O sangue nos faz parentes, a lealdade nos torna uma família

Todo mundo tem uma família. Ter uma é algo fácil: todos nós temos uma origem e raízes. Entretanto, mantê-la e saber como construí-la, alimentando o vínculo diariamente para conseguir que ela se mantenha unida, já é uma outra questão.

 

Todos nós dispomos de mãe, pais, irmãos, tios… Às vezes de grandes núcleos familiares com membros que, possivelmente, já deixamos de ver e com quem não convivemos. Precisamos nos sentir culpados por isso?

 

A verdade é que, às vezes, sentimos uma certa obrigação “moral” de nos darmos bem com aquele primo com quem compartilhamos pouquíssimos interesses, e que tantos desprazeres nos causou ao longo de nossa vida. Pode ser que o sangue nos una, mas a vida não nos encaixa com nenhuma peça, então nos afastarmos ou mantermos um relacionamento justo e pontual não deve ser motivo de nenhum trauma.

 

Porém, o que acontece quando falamos dessa família mais próxima? De nossos pais ou irmãos?

 

O vínculo vai além do sangue

 

Chegamos a este mundo como se tivéssemos caído de uma chaminé. Neste momento, nos vemos unidos a uma série de pessoas com as quais compartilhamos o sangue e os genes. Uma família que nos fará caber em seus mundos particulares, em seus modelos educativos, que tentarão inculcar seus valores, mais ou menos certos…

 

Às vezes, tende-se a pensar que ser família supõe compartilhar algo além do sangue ou mesmo uma árvore genealógica. Há quem, quase de forma inconsciente, acredita que um filho deve ter os mesmos valores dos pais, compartilhar uma mesma ideologia e ter um padrão de comportamento semelhante.

 

Há pais e mães que se surpreendem por ver o quão diferentes os irmãos podem ser entre si… Como pode ser assim se são todos filhos de um mesmo ventre? É como se dentro do núcleo familiar tivesse que existir uma harmonia explícita, onde não existem excessivas diferenças, onde ninguém deve sair do “padrão” e tudo está controlado e em ordem.

 

Entretanto, algo que devemos saber claramente é que nossa personalidade não é 100% transmitida geneticamente; podem ser herdadas algumas características e, sem dúvidas, ao viver num entorno compartilhado iremos compartilhar uma série de dimensões. Mas os filhos não são moldes dos pais, e os pais nunca vão conseguir que os filhos sejam como suas expectativas querem.

A personalidade é dinâmica, é construída no dia a dia e não atende às barreiras que, às vezes, os pais ou as mães tentam impor. É aí que, muitas vezes, aparecem os habituais desapontamentos, as “colisões”, as desavenças…

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Para criar uma ligação forte e segura a nível familiar, devem ser respeitadas as diferenças, promover a independência ao mesmo tempo que a segurança. É preciso respeitar a essência de cada pessoa em sua maravilhosa individualidade, sem colocar muros, sem censurar cada palavra e comportamento…

 

Segredos de famílias que vivem em harmonia

 

Às vezes, muitos pais veem como seus filhos se afastam do lar familiar sem estabelecer mais contato. Há irmãos que deixam de se falar e famílias que veem quantas cadeiras vazias jazem no silêncio da sala de casa.

 

A que se deve isso? Está claro que cada família é um mundo, um micromundo com suas regras, suas crenças e, também, com as cortinas abaixadas onde só elas mesmas sabem o que aconteceu no passado, e como se vive no presente.

 

Entretanto, podemos falar disso baseados em alguns eixos básicos que devem nos fazer refletir.

 

– A educação tem como a finalidade dar ao mundo pessoas seguras de si mesmas, capazes e independentes, para que possam alcançar sua felicidade, e, por sua vez, saibam oferecê-la aos demais.  Como se consegue isso? Oferecendo um amor sincero que não impõe e que não controla. Um carinho que não censura como alguém é, pensa ou age.

 

– Não devemos responsabilizar sempre os demais pelo que acontece com a gente. Não é necessário culpar a mãe ou o pai por ainda hoje em dia, você se sentir insegura e incapaz de fazer determinadas coisas. Ou aquele irmão que, talvez, sempre foi melhor atendido ou cuidado do que nós mesmos.

 

Está claro que, na hora de educar, sempre são cometidos alguns erros. Mas nós também devemos ter o controle de nossa vida e saber reagir, ter voz, e saber dizer “não”, e acreditar que somos capazes de empreender novos projetos com segurança e maturidade, novos sonhos sem sermos escravos das lembranças familiares do ontem.

 

Ser família NÃO supõe compartilhar sempre as mesmas opiniões e os mesmos pontos de vista. E nem por isso devemos julgar, censurar e, menos ainda, desprezar. Comportamentos como estes criam distâncias e fazem que, no dia a dia, encontremos maior lealdade nos amigos do que na família.

 

– Às vezes, temos a “obrigação moral” de ter que continuar mantendo contato com parentes que nos fazem mal, que nos incomodam, que nos censuram. São família, não cabe dúvida, mas devemos ter em conta que o que importa de verdade nessa vida é ser feliz e ter um equilíbrio interno. Uma paz interior. Se estes ou aqueles familiares prejudicam nossos direitos, devemos impor distância.

 

A maior virtude de uma família é aceitar a si e aos outros tal e como são, em harmonia, com carinho e respeito. Parentes

 

Fonte: http://www.contioutra.com/o-sangue-nos-faz-parentes-a-lealdade-nos-torna-uma-familia/

 

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O que passa na cabeça do meu analista quando estou falando?

“Caramba, tô atrasada e ainda preciso sacar o dinheiro. Pra piorar, o sapato tá encharcado de chuva e barro. Será que ele já terminou de pagar o parcelamento do divã de couro? Tudo bem eu colocar o pé em cima? Olha, tem livro novo na estante, não tinha visto esse. Ai, não sei o que dizer. Deu branco, não tô lembrando de nenhum sonho. Será que… Não, não, esse assunto não. Melhor não. Ele vai me achar infantil. E repetitiva. E imatura. E louca, muuuuito loucaaaaa.”

 

“O QUE SERÁ QUE MEU ANALISTA PENSA ENQUANTO EU FICO AQUI FALANDO?”

 

Esse relato aí de cima não é autobiográfico, e qualquer semelhança com a autora, que faz análise há seis anos, ou com quem lê, é meramente coincidência.

 

Pensando na curiosidade que nos une, nós, seres humanos eventualmente angustiados e eternamente preocupados e ressabiados, resolvemos ABRIR a CAIXA PRETA dos consultórios de psicanalistas e psicólogos para revelar os BASTIDORES, o MAKING OF, o BEHIND THE SCENES dessas pessoas enigmáticas para quem revelamos as informações mais íntimas, confidenciais e constrangedoras.

 

Ok, vamos derrubar a primeira idealização: a tal da caixa preta não existe, e esta reportagem é muito mais uma tentativa de entendimento do que uma revelação.

 

Mas várias descobertas surgiram no percurso. Por exemplo: analistas e psicólogos podem, sim, pensar na morte da bezerra enquanto o paciente (também chamado de analisante) fala. Ou reparar na maneira como tiramos o casaco ou a bolsa. Ou se comover com um relato triste que trazemos.

 

Consultamos 7 profissionais, entre analistas e psicólogos com mais de 10 anos de experiência, para saciar algumas curiosidades sobre o que passa na salinha com divã, poltrona, tapete, estante e um montão de angústia.

 

As respostas mostram perspectivas diferentes de um mesmo assunto — o que mostra a diversidade de maneiras de lidar com o que se escuta no consultório.

 

Espere respostas francas e surpreendentes destes analistas e terapeutas, cuja profissão é permanentemente marcada pelo sigilo, pela confiança, pela ética e pelo respeito com a história de cada paciente.

 

Não espere super-heróis, mas sim, profissionais e humanos, com acertos e falhas, revisões e experiências de sucesso. A ideia aqui é desconstruir algumas idealizações para construir algumas realidades possíveis e não menos impressionantes.

 

Esperamos que você saia desta leitura com ainda mais perguntas!

 

O que meu/minha analista ou terapeuta pensa enquanto está atendendo?

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“De preferência, em nada, para poder ouvir o que o analisando fala. Quando o analista pensa, não analisa”, sentencia João Ângelo Fantini, psicanalista e professor de psicologia na Universidade Federal de São Carlos (Ufscar).

 

Segundo Alexandre Amaral, psicanalista e membro do Centro de Estudos Psicanalíticos (CEP), “o analista tenta ouvir ‘ao máximo’ o seu paciente. Ouvir o que ele diz e, principalmente, o que ele não diz”.

 

“Psicanalistas pensam, sobretudo, nas palavras que seu analisante emprega, como ele as escolhe, se elas se repetem ou se é a primeira vez que elas aparecem”, afirma Christian Dunker, psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da USP.

 

A escuta é fundamental e, à primeira vista, pode-se imaginá-la como algo automático. Mas não é. “É como ouvir uma sinfonia se você é especialista em música. Muitas coisas acontecem ao mesmo tempo, e você precisa acompanhar as cordas e os sopros, o coro e a percussão, sem perder a experiência de conjunto”, ilustra Dunker.

 

Sabe aquele balãozinho de pensamento das histórias em quadrinhos? Ele bem poderia ser preenchido por aquelas 49.261 dúvidas e hesitações que pipocam durante a sessão: “Tá me acompanhando?” “Será que ele(a) dormiu?” “Será que…

 

… ele(a) está me julgando?”

 

Falar sobre questões tão íntimas é algo difícil, e não faltam resistências ou desvios de rota para se evitar o assunto X ou Y. O que entra em questão, ao se falar, é aquele pensamento: “quem está me ouvindo e de que maneira está ouvindo? Vai me achar a pior pessoa? Vai me achar covarde, ou arrogante? Vai me julgar?”.

 

“Não! Julgar é um ato moral, e cada um tem a sua própria. Às vezes, fico assustado com o que ouço, mas procuro compreender e nunca julgar”, enfatiza o psicanalista e sexólogo Sérgio Máscoli, que atua em clínica particular e no Projeto Sexualidade (ProSex), do Instituto de Psiquiatria da USP.

 

“Quando escutamos nossos pacientes, temos que fazer duas coisas opostas ao mesmo tempo: olhar aquela vida de longe, de modo imparcial, como se fôssemos um cirurgião que se relaciona impessoalmente com os tecidos e órgãos que ele recorta; e, por outro lado, olhar aquela vida de forma radicalmente interna, ou seja, pelo seu ponto de vista, segundo seus valores, segundo seus próprios desvios e intolerâncias, aceitando aquela vida como uma obra de arte, como o melhor que aquele sujeito conseguiu fazer consigo depois de tudo”, descreve Dunker.

 

Claudio Cesar Montoto, psicanalista lacaniano e doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, não perde a piada: “Se eu julgasse, deveria trocar de profissão e vender pipoca, por exemplo, na porta da PUC São Paulo”.

 

POR-FAVOR-FALE-ALGUMA-COISA

 

No filme Simplesmente Complicado (It’s Complicated, 2009), a personagem de Meryl Streep se vê dividida entre um novo amor e o ex-marido. Ela fica angustiada com a situação e corre para o consultório do terapeuta, sem hora marcada. A cena é hilária:

 

“Escuta, eu sei como a terapia funciona, de verdade… A gente observa as coisas, examina, semanas se tornam meses… estamos indo para 8 anos de terapia, certo? E isso é ok pra mim, eu

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gosto… mas neste caso, eu preciso saber sua OPINIÃO. Assim, eu gostaria que você dissesse… ‘Não faz isso, porque é muito errado’, ou ‘Vai em frente, vai ficar tudo bem’. Eu realmente quero QUE VOCÊ ME DIGA O QUE FAZER.”

 

E o que se diz diante do paciente?

 

“Às vezes não há tempo e temos que dizer de bate-pronto; outras vezes, há algum tempo de preparação, esperamos o tempo certo, escolhemos palavras, sincronizamos a intervenção com o tempo da sessão, preparamos o tom, mais humorado ou mais sério”, Dunker exemplifica.

 

“Mas, às vezes, não temos nada a dizer. Nem por isso a sessão terá sido, necessariamente, improdutiva. Muitas vezes é o analisante que faz todo o trabalho e nós nos contentamos em testemunhar sua obra”, completa.

 

E quais seriam os efeitos dessas falas dos analistas? Segundo Dunker, é fácil saber quando elas “dão errado”. Mas, quando as intervenções dão certo, nem sempre o(a) profissional fica sabendo, ou só se descobre anos depois. Isso porque o paciente pode deixar de lado um sintoma ou uma inibição ou superar um problema e “esquecer” de contar isso para o(a) analista dele.

 

“A psicanálise não é a atividade certa para quem quer ser reconhecido pelo que faz, ou é obcecado por métricas de resultados e pelo valor agregado do que é feito”, sentencia.

 

Tenho falado bastante no divã, mas minhas queixas se repetem. Será que ele(a) fica entediado de tanto ouvi-las?

 

“Sim, claro, mas a repetição É o sintoma. Então, quem não aguentar a frustração não pode ser analista”, esclarece Fantini.

 

“Boa parte do que fazemos na clínica depende de uma enorme capacidade de paciência e de suportar a repetição do cotidiano das pessoas. Às vezes é aquela voz, às vezes é aquele tema, às vezes é aquela pessoa… há sempre algo que nos deixa apáticos ou entediados, mas aprendemos que isso é uma parte incontornável do que fazemos”, detalha Dunker.

 

Louise Madeira, psicóloga e especialista em terapia de casais e de família, destaca que as queixas repetidas não são encaradas como meras repetições e, portanto, não são entediantes. “Para um terapeuta, não há repetições. A mesma fala, dita depois, é ouvida como ‘uma outra fala’.”

 

Máscoli também enaltece a novidade nas repetições. “Sempre procuro ouvir a história recontada, de forma diferente. Mesmo que seja repetida, não é requentada, é fresca. Lá tem algo de novo para se escutar.”

 

Um outro comportamento possível e bastante visto é o de ficar em silêncio. Como se nenhuma palavra surgisse, ou como se elas não coubessem no momento…

 

Esse meu silêncio seria entediante?

 

Os profissionais consultados são unânimes: o silêncio do paciente tem significado. “Traz incômodo. O silêncio é perturbador para mim, mas significante para ele”, explica Máscoli.

 

“As mesmas histórias, se são contadas novamente, é porque demandam interpretação”, afirma o psicanalista Oscar Angel Cesarotto, professor de Comunicação e Semiótica da PUC-SP.

 

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“O silêncio não é mudo, é apenas ausente de palavras. O silêncio fala muito. E fala alto, assim como as lágrimas”, esclarece Madeira.

 

A grande lição para os pacientes, portanto, é de que eles não precisam se preocupar com a emoção ou com o tédio.

 

“É muito importante quando o analisante percebe que, em certo sentido, ele não está ali para nos agradar ou dizer coisas emocionantes ou interessantes, mas para explorar possibilidades novas de sua própria existência”, descreve Dunker.

 

Ele(a) acha graça do que eu falo?

 

“Claro que sim!”, enfatiza Cesarotto.

 

Dunker chama a atenção para a maneira como o paciente relata o que está ocorrendo em sua vida. Sabe quando você não quer falar de um certo assunto, ou recorre a uma piadinha para ficar mais fácil? Morde e depois assopra? Então.

 

“Achamos graça das manobras que as pessoas fazem com as palavras, pra se enganar, pra colocar os afetos, para proteger personagens, para incriminar outros, para se eximir, para chegar naquela mesma moral da história mais uma vez. Somos como críticos literários, mais interessados em como a história foi construída do que em saber como ela termina”, compara.

 

Ele(a) se comove com meu relato?

 

O imaginário popular frequentemente pensa nos psiquiatras, psicoterapeutas e psicanalistas como profissionais que não esboçam reação alguma… Como se conseguissem passar pelas sessões sem serem afetados. Essa é mais uma cena a ser desconstruída, levando em conta a particularidade de cada profissional, sempre.

 

“Há relatos terríveis de angústia (por exemplo, a morte de um filho pequeno) que, quando fecho a porta do consultório, começo a chorar de soluçar… Outros relatos, menos angustiantes, sempre impactam, mas com os anos, nós, os analistas, nos acostumamos com a dor de existir”, exemplifica Montoto.

 

“Muito, muito… As histórias humanas emocionam, para chorar ou rir com ele [o paciente]. Ou se emocionar. É da natureza humana que uma emoção alheia nos emocione com outro humano. Empatia? Talvez”, explicita Máscoli.

 

“A aptidão para a comoção genérica, também chamada de empatia, faz parte do ‘perfil para o cargo’. Se você não se diverte com as aventuras de seu paciente, se não brinca com suas desventuras, se não torce por ele, se não deixa que ele entre em sua vida, se não se emociona com seus fracassos e não vibra com seus sucessos, considere mudar de profissão. Freud dizia que há quatro profissões impossíveis: psicanalisar, educar, governar e fazer desejar. Tente uma destas”, desafia Dunker.

 

Só não vale confundir esses profissionais com um ombro amigo.

 

“A comoção e a emoção não são muito boas companheiras para as situações críticas que temos que acompanhar ao lado de nossos analisantes. São estes os momentos em que a tendência é que todos à sua volta se aproximem muito, mas o que temos de oferecer é um ponto de vista mais

 

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distante para que o sujeito se apoie, ou no melhor dos casos, para que ele possa recobrar a capacidade de se estranhar”, completa Dunker.

 

Ele(a) presta atenção nos meus gestos?

 

“Sim, certamente e muito. Um analista chamado T. Reick escreveu um texto fantástico sobre como os analisantes tiravam o casaco na sala de espera e de como isso revelava tudo o que iria acontecer em termos de clima e atmosfera na sessão”, comenta Dunker.

 

Ele mesmo descreve a paisagem onde ocorre a análise: aquela mesma tela, os livros em cima da escrivaninha, o tapete, a mesma porta com a mesma maçaneta, com a mesmíssima chave pendurada. O aperto de mão ou o cumprimento com os olhos que ocorrem no começo e no fim de TODAS as sessões.

 

Com essa rotina, fica fácil identificar o que está diferente. “Com o passar dos meses e dos anos, mínimas alterações neste ritual são altamente perceptíveis, tanto para o analista quanto para o analisante. Portanto, os gestos dizem muito, justamente porque são poucos”, identifica o analista.

 

Dunker também descreve algumas situações mais ou menos típicas. “Uma das pernas para fora do divã, encostando no chão… pés nos chão. Mãos que se movem no ar, dando ordens. Abrir e fechar da bolsa, decidindo para quem se abrir. Aliança nas mãos… enquanto avalia a situação do casamento. Há ainda os gestos intempestivos ou raros: ‘hoje preciso sentar’. Levanta e anda pela sala. Luta contra as mãos e as unhas que precisam ser arrancadas … impiedosamente.”

 

Segundo ele, esses são movimentos que legendam angústia, dor ou tensão. “Nós falamos com corpo, e o analista escuta isso, sempre.”

 

Você possivelmente está se perguntando: com uma rotina em que os problemas alheios são sim, da conta destes profissionais, como fica o emocional deles?

 

Será que se angustiam por causa de seus pacientes?

 

“O analista se angustia, e por isso existem a supervisão e a análise do próprio analista. São ferramentas que trabalham essa angústia”, responde Amaral.

 

Máscoli fala de uma outra angústia: “Não diria por causa deles, mas com eles [pacientes]. Ocorrem situações em que eu fico angustiado quando algo ‘grave’ acontece, por exemplo, um diagnóstico médico de alguma doença grave, acidentes, eventos de violência, abuso sexual, por aí. Aí, sim, fico angustiado por eles. É uma questão de humanos.”

 

Madeira, porém, afirma que ficar angustiada por causa dos pacientes não é algo que ocorra com frequência. “Há algumas situações que mobilizam angústia. E um bom profissional consegue vivenciar isso sem permitir que haja interferência no processo terapêutico. Se uma paciente está sendo ameaçada pelo marido, e ela vai para casa sem proteção, o terapeuta teme pela integridade física e emocional dela. Se um adolescente teve um comportamento sexual de risco e vai receber o resultado do exame HIV, o terapeuta ‘torce’ para que o exame seja negativo.”

 

Ele(a) tem resposta ou interpretação para tudo?

 

“Existem os casos nos quais o psicanalista tem uma resposta, mas não pode dá-la, ou pelo menos, não naquela hora”, explica Dunker.

 

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“A maior parte da nossa atividade consiste em silêncio, não só porque não temos nada a dizer, mas porque vamos aprendendo que falar naquele momento em que o analisante não pode escutar representa um desperdício, às vezes letal, de palavras e de oportunidades”, ele completa.

 

A terapeuta Louise Madeira oferece outra visão sobre o assunto: “Ele não tem interpretação e resposta prévia para nada. Mas sejamos honestos: o terapeuta sabe que cada momento terapêutico visa à construção (não imediata) de compreensões das questões trazidas, mesmo que estas construções sejam feitas em pequenos fragmentos. Ninguém vai fazer psicoterapia sem esperar algo. E isso o terapeuta precisa ter em mente para não ficar no lugar cômodo de descomprometimento com os ‘resultados’.”

 

“As interpretações decisivas são poucas, mesmo em análises longas”, pondera Dunker. “Depois de algum tempo começamos a perceber que nosso psicanalista diz sempre, mais ou menos, a mesma coisa. Nós é que não conseguimos ouvir. Por outro lado, o centro da pesquisa psicanalítica não são as respostas, mas a formulação de boas perguntas.”

 

Fonte:http://www.brasilpost.com.br/2016/04/05/analistas-terapeutas-pensam sessao_n_9619216.html

 

 

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‘Não existe uma pílula para cada problema da vida’, diz psiquiatra Allen Frances

Qualquer mudança no manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM), referência mundial da psiquiatria, pode tirar milhões de pessoas do campo da normalidade. Consciente disso, o psiquiatra americano Allen Frances – que comandou a redação da quarta e mais importante revisão da publicação, o DSM-IV – recusou praticamente todas as sugestões de transtornos a serem incluídos no manual, lançado em 1994. Mas com relação ao déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), achou pertinente afrouxar um pouco os critérios para facilitar sua identificação entre as meninas.

Com essas mudanças, Frances calculava que a incidência de casos fosse aumentar de forma muito discreta, mantendo-se dentro dos 2% a 3% da população infantil. Mas os ajustes na definição somaram-se a uma combinação de fatores sociais e culturais que as garras oportunistas da indústria farmacêutica não deixaram escapar. E o índice de diagnósticos do transtorno disparou no mundo todo, chegando a quadruplicar nos Estados Unidos.

Frances não nega sua parcela de culpa. Por isso foi incapaz de observar passivamente o fenômeno do hiperdiagnóstico, – do qual o TDAH é um bom exemplo, mas não é o único.

Abandonou a tranquilidade da aposentadoria para sair em defesa da normalidade. Lançou-se a um trabalho de conscientização da necessidade de repensarmos os limites que separam o normal do patológico. Limites que ficaram ainda menos nítidos com o lançamento da quinta revisão do manual (DSM-5), em 2013, trazendo uma série de novos distúrbios e, no caso do TDAH, critérios ainda mais frouxos e subjetivos.

Suas considerações e críticas sobre o atual sistema de diagnóstico e a influência da indústria farmacêutica na formação de uma sociedade cada vez mais dependente das pílulas estão no livro Saving Normal – ainda não encontrado no Brasil, mas com lançamento previsto para março de 2016 pela editora Versal.

Ele ressalta que, uma vez fechado um diagnóstico psiquiátrico – o que lamentavelmente é feito, na maioria das vezes, em uma única e rápida consulta – é difícil livrar-se do estigma que ele traz: muda-se o futuro, mudam-se as expectativas do paciente. E, salvo raras exceções, a informação fatalmente vem acompanhada de uma receita médica, o que explica o aumento catastrófico na venda de psicotrópicos nos últimos anos.

Ao criar a necessidade das pílulas, tira-se da pessoa o poder de acreditar na própria capacidade de superação, ignorando que a resiliência sempre foi uma das grandes virtudes da humanidade. “A medida que somos levados mais e mais em direção à medicalização da normalidade, vamos perdendo contato com nossas capacidades de autocura e esquecemos que a maioria dos problemas não são doenças e que apenas raramente a melhor solução para eles está nas pílulas”, escreve em seu livro.

Não que Frances seja absolutamente contra a medicação. Pode fazer uma grande diferença na vida das pessoas que realmente precisam, costuma dizer. Mas enfatiza que esses casos são raros e que as diferenças que separam a normalidade do transformo severo – seja qual

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for – são geralmente bastante evidentes. A maioria das pessoas que utiliza os psicotrópicos, crianças inclusive, está recorrendo à medicação para enfrentar preocupações cotidianas e problemas sociais que apenas recentemente deixaram de ser normais.

Na entrevista abaixo, o psiquiatra critica as investidas bem-sucedidas da indústria farmacêutica e os problemas do mau uso do manual da psiquiatria, resultando em uma explosão de diagnósticos e na inevitável medicalização dos problemas cotidianos.

Como a indústria farmacêutica estimula a venda de medicações psicotrópicas em países onde a propaganda direta ao consumidor é proibida, como no Brasil?

Não sei se isso vale para o Brasil, mas nos Estados Unidos a indústria ainda gasta uma fortuna com marketing dirigido a psiquiatras, pediatras, clínicos gerais, além de pais e professores. E os problemas que criamos nos EUA geralmente são rapidamente espalhados ao redor do mundo.

Você acredita que a popularidade da teoria do “desequilíbrio químico”, reforçando a falta de uma substância no cérebro, que só pode ser “reposta” com medicação, afasta as pessoas de soluções que dependem mais de suas próprias capacidades de cura?
A indústria farmacêutica gasta bilhões divulgando sua teoria do desequilíbrio químico e lançando uma pílula para cada padrão de problema. Mas não há um orçamento para o marketing da resiliência humana.

Você acredita que o estilo de vida moderno é, de alguma forma, responsável pelo aumento nas taxas de doenças mentais?
A vida sempre foi difícil e nós sempre respondemos às diferentes dificuldades com resiliência. A natureza humana é bastante estável, mas os sistemas de diagnósticos não são. Pequenas mudanças em como distúrbios mentais são definidos resultam em grandes mudanças nos índices – que na verdade não significam nada.

Sobre o DSM (manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais), você já mencionou que “o livro como foi escrito é diferente do livro como é interpretado”. Esse mal uso do manual pode ser considerado a principal causa da inflação diagnóstica ou a expectativa dos pacientes também mudou e eles hoje pressionam mais os médicos a prescrever psicotrópicos?
A indústria farmacêutica é a maior responsável pela inflação dos diagnósticos. Ela transforma doença em marketing, vende problemas mentais e pressiona o consumo de pílulas até para situações que não respondem a tratamentos fármacos. Os médicos com frequência prescrevem medicamentos rapidamente e displicentemente para tratar problemas que eles não compreendem em pacientes que mal conhecem. E sim, os pacientes realmente querem uma solução rápida para tudo. Mas não existe uma pílula para cada problema da vida.

O grupo etário que mais consome medicamentos psicotrópicos é o da terceira idade, certo? Poderia explicar o que está por trás desse fato?
As pessoas dessa faixa etária fazem uso excessivo das benzodiazepinas (ansiolíticos normalmente usados para ajudar no sono) que causam, entre outros problemas, quedas, confusão mental e problemas de memória. E muitos também recebem antipsicóticos, que reduzem a expectativa de vida. Na maioria dos casos, as drogas que são receitadas como forma que acalmar a agitação poderiam ser evitadas se mais tempo fosse dedicado a eles e com mais contato humano.

Gostaria de abordar o impacto do efeito placebo no tratamento psiquiátrico. Qual o papel da expectativa do paciente na sua recuperação?
O placebo é a melhor medicação que já existiu, com o maior e mais favorável custo-benefício. É o que melhor funciona em problemas mais leves. O paradoxo é que, enquanto a maioria das pessoas acredita que precisa de medicação sem na verdade precisar, aqueles com problemas mais severos, que, de fato, se beneficiariam dos remédios, não são tratados.

 

 

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O índice de adolescentes e pré-adolescentes medicados com antidepressivos é muito alto. Esse tratamento é seguro e eficaz nessa fase?

Na maioria das vezes eles não são eficazes na infância e adolescência e podem causar agitação e irritabilidade, aumentando o risco de suicídio e violência.

Que alternativa a esses tratamentos você recomendaria a adolescentes com alto nível de ansiedade?
A psicoterapia está sendo muito pouco usada e pode ser muito eficaz. Exercício físico e envolvimento em esportes também trazem ótimos resultados.

Muitas escolas exigem um diagnóstico psiquiátrico para fornecer adaptações às necessidades das crianças com dificuldade. Essa sistematização no lugar da diferenciação contribui para o exagero dos diagnósticos?
É um fator importante, mas não a causa primária da epidemia de falsos TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade). Ao invés de encarar problemas no sistema educacional causados por salas de aula com muitos alunos e pouca atividade física, a sociedade está rotulando indevidamente crianças ativas e com frequência tratando-as com estimulantes. O melhor preditor do diagnóstico de TDAH é o mês do aniversário: o mais novo da sala tem uma chance muito maior de ser rotulado que o mais velho. É ridículo tornar a imaturidade na infância uma doença e medicá-la. Nos Estados Unidos, nós gastamos quase U$ 10 bilhões ao ano com drogas para TDAH – recurso que seria muito mais bem gasto se fosse investido em melhorias nas escolas.

Os fabricantes dos estimulantes conhecem os efeitos de longo prazo do uso da medicação na infância?
Ninguém sabe os efeitos, em longo prazo, de mergulhar cérebros ainda imaturos em estimulantes poderosos por vários anos. Sem querer e de forma irresponsável, estamos fazendo uma experiência mundial descontrolada com as crianças, usando-as como ratos de laboratório sem seu consentimento e sem que seus pais sejam devidamente informados antes de concordar. E como você disse, estimulantes são usados quase como doces. Eu defendo uma avaliação lenta e muito cautelosa do TDAH e o uso do tratamento farmacológico apenas como último recurso.

É comum a prescrição de estimulantes por clínicos gerais ou pediatras?
Nos Estados Unidos, 60% das drogas para tratar TDAH são prescritas por médicos de “cuidados primários”, que geralmente têm pouco tempo e pouco conhecimento com relação a transtornos psiquiátricos. Não fazem o acompanhamento sistemático e são frequentemente influenciados pelos representantes das marcas de medicamentos.

De que forma o DSM-IV contribuiu para o aumento dos diagnósticos de TDAH e qual era a real intenção da sua equipe?
Afrouxamos um pouco os critérios para facilitar o diagnóstico entre as meninas, que geralmente apresentam mais problemas de desatenção sem a hiperatividade. Uma pesquisa de campo muito cuidadosa previu o aumento de cerca de 15% na quantidade de diagnósticos. Mas a incidência quadriplicou, especialmente por causa do marketing da indústria farmacêutica. Em 1997, três anos após a publicação do DSM-IV, as companhias surgiram com novas drogas caras e patenteadas e coincidentemente também ganharam o direito de fazer propaganda diretamente ao consumidor (nos Estados Unidos). Isso deu à indústria os meios e métodos para vender o TDAH como doença, para que pudesse divulgar suas pílulas de estimulantes.

Depois da publicação do DSM-5, em 2013, podemos dizer que as mudanças nos critérios de diagnóstico do TDAH favoreceram o aumento ainda maior da incidência?
Os critérios foram afrouxados ainda mais, facilitando particularmente o diagnóstico indevido em adultos. Isso é inacreditavelmente estúpido e leva ao abuso massivo de diagnóstico como um meio de se conseguir drogas estimulantes para uso recreativo ou aumento de performance.

 

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Você defende que a prevalência real de TDAH flutua entre 2% e 3%. Já que não existe comprovação biológica do distúrbio, o que deveria ser levado em consideração para se certificar que a criança pertence a esse pequeno grupo? E para esses, a medicação é sempre necessária?
Severidade, cronicidade, início precoce, prejuízos, histórico familiar. Ainda assim, apenas uma parte dos que se encaixam nessa categoria severa e clássica pode se beneficiar do estimulante. Mas deve-se testar a retirada da medicação de tempos em tempos.

Que tipos de problemas psiquiátricos podem piorar com o uso de estimulantes?
Transtornos de humor, ansiedade, psicose, problemas do sono e desordens relacionadas ao uso de substância.

Como podemos saber quando confiar nos dados de uma pesquisa relacionada à saúde mental e tratamento farmacológico?
O melhor é ficar cético com relação aos dados de todas as pesquisas. A maioria não se confirma. Apenas aquelas que atestam a eficácia dos medicamentos – as positivas – são publicadas. E os estudos promovidos pela indústria valem menos do que nada.

Sobre o uso excessivo de psicotrópicos, você enxerga alguma mudança nesse cenário em curto prazo?
Há 25 anos, a indústria de tabaco estava na mesma posição que hoje está a indústria farmacêutica – exercia grande influência sobre autoridades e ficou iludindo a sociedade durante décadas. Mas a consciência do público levou a grandes e rápidas mudanças. Acredito que o mesmo pode acontecer com relação aos fármacos. Como disse Abraão Lincoln, “Você pode enganar todas as pessoas por algum tempo e algumas pessoas por muito tempo, mas não pode enganar todas as pessoas por muito tempo”.

 

 

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A morte explicada por uma criança com câncer terminal

“Quando eu morrer, acho que minha mãe vai ficar com saudade. Mas eu não tenho medo de morrer, tio. Eu não nasci para esta vida!”

Como médico cancerologista, já calejado com longos 29 anos de atuação profissional, posso afirmar que cresci e modifiquei-me com os dramas vivenciados pelos meus pacientes. Não conhecemos nossa verdadeira dimensão até que, pegos pela adversidade, descobrimos que somos capazes de ir muito mais além.

Recordo-me com emoção do Hospital do Câncer de Pernambuco, onde dei meus primeiros passos como profissional… Comecei a frequentar a enfermaria infantil e apaixonei-me pela oncopediatria.

Vivenciei os dramas dos meus pacientes, crianças vítimas inocentes do câncer. Com o nascimento da minha primeira filha, comecei a me acovardar ao ver o sofrimento das crianças.

Até o dia em que um anjo passou por mim! Meu anjo veio na forma de uma criança já com 11 anos, calejada por dois longos anos de tratamentos diversos, manipulações, injeções e todos os desconfortos trazidos pelos programas químicos e radioterapias. Mas nunca vi o pequeno anjo fraquejar. Vi-a chorar muitas vezes; também vi medo em seus olhinhos; porém, isso é humano!

Um dia, cheguei ao hospital cedinho e encontrei meu anjo sozinho no quarto. Perguntei pela mãe. A resposta que recebi, ainda hoje, não consigo contar sem vivenciar profunda emoção.

 

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— Tio, disse-me ela — às vezes minha mãe sai do quarto para chorar escondido nos corredores… Quando eu morrer, acho que ela vai ficar com muita saudade. Mas, eu não tenho medo de morrer, tio. Eu não nasci para esta vida!

Indaguei: — E o que morte representa para você, minha querida?

– Olha tio, quando a gente é pequena, às vezes, vamos dormir na cama do nosso pai e, no outro dia, acordamos em nossa própria cama, não é? (Lembrei das minhas filhas, na época crianças de 6 e 2 anos, com elas, eu procedia exatamente assim.) É isso mesmo.

– Um dia eu vou dormir e o meu Pai vem me buscar. Vou acordar na casa Dele, na minha vida verdadeira!

Fiquei “entupigaitado”, não sabia o que dizer. Chocado com a maturidade com que o sofrimento acelerou, a visão e a espiritualidade daquela criança.

– E minha mãe vai ficar com saudades – emendou ela.

Emocionado, contendo uma lágrima e um soluço, perguntei:

– E o que saudade significa para você, minha querida?

– Saudade é o amor que fica!

Hoje, aos 53 anos de idade, desafio qualquer um a dar uma definição melhor, mais direta e simples para a palavra saudade: é o amor que fica!

Meu anjinho já se foi, há longos anos. Mas, deixou-me uma grande lição que ajudou a melhorar a minha vida, a tentar ser mais humano e carinhoso com meus doentes, a repensar meus valores. Quando a noite chega, se o céu está limpo e vejo uma estrela, chamo pelo “meu anjo”, que brilha e resplandece no céu.

Imagino ser ela uma fulgurante estrela em sua nova e eterna casa.

Obrigado anjinho, pela vida bonita que teve, pelas lições que me ensinaste, pela ajuda que me deste. Que bom que existe saudade! O amor que ficou é eterno.

(Dr. Rogério Brandão, oncologista)

Fonte: http://vidasimples.blog.br/2015/08/25/a-morte-explicada-por-uma-crianca-com-cancer-terminal/

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Qual a psicologia por trás do sucesso de jogos como Pokémon Go?

Julho de 2016 é um marco importante no mercado de aplicativos no mundo todo: Pokémon Go foi lançado em boa parte do planeta. Em pouco tempo ele já se tornou o jogo de celular mais baixado de todos os tempos, ultrapassando 75 milhões de usuários.

Mas como explicar essa adesão tão rápida? O que este jogo pode trazer de benefícios para os seus jogadores? Quais os riscos? Por quê o time azul é o maior time? Qual a psicologia por trás disso tudo?

Vamos começar com um exercício. Pense em algo positivo e icônico que marcou a sua infância. Pensou? Agora pense em alguém que tem aproximadamente a mesma idade que você. Imagine agora que vocês estão sentados em uma mesa e essa pessoa puxa um assunto sobre o tema. É muito provável que vocês vão ter papo para a noite toda. Isso acontece porque a sensação de nostalgia é uma forte ferramenta para criarmos nossa noção de grupos (Wildschut, 2014). Automaticamente vocês têm algo em comum e aumentam as chances de terem uma interação positiva e de cooperarem.

Pokémon Go traz justamente essa ideia como sua principal base. A maior parte de seu público é composto de pessoas que cresceram assistindo ao desenho animado ou jogando os jogos da saga. Assim, este novo jogo acaba atraindo um grande público logo de cara: pessoas que gostam daquele assunto. Ao agrupar tanta gente de uma vez, cria-se outros dois públicos: pessoas que nunca tiveram oportunidade de conhecer as criaturas, mas que tinham curiosidade; e pessoas que nem fazem ideia do que é, mas pensam: “poxa, tá todo mundo falando nisso e quero saber o que é”. E isso só é possível por se tratar de uma marca comercial muito forte, capaz de criar este que chamamos de efeito manada, onde grupos de pessoas seguem um fluxo específico.

Um segundo fator que explica bastante esse avanço rápido do jogo é a questão de acessibilidade. Muitas pessoas deixam de jogar videogames não por falta de interesse, mas por dificuldades em se adaptar aos controles. Quando você implementa uma tecnologia ou ideia antiga a uma plataforma nova, e de fácil acesso –  como interfaces touch –, fica muito mais fácil aumentar a adesão de um público ao seu game. Angry Birds foi um dos pioneiros nisso: incluiu um estilo de jogo que já era consolidado em uma interface intuitiva e que qualquer um poderia usar: você toca na tela, puxa o estilingue e atira pássaros por aí. Mesma coisa no Pokémon: você arrasta a pokébola e tenta capturar os monstrinhos.

 

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Vamos a uma curiosidade: o jogo possui três times: Valor, Místico e Instinto (vermelho, azul e amarelo, respectivamente). Você sabia que o time azul corresponde a 42% dos jogadores? Mas o que faz este time puxar tanta gente para o seu lado? Bom, daí vamos a dois aspectos psicológicos muito bacanas.

Primeiro, azul é a cor que representa racionalidade, pensamento calmo e intelectualidade. Estatisticamente falando,  em jogos de videogame onde é necessário agir rápido e ter bons reflexos, se o time for da cor vermelha, isso faz com que os jogadores tenham vantagem! Já quando se trata de um jogo de estratégia, em que você tem que parar e pensar, os times azuis vencem mais. E isso ocorre mesmo quando os jogadores têm as mesmas habilidades! Pokémon Go é um dos jogos que focam em estratégia, calma e ações planejadas.

Segundo, quando o jogo te apresenta a tela de seleção de times, um deles acaba ficando no meio. Adivinha qual é? O time azul. Nosso cérebro funciona por rotas que poupam trabalho, e como a nossa visão é focada no centro, os outros times (vermelho e amarelo) recebem menos atenção do que deveriam. Fica a dica para você que trabalha com marketing: se você apresenta três opções a uma pessoa, a chance mais alta é de ela escolher a opção do meio.

Pokémon Go segue uma fórmula psicológica simples, porém extremamente poderosa no design de videogames: o jogador é recompensado em algum momento, fazendo pouco esforço, e sem saber quando isso irá ocorrer (chamamos isso de esquema de reforçamento intermitente). Entendendo melhor: você sai andando por aí e encontrará um pokémon qualquer – mas não sabe onde e nem quando isso vai acontecer. Para capturá-lo, basta arrastar o dedo na tela de forma a jogar uma bola no bichinho (este é o esforço). Pronto. A mecânica do game é essa. Simples, fácil de executar e que recompensa os jogadores. Candy Crush, um outro game mobile que bombou, segue a mesma fórmula de recompensas.

A partir daí temos dois outros sistemas poderosos de gamificação: competição e cooperação (Wang, 2011). Dentro do jogo, você pode escolher um dos três times disponíveis. A partir daí, você trabalha com seus parceiros para conquistar lugares em sua cidade e ganhar prêmios por isso. Só que os outros dois times também querem o mesmo, e vocês usam seus pokémons para disputar por estes locais. É como se fosse um jogo de colecionar figurinhas: o tempo todo você é estimulado a encontrar pokémons mais fortes para não ficar para trás, reiniciando o ciclo.

O problema é que este ciclo é altamente viciante. O jogador deve possuir uma boa capacidade de autocontrole para saber quando é a horar de parar e quando é a hora de recomeçar. Só que nem todo mundo tem essa capacidade. E é aí que mora o risco do vício (importante salientar: é uma possibilidade, e não uma regra!). Para crianças é mais fácil: os pais podem regular este tempo. Mas para adultos, a coisa complica um pouco mais e acaba dependendo muito mais de habilidades de autocontrole do que de outros fatores.

Além disso, existe um lado muito bom! Como o grande objetivo do game é sair na rua e capturar pokémons, ele acaba trazendo benefícios ao longo deste processo. Dentre eles, está a oportunidade de os usuários interagirem com pessoas que elas provavelmente não estariam interagindo, além de fazer exercícios que eles provavelmente não estariam fazendo. Isso quebra aquele estigma do típico jogador de videogame como uma pessoa antisocial e sedentária.

 

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Temos de entender que grande parte destas características não são exclusivas do game Pokémon Go, outros games também as possuem. Aliás, não são exclusivas sequer de videogames. Podemos vê-las em jogos de tabuleiros, cartas, e muito mais. Pokémon Go foi aquele que conseguiu implementar tudo que você leu neste texto de forma harmônica, e isso explica o motivo de tanto sucesso.

Porém, temos de entender algo importante: como um dos fatores que leva mais jogadores a jogar o jogo é o efeito manada, com o tempo as pessoas acabam se dispersando. O número de jogadores do game deve reduzir drásticamente. E se não houver boa administração por parte dos desenvolvedores do game, que deverão tentar mantê-lo interessante e implementar novos esquemas de recompensas, é bem possível que ele seja mais um daqueles jogos esquecidos da sua loja de aplicativos.

Autor:  Emanuel Querino é Neuropsicólogo, Mestrando em Medicina Molecular pela UFMG e pesquisador sobre efeitos dos jogos de Videogame (tanto positivos quanto negativos) sobre a cognição.

 

Fonte: http://www.iluminaneurociencias.com.br/artigos/qual-a-psicologia-por-tras-do-sucesso-de-jogos-como-pokemon-go-angry-birds-e-candy-crush/

 

 

 

 

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