filosofia trata do pensamento, dos autores do passado, sobre alguns autores do presente, sobre alguns escritores. Eles estão fechados à Ciência. Da mesma forma, os cientistas desprezam a Filosofia por entendê- la como pura conversa vazia. Mas os filósofos dirão que os cientistas são superficiais. Então, nós temos uma fronteira. No meu caso, desde a minha juventude, tudo me interessa e isso inclui as enormes contribuições da Ciência ao conhecimento, pois a Ciência reformula nossa concepção do mundo. O cosmos não é mais o de Copérnico. A Ciência subverteu nosso senso de realidade material. Hoje nós sabemos muita coisa sobre o universo. Temos a Microfísica que recria o sentido de realidade. Essas são, de fato, questões filosóficas. Os avanços da Ciência chegam aos problemas filosóficos, mas os filósofos não se interessam por esse conhecimento. Alguns cientistas se interessam, sim, pela Filosofia, como Michel Cassé e alguns outros na França. Na Biologia, igualmente; hoje em dia nós sabemos que a vida é feita de moléculas, que são organizações complexas. Eu refleti muito sobre isso, inclusive trabalhei nesse assunto. Eu acho que a necessária comunicação entre pensamento e Ciência não existe. Isto é, a Filosofia é como um moinho para os grãos; a Ciência produz os grãos, mas não é capaz de moê-los. A Ciência não pensa a si mesma. Por isso eu me considero uma exceção, eu não sou como os outros filósofos. Mas, na realidade, e infelizmente, permanece a ideia de compartimentos e separação dos saberes. Como você sabe, o meu ponto de vista é pela complexidade. A complexidade religa os saberes separados para se compreender a realidade do mundo.

sobre o universo. Temos a Microfísica que recria o sentido de realidade. Essas são, de fato, questões filosóficas. Os avanços da Ciência chegam aos problemas filosóficos, mas os filósofos não se interessam por esse conhecimento. Alguns cientistas se interessam, sim, pela Filosofia, como Michel Cassé e alguns outros na França. Na Biologia, igualmente; hoje em dia nós sabemos que a vida é feita de moléculas, que são organizações complexas. Eu refleti muito sobre isso, inclusive trabalhei nesse assunto. Eu acho que a necessária comunicação entre pensamento e Ciência não existe. Isto é, a Filosofia é como um moinho para os grãos; a Ciência produz os grãos, mas não é capaz de moê-los. A Ciência não pensa a si mesma. Por isso eu me considero uma exceção, eu não sou como os outros filósofos. Mas, na realidade, e infelizmente, permanece a ideia de compartimentos e separação dos saberes. Como você sabe, o meu ponto de vista é pela complexidade. A complexidade religa os saberes separados para se compreender a realidade do mundo.

FILOSOFIA ● Você é formado em História, Filosofia e Direito. O mundo atual valoriza o conhecimento hoje como um produto. Como é possível fazer as pessoas se interessarem pelo conhecimento puro, sem um fim comercial?

Morin ● Bom, para começar a curiosidade é própria das crianças, mas se os professores não têm paixão, se estão entediados, acabam arrefecendo a curiosidade delas. Creio que há dois problemas: uma coisa que diria Platão é que para ensinar é necessário amor, paixão. Essas condições não estão num manual, porém são fundamentais; o segundo problema é que precisamos relacionar as disciplinas múltiplas. Se você fizer a seguinte pergunta: “o que é o ser humano?” Essa é uma pergunta sobre os diversos saberes que temos em relação ao ser humano. Eu vejo que as ciências humanas estão dispersas, a Psicologia, a Sociologia. Também temos os conhecimentos que nos dá a Literatura, porque ela nos ensina sobre o ser humano. Podemos pensar também na Biologia, afinal de contas somos mamíferos, vertebrados, animais, nós somos fabricados biologicamente. E a Biologia é ligada à Física também, ao cosmos, porque nós somos feitos de moléculas, de átomos, de partículas, enfim, nós somos produtos de todos os conhecimentos. Se você ensina o que é o ser humano aos seus alunos, você os cativa. Eu acho que uma ciência muito interessante é a História. Um bom professor de História faz seus alunos se apaixonarem pela disciplina, pois é um saber muito interessante. Mas compartimentar os saberes em disciplinas torna o conhecimento menos interessante do que ele poderia ser.

FILOSOFIA ● Qual é o espaço do pensamento complexo em um mundo cada vez mais tecnológico?

Morin ● Bom, a complexidade foi formulada pela primeira vez entre matemáticos, engenheiros e cibernéticos. Foi o judeu alemão Norbert Wiener, o homem que descobriu o feedback positivo e negativo, a retroação negativa e utilizou a roda da complexidade para definir a grande variedade

humanas estão dispersas, a Psicologia, a Sociologia. Também temos os conhecimentos que nos dá a Literatura, porque ela nos ensina sobre o ser humano. Podemos pensar também na Biologia, afinal de contas somos mamíferos, vertebrados, animais, nós somos fabricados biologicamente. E a Biologia é ligada à Física também, ao cosmos, porque nós somos feitos de moléculas, de átomos, de partículas, enfim, nós somos produtos de todos os conhecimentos. Se você ensina o que é o ser humano aos seus alunos, você os cativa. Eu acho que uma ciência muito interessante é a História. Um bom professor de História faz seus alunos se apaixonarem pela disciplina, pois é um saber muito interessante. Mas compartimentar os saberes em disciplinas torna o conhecimento menos interessante do que ele poderia ser.

FILOSOFIA ● Qual é o espaço do pensamento complexo em um mundo cada vez mais tecnológico?

Morin ● Bom, a complexidade foi formulada pela primeira vez entre matemáticos, engenheiros e cibernéticos. Foi o judeu alemão Norbert Wiener, o homem que descobriu o feedback positivo e negativo, a retroação negativa e utilizou a roda da complexidade para definir a grande variedade do sistema. Isso ficou isolado das ciências humanas e das ciências naturais. O mundo da tecnologia

é predominantemente determinista porque a Cibernética se desenvolve do determinismo. Eu creio que nós estamos numa época em que a complexidade se impõe sobre a compartimentação. É um novo caminho para o mundo, para o ensino. Isso já acontece em alguns países da América Latina, o Brasil, por exemplo. Sobretudo é necessária uma mudança de estrutura mental. Em minha opinião, a mudança de estrutura mental é muito importante. De qualquer forma, felizmente há uma diversidade de pessoas em todas as sociedades. Hoje em dia, há muita gente que não está convencida com as ideias dominantes, há muita gente que não está satisfeita com o modo de conhecimento fragmentário e aspiram à complexidade. Eu vejo muita gente que foi tocada pela mensagem da complexidade, às quais pude convencer sobre essas ideias. Elas desejam isso, não estão satisfeitas, buscam a posse da verdade. Mas a reforma da estrutura de ensino é algo muito difícil de se realizar.

Felizmente, hoje há muita gente que não está convencida com as ideias dominantes, com o modo de conhecimento fragmentário e aspiram à complexidade

FILOSOFIA ● Qual é a sua opinião sobre a teoria do desenvolvimento, o processo de conhecimento como a teoria da inteligência múltipla?

Morin ● É muito difícil definir a inteligência porque não é um quociente individual. A inteligência é um conjunto de qualidades muito diferentes porque necessita de capacidade de síntese, de análise e, no mínimo, de capacidade reflexiva e autocrítica. A inteligência necessita também de sensibilidade, porque a razão fria é muito limitada, mas uma paixão sem razão é muito limitada também. É necessária a mistura de razão e paixão. Então penso que a inteligência não tem uma definição simples. Há uma complexidade de elementos que permitem a inteligência. Há outra

coisa que ultrapassa a inteligência, que é a capacidade de criar. A criatividade é algo em que é preciso capacidade intelectual, mental, cerebral. A possibilidade de fazer uma combinação nova, de fazer descobertas novas também exige inteligência. Por exemplo, Newton quando vê uma maçã cair, que é um acontecimento extremamente banal, é preciso estar livre da universidade e se permitir refletir. Perguntar por que a maçã cai é um ato de inteligência porque a inteligência é a capacidade de interrogar. Desse evento ele criou a teoria da gravidade. Então, a inteligência permitiu que essa admiração fosse uma corrente que o levasse à questão: por que existe o tempo, como ele acontece? Essa é uma pergunta banal, mas uma fez que ele a fez, ela o levou a uma teoria que pudesse fazê-la ser respondida. Então, a inteligência é a capacidade de admiração, de se inquietar, a curiosidade… muitas coisas se somam à inteligência, é um coquetel, e quando benfeito é como uma boa caipirinha.

Assim como opera em nós a lógica do eu, eu, eu, temos a do nós. Eu sou; eu existo, mas eu posso partir para algo maior e me sacrificar por isso

FILOSOFIA ● Creio que muitas teorias o influenciaram e o guiaram no começo da vida acadêmica. Quais são as teorias que você abandonou nesse percurso, que já não te influenciam mais?

Morin ● Eu praticamente não abandonei nada, eu muito mais integrei, sob a concepção que eu entendo mais rica, a complexidade. Desde o início do meu primeiro trabalho importante, que se chama O homem e a morte – e que agora faz 63 anos de lançamento -, eu parti justamente da pergunta sobre o significado da morte. Eu pensava muito sobre isso quando eu frequentava a biblioteca nacional francesa à época. Eu pensei: devo começar pela pré-história porque temos as tumbas com os mortos, suas posições, suas armas para buscar alimentos. Temos a pré-história e as populações arcaicas. Sobre elas trabalharam etnógrafos para ver as crenças relacionadas à morte. Era necessário que eu estudasse as religiões, a História, a Psicologia – principalmente a Psicologia infantil no estudo da descoberta da criança em relação à realidade da morte -, a Psicanálise, com Freud, Jung. Era preciso que se fizesse uma viagem em todas as ciências humanas. A Literatura e a Poesia expressam coisas muito importantes sobre a morte e também temos informações na Biologia. Então, se há um tema importante, se há um tema fundamental e universal, somos obrigados a procurar e tentar encontrar uma resposta. Por exemplo, algo que pude perceber foi encontrar o heroísmo diante da morte. O que eu encontrava por todas as partes nessas civilizações era a capacidade desses indivíduos de dar a própria vida, de arriscar a vida pela família, pela pátria, pela religião, e isso é uma contradição. A maneira como eu tentei tratar essa contradição foi por uma concepção complexa do tema humano. Eu digo que o ser humano tem duas lógicas equivalentes de formação: uma é a lógica egocêntrica, eu sou o centro do meu mundo, eu estou no centro do mundo e esse pensamento é vital porque precisamos nos alimentar, nos defender etc. Quando estamos totalmente sós não só temos a atitude egoísta, temos também uma outra lógica, a do nós, da comunidade, do altruísmo – e isso a criança desde que nasce tem a necessidade do olhar, do carinho da mãe, dos pais, da comunidade. Então, assim como opera em nós a lógica do eu, eu, eu, temos a do nós. Eu sou; eu existo, mas eu posso partir para algo maior, mais grandioso, mais belo e posso me sacrificar por isso. Gosto muito de tratar dessas contradições. A partir desse livro, eu trato do tema complexo que é necessário buscar por todos os lados e uni-los, entender como as contradições podem ser religadas. Essa foi a minha maneira de ser.

Eu não estava em nenhuma universidade quando fiz esse livro, eu estava desempregado. Tudo o que eu fiz desde então tem um viés sociológico, mas não somente sociológico, histórico, antropológico. Bom, mas o que eu abandonei na minha carreira? Quando eu era um adolescente, antes da Segunda Guerra, sabia sem saber da visão complexa sobre a Política, o homem político que eu admirava e dizia para

todo mundo que era necessário lutar em duas frentes. À época, se dizia que era preciso lutar contra o fascismo e o stalinismo. Era uma época que havia uma crise da democracia, uma crise do capitalismo e onde o fascismo e o stalinismo eram pseudo-respostas. Havia pensadores que buscavam uma terceira via; nem o fascismo, nem o comunismo, nem a democracia corrompida que existia, nem o reino do dinheiro do capitalismo, era preciso uma terceira via. Bom, quando a guerra chegou e a França foi esmagada, não foi mais possível uma terceira via. Eu abandonei essa ideia e me converti a justificar o comunismo de Stálin. Eu encontrei dois argumentos que ainda hoje não os recuso e não os abandonei totalmente. Eu dizia pra mim mesmo que havia duas razões para isso: a primeira é uma incerteza capitalista que impedia a União Soviética de desenvolver as suas chamadas civilizações socialistas, e, segunda, o estágio da Rússia czarista e burocrata formado após a vitória. Um terceiro argumento viria da filosofia de Hegel, que é o conceito de astúcia da razão. Por exemplo, Napoleão era um ditador e ao mesmo tempo difundiu os ideais da Revolução Francesa na Europa. Eu pensei que Stálin era um ditador que difundiria os ideais comunistas. Essas ideias eu as abandonei e fiz críticas muito severas. Eu ainda penso que o argumento da incerteza capitalista traz parte da verdade, mas não é a própria verdade. O argumento sobre a herança czarista também é parte da verdade, mas não é toda a verdade, e a astúcia da razão também não é toda verdade. Então, eu cheguei e retornei à ideia de que se luta em duas frentes. Quais são as duas frentes hoje? São os dois tipos de barbáries, a barbárie atual da dominação do

cálculo, do lucro, das finanças de todas as coisas, e a outra é a velha barbárie do ódio, do desprezo, do racismo, do massacre e da tortura. Essas duas barbáries estão ligadas uma à outra nos dias de hoje. Dessa forma, eu retomo a luta pela reforma, eu retorno às ideias da minha juventude. Não abandonei muita coisa, antes eu as integrei e as relativizei.

Entrevista – Edgar Morin

Fonte: http://filosofiacienciaevida.uol.com.br/ESFI/Edicoes/78/artigo277295-1.asp

 

 

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