Opinião: “Escreveu, não leu…”

 

Todas as grandes figuras do pensamento geram uma mitologia em torno do que escreveram e são citadas de maneira impressionista por aqueles que não as leram.

Freud parece ter um lugar de destaque nessa galeria. Desperta ódio entre feministas e preconceitos variados.Mas há conceitos seus que são alvos especiais do “achismo” baseado no ouvir falar, entre eles o do inconsciente. Enquanto a coisa se dá como palpite de botequim, a liberdade de expressão a protege. Mas, quando a distorção sai escrita por “sábios”, aí é preciso dizer umas coisas em nome do velho professor.

Eu sei como termina a frase do título, mas ouvi um final mais engraçado para ela: “Escreveu, não leu… é analfabeto funcional”. Tal condição poderia se aplicar a quem escreve que o inconsciente descrito por Freud é lúgubre e doentio. Ou a quem escreve, como se fosse novidade, que 90% do que fazemos não se origina na consciência.

Ora, Freud nos descreveu como alguém montado a cavalo (o cavalo seria o inconsciente). O cavaleiro pode ter a impressão de que está no comando, mas é frequente que o cavalo tenha ideias próprias e a direção mude. Ele descreveu três instâncias para além do que percebemos de forma consciente:

  1. O grande oceano inconsciente do “id” (a boa tradução do alemão “das es” seria “algo em nós”, como na frase “algo em mim me diz que…”), onde mora o motor de nossos atos chamado “desejo”, emaranhado de memórias com instintos animais primitivos cuja maior ordem é procriar (daí dizerem que Freud só pensava “naquilo”).
  2. O inconsciente reprimido pelo superego (programa que nos critica e censura, além de estabelecer ideais inalcançáveis se alimentado por nossa criação nesse sentido), onde moram impulsos considerados proibidos. Exemplo: o desejo exibicionista, que faz parte do sexual, pode ser visto como errado e virar timidez. Esse inconsciente, sim, é causador de doenças, pois a timidez pode se tornar fobia social.
  3. O pré-consciente. Esse guarda memórias e percepções que não estão na tela consciente no momento, mas podem entrar nela. Exemplo: o que você comeu no jantar? Agora que perguntei, a memória saiu do pré-consciente e se tornou consciente. Mulheres costumam levá-lo a sério, são capazes de dizer “ele está me traindo” porque perceberam que o marido saiu com um nó duplo na gravata e voltou com um nó simples (“em algum momento ele tirou a roupa”). É o mesmo que nos diz para não comprar carro usado de certos ministros de Minas e Energia, só de olhar para a cara deles.

Portanto, se vai publicar algo sério sobre alguém, é melhor ler antes.

FRANCISCO DAUDT
COLUNISTA DA FOLHA

Fonte: www1.folha.uol.com.br

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