O caminho de volta…

“Já estou voltando.

Só tenho 45 anos e já estou fazendo o caminho de volta.

Até o ano passado eu ainda estava indo…

Indo morar no apartamento mais alto, do prédio mais alto, do bairro mais nobre.

Indo comprar o carro do ano, a bolsa de marca, a roupa da moda.

Claro que para isso, durante o caminho de ida, eu fazia hora extra, fazia serão, fazia dos fins de semana eternas segundas-feiras.

Até que um dia, meu filho quase chamou a babá de mãe!

Mas, com quase cinquenta, eu estava chegando lá. Onde mesmo?

No que ninguém conseguiu responder. Eu imaginei que quando chegasse lá, ia ter uma placa com a palavra “fim”.  Antes dela, avistei a placa de “retorno” e, nela mesmo, dei meia volta.  Comprei uma casa no campo (maneira chique de falar, mas ela é no meio do mato mesmo).

É longe que só a gota serena!

Longe do prédio mais alto, do bairro mais chique, do carro mais novo, da hora extra, da babá quase mãe.

Agora tenho menos dinheiro e mais filho.

Menos marca e mais tempo.

E não é que meus pais (que quando eu morava no bairro nobre me visitaram quatro vezes em quatro anos), agora vêm pra cá todo fim de semana?

E meu filho anda de bicicleta, eu rego as plantas e meu marido descobriu que gosta de cozinhar (principalmente quando os ingredientes vêm da horta que ele mesmo plantou).

Por aqui, quando chove, a Internet não chega.

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Fico torcendo que chova, porque é quando meu filho, espontaneamente (por falta do que fazer mesmo), abre um livro e, pasmem, lê.

E no que alguém diz: “a internet voltou!”, já é tarde demais, porque o livro já está melhor que o Facebook, o Instagram e o Snapchat juntos.

Aqui se chama “aldeia” e tal qual uma aldeia indígena, vira e mexe eu faço a dança da chuva, o chá com a planta, a rede de cama.

No São João, assamos milho na fogueira.

Aos domingos, converso com os vizinhos.

Nas segundas, vou trabalhar, contando as horas para voltar…

Aí eu me lembro da placa “retorno”, e acho que nela deveria ter um subtítulo que diz assim: “retorno – última chance de você salvar sua vida!”  Você, provavelmente, ainda está indo. Não é culpa sua.

É culpa do comercial que disse: “Compre um e leve dois”.

Nós, da banda de cá, esperamos sua visita.  Porque sim, mais dia menos dia, você também vai querer fazer o caminho de volta…”

 

CUIDE DO SEU TEMPO, CUIDE DA SUA FAMÍLIA. 👏

 

(Teta Barbosa – jornalista, publicitária e mora no Recife)

 

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As mães perversas num olhar psicanalítico

Temos no imaginário coletivo, uma herança judaica cristã, que todas as mães são sempre boas, ou seja, são aquelas pessoas angelicais que protegem os seus os filhos, não os deixam passar pelos traumas da vida, que os socorrem das decepções que a sociedade impõe, contudo há exceções.

Mas isso não é uma verdade absoluta, pois existem as mães perversas. É difícil aceitar a dessacralização da imagem imaculada da figura materna e reconhecer que têm mães malignas, desprovidas de empatia e humanidade. Mães que creem que os maridos, os filhos, os enteados, os netos, os genros ou noras não são importantes o suficiente para discordar de qualquer uma de suas necessidades.

Na psicanálise, os perversos, inclusive as mães, têm um modo de funcionamento psíquico baseado numa estrutura perversa. Essas pessoas não aceitam ser submetidos as leis paternas, jurídicas e as normas sociais.

O cinema é revelador das perversões maternas. No filme de Martin Scorcese, Ginger McKenna (Sharon Stone), mulher de Sam Rothstein (Robert De Niro), amarra a filha na cama para ir a um bar se drogar. O marido, mesmo sendo um mafioso, não aprova atitude de sua mulher.

No longa-metragem com as atrizes Diane Ladd e Laura Dern, que são mãe e filha tanto na vida real quanto em “Coração Selvagem”, do diretor David Lynch.

As semelhanças, porém, acabam aí, pois nada lembra que no mundo fora das telas Diane, que vive o papel de Marietta Fortune no drama tenha pago assassinos para matar o grande amor da vida da filha. Isso depois de suas investidas sexuais terem sido recusadas pelo genro (Nicolas Cage).

As personagens Ginger e Marietta podem existir na vida real? Sim, mas com outras facetas. A sedução maternal são armas psíquicas usadas pelas mães perversas. A força simbólica da gravidez e da maternidade são aproveitadas para se aproximar das pessoas e das famílias com um falso senso de união e

 

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afeto. Elementos simbólicos que prendem emocionalmente, a fim de chantagear e tirar vantagens dos membros da família.

Essas mães recorrem para diversas formas de interação com peso emocional, como a incitação sexual, o choro, as supostas doenças e sofrimentos, a dependência financeira, que influenciam de modo dominante no relacionamento, sobretudo, com os maridos e os filhos. Essas situações são frequentes para satisfazer as necessidades narcísicas dessas mães, gerando mal-estar na família e conflitos no casamento dos filhos.

Os adultos que foram criados por esse tipo de mães sofrem no ponto de vista moral e psíquico, possuindo marcas dolorosas que se manifestam na alma e no corpo. Esses filhos têm dificuldades de expressar seus sentimentos ou tomar decisões na vida. Eles podem ter problemas para dizer não aos relacionamentos abusivos, principalmente dizer não as pessoas autoritárias, que lembram a figura materna. Então, podemos imaginar os danos ao desenvolvimento das crianças – que estão sendo criadas por mães perversas.

 

Por Jackson César Buonocore

Fonte:http://www.psicologiasdobrasil.com.br/maes-perversas-num-olhar-psicanalitico/

 

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O homem contemporâneo não sabe o que é desejar, só sabe o que é consumir”. Entrevista especial com Jean-Pierre Lebrun

No início do século XX, Freud cria o complexo de Édipo, pelo qual tenta entender a atenção libidinosa da criança dada às pessoas do sexo oposto no ambiente familiar, uma teoria que entende a subjetividade como um elemento fundamental do ser humano, envolvendo seus sentimentos. Por sua vez, Lacan, em seus estudos, entende que o interior da subjetividade envolve, desde o início, a presença da linguagem alheia. No início do século XVI, Charles Melman (1) e Jean-Pierre Lebrun constroem e analisam um outro tipo de homem dentro de novos modos de subjetivação. Esse novo homem, não sabe mais o que é desejar, ou seja, “parece ter sido engolido pelo consumo e pelo gozo”, afirma Lebrun, na entrevista a seguir, cedida exclusivamente à IHU On-Line.

Charles Melman inicia hoje o Seminário Clínico-Psiquiátrico Como alguém se torna paranóico? De Schreber a nossos dias, na UNISINOS. O evento é promovido pelo IHU. Melman também proferirá a conferência de abertura do Simpósio Internacional A autonomia do sujeito. Uma sociedade de indivíduos?, na próxima segunda-feira.

Jean-Pierre Lebrun atendeu à IHU On-Line no hotel Sheraton, em Porto Alegre, onde esteve participando do evento Fronteiras do Pensamento (2). Durante o evento, Jean-Pierre abordou questões como as angústias e os dilemas do homem contemporâneo diante das novidades pós-modernas e das sensações que ele possui diante de um mundo sem limites. Na última terça, Lebrun participou de uma conferência na Unisinos, na qual discutiu “As novas cores do Édipo: o mal estar na subjetivação”. Nesta entrevista, Lebrun fala das novas patologias provocadas pelos novos modos de subjetivação, das conseqüências do Second Life e, ainda, faz uma comparação entre o homem analisado por Freud e o homem desenhado por ele e Melman.

Jean-Pierre Lebrun nasceu na Bélgica, onde formou-se em medicina psiquiátrica. Atualmente, é membro da Associação freudiana da Bélgica, que reúne os membros daquele país com os da Associação freudiana, criada por Charles Melman na França. Também é membro da Associação lacaniana internacional. É autor de “Um mundo sem limites” e de uma entrevista em parceria com Charles Melman, intitulada “O homem sem gravidade”, ambos os livros publicados pela Companhia de Freud.

Confira a entrevista.

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IHU On-Line – Podemos falar de “novas psicopatologias” dentro dos novos modos de subjetivação?

Jean-Pierre Lebrun – Sim. Eu creio que podemos falar de novas patologias porque o discurso social atual não favorece a subjetivação. No fundo, a subjetivação é a reapropriação pelo sujeito da condição humana. Atualmente, no conjunto do que é proposto no discurso social, temos a impressão de que seria possível não ter de passar pelos constrangimentos da condição humana, o que de imediato suscita dificuldades particulares. Isso porque, por exemplo, os jovens tornam-se adultos de uma forma muito precoce e forçada. Assim, esses jovens adultos crescem, mas continuam como crianças, com atitudes e desejos típicos delas, o que cria uma série de dificuldades.

Então, uma forma atual de nova patologia é uma espécie de fuga à subjetivação. Não há forma de passar por um processo que envolve o subjetivo sem sofrer. Precisamos entender que esse é um sofrimento formador. Não há forma de avançar sem escolher, mas o problema está justamente em escolher, porque significa renunciar àquilo que se deixou de para trás, no caminho não seguido. Alguns sujeitos preferem ficar alheios a tudo isso. Isso é o que, de certa forma, se dá quando nos convidam para um discurso consumista. Eis aí a dificuldade de conviver e compreender a subjetivação.

IHU On-Line – Freud criou o complexo de Édipo (3) como representação da fase do crescimento de qualquer ser humano, com o desejo de se desenvolver, sexualmente, com o genitor do sexo oposto. Isso também representaria o sentimento de rivalidade em relação ao genitor do mesmo sexo. A análise sobre esse mito, no mundo contemporâneo, guarda ainda relação com essa interpretação psicológica?

Jean-Pierre Lebrun – Sim, eu afirmo na palestra “As cores do Édipo contemporâneo: O mal estar na subjetivação” que o Édipo continua sendo um personagem contemporâneo. O Édipo para crescer, como você disse, precisa sempre se separar do primeiro objeto, que é a mãe. Para isso, somos ajudados pelo fato de que outro alguém ocupa esse lugar para a mãe, e esse outro alguém é a figura do pai. Então, esse pai ajuda a criança a se distanciar, a se separar da mãe. Esse é o Édipo.

O Édipo freudiano é atribuído, com bastante importância, ao pai, porque no patriarcado esse pai tem uma legitimidade. Esse pai tira a sua autoridade do patriarcado. O Édipo freudiano, entretanto, não é de todo atual porque o patriarcado caiu.

No Édipo, de acordo com Lacan, não é o pai que separa a criança da mãe. É a linguagem a responsável por essa separação obrigatória. É para poder falar que nós devemos, finalmente, renunciar ao fato de estar junto desse objeto primeiro, que é a mãe. Esta representa justamente aquilo do qual precisamos nos distanciar ou abandonar. Isso revela uma dimensão universal à interdição do incesto sempre em vigor. Esse Édipo, portanto, é sempre atual.

IHU On-Line – Em que medida a teoria da subjetivação e sexuação inconsciente, determinada pela constelação representacional fálico-edípica, pode ser considerada como um postulado universal?

Jean-Pierre Lebrun – Isso se une ao que eu respondi a respeito da permanência da proibição do incesto. Porque entrar no fálico, para Lacan, é entrar na linguagem,

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ou seja, ambos representam o mesmo sentido e movimento. Por isso, a entrada na linguagem supõe a separação com o objeto primordial, e isso para os dois sexos. Logo de princípio, da mesma maneira, sabe-se que menino e menina têm trajetos diferentes. Mas, num primeiro momento, tanto o menino como a menina precisam renunciar a ser o objeto de amor da mãe e renunciar à mãe como objeto. Isso deve acontecer nos dois sentidos.

IHU On-Line – O masculino e o feminino freudianos e suas versões neuróticas continuam a ser moldados pelo Édipo clássico?

Jean-Pierre Lebrun – Sim e não. Sim porque os sujeitos têm sempre relações com as mesmas questões. E não porque não há mais papel social que venha dizer o que deve corresponder homem e mulher, originando uma dificuldade suplementar para ambos. A mulher tinha o hábito de se regular por aquilo que seu homem esperava dela. Essa era, em parte, a sua tarefa. Já o homem se sustentava sobre a idéia genérica do que era ser homem para se dirigir a uma mulher. A mesma atitude ele tomava também para escolher e se aproximar daquela que desejava. Atualmente, não existe mais o homem, pelo menos não aquele homem descrito anteriormente. Conseqüentemente, cada homem procura a maneira de se desvencilhar deste problema. É uma dificuldade para ele, mas também é um grande problema para a mulher, pois, de repente, ela já não sabe mais o que um homem espera dela.

IHU On-Line – Como o senhor diferencia o homem analisado por Freud no século XX e o homem desenhado pelo senhor e por Charles Melman?

Jean-Pierre Lebrun – Com certeza, esses dois homens são comparáveis. O homem de Freud era um neurótico, alguém que não sabia como orientar seu desejo. O homem de Freud era aquele que vinha dizer ao analista: “Eu tenho uma mulher e uma amante e não sei qual escolher”; “Eu não sei qual profissão seguir”; e “Eu não sou bem sucedido na profissão que escolhi seguir”.

Já o discurso atual que o homem contemporâneo passa ao seu analista é diferente do discurso do homem analisado por Freud. Claro que há ainda neuróticos. Há ainda aqueles que vêm dizer isso, mas o sujeito dessa nova economia psíquica vem dizer algo diferente. Esse novo sujeito diz: “Eu não sei mais o que é desejar”. O homem contemporâneo sabe o que é consumir. e está numa relação na qual parece ter sido engolido pelo consumo e pelo gozo, não constituindo essa separação que lhe permite sustentar um desejo. Então, não é mais um simples neurótico.

Por conseqüência, surgem novas questões: “O que esse homem é realmente?”, ou “Será que ele é neurótico?”. Não simplesmente. “Será que ele é perverso?”. Realmente, também não, porque ele não é constituído como o verdadeiro perverso. Ele está mais se protegendo da subjetivação, da qual tem medo, e vive sem pagar o preço dela. Ele se arranja, se protege, se mexe, se vira, mas não se engaja verdadeiramente. E o fato é de que  esse homem contemporâneo não sabe que não se engaja verdadeiramente. Não é, de todo modo, portanto, o mesmo sujeito neurótico analisado por Freud.

IHU On-Line – O Second Life é uma conseqüência dos avanços tecnológicos e que conduzem o sujeito a uma ilusão de mundo sem limites. Como analisar e conviver com esse “Second Life” de cada sujeito?

Jean-Pierre Lebrun – Eu me dou conta do que você quer dizer ao se referir a essa segunda vida. A dificuldade está em quando esse sujeito acredita demais nessa

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segunda vida, iludindo-se com o fato de que ela é a verdadeira. Esse homem não se coloca frente ao trabalho de se confrontar com a alteridade do outro. Ele continua essa segunda vida. Quando esse homem fala com outro pela internet, ele acredita que fala com outro, mas verdadeiramente não é o outro. Eis aí o que verdadeiramente permite evitar a subjetivação de não pagar o preço que se paga na relação com o outro. É exatamente isso que eu chamo de viver “em companhia sem o outro”, porque esse outro não existe: foi inventado. Eu sei que existe um outro, mas não há lugar na minha própria cabeça em que ele possa se fazer reconhecer como outrem para mim. Se fosse diferente disso eu seria um psicótico. É exatamente isso que descreve a nova economia psíquica.

 

Notas:

(1) Charles Melman – Psicanalista francês, aluno de Lacan e um dos principais dirigentes da Escola Freudiana de Paris, fundou a Association Lacanienne Internationale (1982). É membro-fundador da Fondation Européene pour la Psychanalyse. Tem inúmeras publicações na França, traduzidas em vários países, inclusive no Brasil. Charles Melman participou ativamente da École Freudianne de Paris, da qual foi diretor de ensino e A.M.E. (Analista Membro da Escola). Seu trabalho é referência em diversos países, sendo considerado um dos nomes mais importantes da psicanálise lacaniana nos dias de hoje.

 

(2) Fronteiras do Pensamento – evento para a comunidade que conta com a presença de personalidades exponenciais do pensamento atual no mundo. Os conferencistas participantes do curso de altos estudos fazem alusão aos desafios e aos fenômenos existentes no início do século XX.

 

(3) Complexo de Édipo – Segundo Sigmund Freud o Complexo de Édipo verifica-se quando um rapaz atinge o período sexual fálico na segunda infância e dá-se então conta da diferença de sexos, tendendo a fixar a sua atenção libidinosa nas pessoas do sexo oposto no ambiente familiar. Freud baseou-se na tragédia de Sófocles,“Édipo-Rei”,chamando Complexo de Édipo à preferência velada do filho pela mãe, acompanhada de uma aversão clara pelo pai. O complexo de Édipo é uma referência à ameaça de castração ocasionada pela destruição da organização genital fálica da criança, radicada na psicodinâmica libinal, que tem como pano de fundo as experiências libidinais que se iniciam na retirada do seio materno.

 

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/7194-%60o-homem-contemporaneo-nao-sabe-o-que-e-desejar-so-sabe-o-que-e-consumir%60-entrevista-especial-com-jean-pierre-lebrun

 

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A derrota do sujeito

“A morte, as paixões, a sexualidade, a loucura, o inconsciente e a relação com o outro moldam a subjetividade de cada um, e nenhuma ciência digna desse nome jamais conseguirá pôr termo a isso, felizmente. A psicanálise atesta um avanço da civilização sobre a barbárie. Ela restaura a ideia de que o homem é livre por sua fala e de que seu destino não se restringe a seu ser biológico.”

 

Presente em várias listas de best-sellers da França, o ensaio Por que a psicanálise?, de Elisabeth Roudinesco, faz um balanço dos 100 anos da psicanálise e uma projeção de seu futuro no novo milênio. Publicada no Brasil em 1999, pela editora Zahar, a obra nasceu de um questionamento: “por que, após cem anos de existência e de resultados clínicos incontestáveis, a psicanálise era tão violentamente atacada hoje em dia pelos que pretendem substituí-la por tratamentos químicos, julgados mais eficazes porque atingiriam as chamadas causas cerebrais das dilacerações da alma”, diz a autora. Leia abaixo A derrota do sujeito, texto introdutório de Por que a psicanálise?

Na contracorrente do fascínio pela neurociência, fustiga uma sociedade em que o homem é levado a tratar suas neuroses a golpes de receitas médicas, atacando tanto as correntes cientificistas quanto as obscurantistas e charlatanescas.

O sofrimento psíquico manifesta-se atualmente sob a forma da depressão. Atingido no corpo e na alma por essa estranha síndrome em que se misturam a tristeza e a apatia, a busca da identidade e o culto de si mesmo, o homem deprimido não acredita mais na validade de nenhuma terapia. No entanto, antes de rejeitar todos os tratamentos, ele busca desesperadamente vencer o vazio de seu desejo. Por isso, passa da psicanálise para a psicofarmacologia e da psicoterapia para a homeopatia, sem se dar tempo de refletir sobre a origem de sua infelicidade. Aliás, ele já não tem tempo para nada, à medida que se alongam o tempo de vida e o do lazer, o tempo do desemprego e o tempo do tédio. O indivíduo depressivo sofre ainda mais com as liberdades conquistadas por já não saber como utilizá-las.

Quanto mais a sociedade apregoa a emancipação, sublinhando a igualdade de todos perante a lei, mais ela acentua as diferenças. No cerne desse dispositivo, cada um

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reivindica sua singularidade, recusando-se a se identificar com as imagens da universalidade, julgadas caducas. Assim, a era da individualidade substituiu a da subjetividade: dando a si mesmo a ilusão de uma liberdade irrestrita, de uma independência sem desejo e de uma historicidade sem história, o homem de hoje transformou-se no contrário de um sujeito. Longe de construir seu ser a partir da consciência das determinações inconscientes que o perpassam à sua revelia, longe de ser uma individualidade biológica, longe de pretender-se um sujeito livre, desvinculado de suas raízes e de sua coletividade, ele se toma por senhor de um destino cuja significação reduz a uma reivindicação normativa. Por isso, liga-se a redes, a grupos, a coletivos e a comunidades, sem conseguir afirmar sua verdadeira diferença.

É justamente a existência do sujeito que determina não somente as prescrições psicofarmacológicas atuais, mas também os comportamentos ligados ao sofrimento psíquico. Cada paciente é tratado como um ser anônimo, pertencente a uma totalidade orgânica. Imerso numa massa em que todos são criados à imagem de um clone, ele vê ser-lhe receitada a mesma gama de medicamentos, seja qual for o seu sintoma. Ao mesmo tempo, no entanto, busca outra saída para seu infortúnio. De um lado, entrega-se à medicina científica, e de outro, aspira a uma terapia que julga mais apropriada para o reconhecimento de sua identidade. Assim, perde-se no labirinto das medicinas paralelas.

É por isso que assistimos, nas sociedades ocidentais, a um crescimento inacreditável do mundinho dos curandeiros, dos feiticeiros, dos videntes e dos magnetizadores. Frente ao cientificismo erigido em religião e diante das ciências cognitivas, que valorizam o homem-máquina em detrimento do homem desejante, vemos florescer, em contrapartida, toda sorte de práticas, ora surgidas da pré-história do freudismo, ora de uma concepção ocultista do corpo e da mente: magnetismo, sofrologia, naturopatia, iridologia, auriculoterapia, energética transpessoal, sugestologia, mediunidade etc. Ao contrário do que se poderia supor, essas práticas seduzem mais a classe média funcionários, profissionais liberais e executivos — do que os meios populares, ainda apegados, apesar da precariedade da vida social, a uma concepção republicana da medicina científica.

Essas práticas têm como denominador comum o oferecimento de uma crença e portanto, de uma ilusão de cura — a pessoas mais abastadas, mais desestabilizadas pela crise econômica, e que ora se sentem vítimas de uma tecnologia médica demasiadamente distanciada de seu sofrimento, ora vítimas da impotência real da medicina para curar certos distúrbios funcionais. Assim é que L’Expres? publicou uma pesquisa que revela que 25% dos franceses passaram a buscar na reencarnação e na crença em vidas anteriores uma solução para seus problemas existenciais.

A sociedade democrática moderna quer banir de seu horizonte a realidade do infortúnio, da morte e da violência, ao mesmo tempo procurando integrar num sistema único as diferenças e as resistências. Em nome da globalização e do sucesso econômico, ela tem tentado abolir a ideia de conflito social. Do mesmo modo, tende a criminalizar as revoluções e a retirar o heroísmo da guerra, a fim de substituir a política pela ética e o julgamento histórico pela sanção judicial. Assim, ela passou da era do confronto para a era da evitação, e do culto da glória para a revalorização dos covardes. Hoje em dia, não é chocante preferir Vichy à Resistência ou transformar os heróis em traidores, como se fez recentemente a propósito de Jean Moulin ou de Lucie e Raymond Aubrac. Nunca se celebrou tanto o dever

 

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da memória, nunca houve tanta preocupação com a Shoah e o extermínio dos judeus e, no entanto, nunca a revisão da história foi tão longe.

Daí uma concepção da norma e da patologia que repousa num princípio intangível: todo indivíduo tem o direito e, portanto, o dever de não mais manifestar seu sofrimento, de não mais se entusiasmar com o menor ideal que não seja o do pacifismo ou o da moral humanitária. Em consequência disso, o ódio ao outro tornou-se sub-reptício, perverso e ainda mais temível, por assumir a máscara da dedicação à vítima. Se o ódio pelo outro é, inicialmente, o ódio a si mesmo, ele repousa, como todo masoquismo, na negação imaginária da alteridade. O outro passa então a ser sempre uma vítima, e é por isso que se gera a intolerância, pela vontade de instaurar no outro a coerência soberana de um eu narcísico, cujo ideal seria destruí-lo antes mesmo que ele pudesse existir.

Posto que a neurobiologia parece afirmar que todos os distúrbios psíquicos estão ligados a uma anomalia do funcionamento das células nervosas, e já que existe o medicamento adequado, por que haveríamos de nos preocupar? Agora já não se trata de entrar em luta com o mundo, mas de evitar o litígio, aplicando uma estratégia de normalização. Não surpreende, portanto, que a infelicidade que fingimos exorcizar retorne de maneira fulminante no campo das relações sociais e afetivas: recurso ao irracional, culto das pequenas diferenças, valorização do vazio e da estupidez etc. A violência da calmaria, às vezes, é mais terrível do que a travessia das tempestades.

Forma atenuada da antiga melancolia, a depressão domina a subjetividade contemporânea, tal como a histeria do fim do século XIX imperava em Viena através de Anna O., a famosa paciente de Joseph Breuer, ou em Paris com Augustine, a célebre louca de Charcot na Salpêtrière. Às vésperas do terceiro milênio, a depressão tornou-se a epidemia psíquica das sociedades democráticas, ao mesmo tempo que se multiplicam os tratamentos para oferecer a cada consumidor uma solução honrosa. É claro que a histeria não desapareceu, porém ela é cada vez mais vivida e tratada como uma depressão. Ora, essa substituição de um paradigma por outro não é inocente.

A substituição é acompanhada, com efeito, por uma valorização dos processos psicológicos de normalização, em detrimento das diferentes formas de exploração do inconsciente. Tratado como uma depressão, o conflito neurótico contemporâneo parece já não decorrer de nenhuma causalidade psíquica oriunda do inconsciente.

No entanto, o inconsciente ressurge através do corpo, opondo uma forte resistência às disciplinas e às práticas que visam repeli-lo. Daí o relativo fracasso das terapias que proliferam. Por mais que estas se debrucem com compaixão sobre a cabeceira do sujeito depressivo, não conseguem curá-lo nem apreender as verdadeiras causas de seu tormento.

Só fazem melhorar seu estado, deixando-o esperar por dias melhores: “Os deprimidos sofrem por todos os lados”, escreve o reumatologista Marcel Francis Kahn, “isso é sabido. Mas o que não se sabe tão bem é que também vemos síndromes de conversão tão espetaculares quanto as observadas por Charcot e Freud. A histeria sempre pôs em primeiro plano o aparelho locomotor. Ficamos impressionados ao ver como se pode esquecê-la. E também o quanto o fato de evocá-la desperta, no pessoal médico e não médico, inquietação, recusa ou mesmo agressividade em relação ao paciente, assim como por parte daquele ou daquela que recebe esse diagnóstico.”

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Sabemos que a invenção freudiana de uma nova imagem da psique pressupôs a existência de um sujeito capaz de internalizar as proibições. Imerso no inconsciente e dilacerado por uma consciência pesada, esse sujeito, entregue a suas pulsões pela morte de Deus, está sempre em guerra consigo mesmo. Daí decorre a concepção freudiana da neurose, centrada na discórdia, na angústia, na culpa Kuhn, La Structure des révolutions scientiflques (Chicago, 1962), Paris, Flammarion, 1970.

Ora, é essa ideia da subjetividade, tão característica do advento das sociedades democráticas, elas próprias baseadas no confronto permanente entre o mesmo e o outro, que tende a se apagar da organização mental contemporânea, em prol da noção psicológica de personalidade depressiva.

Saída da neurastenia, noção abandonada por Freud, e da psicastenia descrita por Janet, a depressão não é uma neurose nem uma psicose nem uma melancolia, mas uma entidade nova, que remete a um “estado” pensado em termos de “fadiga”, “déficit” ou “enfraquecimento da personalidade”. O crescente sucesso dessa designação deixa bem claro que as sociedades democráticas do fim do século XX deixaram de privilegiar o conflito como núcleo normativo da formação subjetiva. Em outras palavras, a concepção freudiana de um sujeito do inconsciente, consciente de sua liberdade, mas atormentado pelo sexo, pela morte e pela proibição, foi substituída pela concepção mais psicológica de um indivíduo depressivo, que foge de seu inconsciente e está preocupado em retirar de si a essência de todo conflito.

Emancipado das proibições pela igualdade de direitos e pelo nivelamento de condições, o deprimido deste fim de século é herdeiro de uma dependência viciada do mundo. Condenado ao esgotamento pela falta de uma perspectiva revolucionária, ele busca na droga ou na religiosidade, no higienismo ou no culto de um corpo perfeito o ideal de uma felicidade impossível: “Por essa razão”, constata Alain Ehrenberg, “o drogado é hoje a figura simbólica empregada para definir as feições do anti-sujeito. Antigamente, era o louco que ocupava esse lugar. Se a depressão é a história de um sujeito inencontrável, a drogadição é a nostalgia de um sujeito perdido.”

Em vez de combater esse fechamento, que leva à abolição da subjetividade, a sociedade liberal depressiva compraz-se em desenvolver sua lógica. É assim que, atualmente, os consumidores de tabaco, álcool e psicotrópicos são assemelhados a toxicômanos, considerados perigosos para eles mesmos e para a coletividade. Ora, dentre esses novos “doentes”, os tabagistas e os alcoólatras são tratados como deprimidos a quem se receitam psicotrópicos. Mas, que medicamentos do espírito será preciso inventar, no futuro, para tratar da dependência dos que se houverem “curado” de seu alcoolismo, seu tabagismo ou algum outro vício (o sexo, a comida, o esporte etc.), substituindo um abuso por outro?

 

Por Elisabeth Roudinesco

Fonte: http://www.fronteiras.com/artigos/elisabeth-roudinesco-a-derrota-do-sujeito

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