O PODER ENLOUQUECE?

Aqui vai uma pequena ficção sobre a origem do pacto social. Assim que começamos a entender alguma coisa da vida, lá pelos 3 ou 4 anos, assinamos um contrato com aqueles que cuidam de nós: nos comprometemos a renunciar à satisfação absoluta de nossos impulsos sexuais e agressivos; em troca desse sacrifício, as instituições (a começar pela família) garantem o amparo físico e emocional necessário à nossa sobrevivência.

Assinamos não tanto por achar que a relação custo-benefício compensa, mas porque não temos escolha: é isso ou ficar no limbo social. Quem está no limbo não existe para os outros seres humanos. Especialmente para as pessoas que são significativas para nós. Esse é nosso maior pavor.

Chamamos de louco aquele que dá vazão a seus impulsos sem medo do limbo. E se ele não tem medo do limbo é porque, para ele, o contrato social deixou de valer. Ele está fora do jogo. Isso acontece em duas situações.

A primeira é quando o horror de não existir para a comunidade humana já se realizou. Falo dos miseráveis. As instituições, ou seja, nós, não fizemos a nossa parte no trato; abandonamos a pessoa à própria sorte. Nessas condições, ela pode sentir que já não tem nada a perder. E dar vazão aos impulsos sexuais e agressivos sem medo das consequências. São os que enlouqueceram de dor.

Mas há outra situação em que o pacto social deixou de valer. É quando alguém foi excluído do mundo humano por excesso de poder. Assim como o miserável, que está num limbo situado “abaixo” do pacto social, o poderoso também está num limbo, porém “acima” dele, numa espécie de Olimpo. Ele está numa condição que tem mais a ver com a dos deuses do que com a de seus pares – que, querendo ou não, pautam sua vida pelo contrato.

Não nos enganemos: estar no Olimpo é estar fora do jogo humano. É como jogar pôquer com alguém que dispõe de um cacife infinito. A possibilidade de perder, que é a base do jogo, não existe para ele. E como não está no mesmo plano, mesmo que se sente à mesa, seu jogo não conta para nós. Está excluído.

Da mesma forma que a exclusão do miserável, a do poderoso também pode enlouquecê-lo. Se o miserável nada tem a perder porque já perdeu tudo, o poderoso não tem nada a perder porque supõe que nada vai lhe acontecer. Mas se engana. A mitologia nos conta que mesmo os deuses do Olimpo são punidos quando extrapolam.

O que não é tão fácil de perceber é que o poderoso não enlouquece sozinho. A psicanálise mostra que, assim como no caso do miserável, nós contribuímos para que o poderoso enlouqueça. Se ele julga que pode tudo, é porque é levado a sentir que a sociedade jamais o abandonará. E talvez tenha nisso alguma razão. Explico.

Quando estamos diante de alguém que tem poder – qualquer tipo de poder – tendemos a viver esta nova relação com os padrões de uma relação antiga: a da criança com seus pais. É um dos sentidos do conceito de “transferência”. Lembro que a criança depende de forma absoluta dos pais, que para ela são muito poderosos. Quais seriam estes padrões?

Desejamos o amor dos poderosos como desejávamos o amor dos pais: cair nas suas boas graças, ter intimidade, dar e receber favores, gozar de sua proteção.

E também tememos sua ira, que certamente viria caso contrariados. Por exemplo, se tentarmos mostrar a eles, com ações concretas, que a lei vale para todos. Tememos seu ódio e sua vingança como temíamos a nossos pais.

Considerando essa mistura de amor, dependência e medo, quem ousaria levantar a mão contra os próprios pais? E de fato, o poderoso está cercado de pessoas que o veneram como se fosse um deus. Olham para ele com reverência: “você está acima do bem e do mal, as sanções não valem para você”. Prometemos a ele a impunidade. Mas, se ele acreditar nisso, mais cedo ou mais tarde estará perdido.

É assim que, com nossa ajuda, o poderoso pode enlouquecer, isto é, desqualificar o pacto social que funda nossas instituições. Para que isso não aconteça temos de lhe sinalizar constantemente que seu poder tem limites. A psicanálise chama isso de castração: ninguém pode tudo, o tempo todo, impunemente. Acenar com a castração é uma forma de incluir o poderoso no pacto social. De certa forma, ele nos agradecerá. Ou pelo menos, deveria.

Por Marion Minerbo

Fonte: https://psicanaliseblog.com.br/2017/07/27/o-poder-enlouquece/

 

 

 

 

Edif. Itabuna Trade Center- sala 911 e 912, Av. Princesa Isabel, 395, Banco Raso- Itabuna (BA).

CEP: 45.607-291 – Tel.: (73) 3212-7070 / 8882-8060

E-mail: clinica_persona@yahoo.com.br

 

Paramos na idade em que nos falta amor

Com muita frequência, me encontro com pessoas que, por fora, parecem ter 20, 30 ou 40 anos, mas, lá no fundo, ficaram na infância e ainda precisam do amor que lhes faltou quando eram pequenas. Elas ficam assim até o momento em que aprendem a encontrar a satisfação nelas mesmas.

 

Paramos na idade em que falta amor.

 

Cada etapa se caracteriza por uma necessidade, ou seja, a maneira como precisamos de cuidado e de amor dos pais muda ano após ano.

No começo da infância se forma a confiança, por isso, nesse momento da vida o amor é expresso por meio dos cuidados da mãe e de sua atenção às necessidade do filho. Se, durante essa fase, o carinho da mãe é pouco constante, ou ela rejeita o seu filho, nele podem aparecer a desconfiança e o medo excessivo.

Na vida adulta, é difícil estabelecer contato com esse tipo de pessoa. Quando elas começam uma relação, é comum sentirem a necessidade de provar alguma coisa para a outra pessoa, colocando no outro a necessidade de mostrar fidelidade. Quando se tratam de relações interpessoais mais próximas, podem se sentir vulneráveis e indefesas.

Alguns anos depois, aos 2 ou 3 anos de idade, a criança aprende a ser independente e desenvolve o autocontrole. Se os pais dificultam o desenvolvimento destes aspectos, por exemplo fazendo sempre eles o que a criança poderia fazer sozinha e sem dificuldade, ou, pelo contrário, esperam que a criança faça coisas impossíveis, podem gerar a sensação de vergonha. Por outro lado, se os pais não param de corrigir os filhos, sem entender as necessidades naturais da idade, é provável que a criança tenha problemas para controlar o mundo à sua volta e, portanto, controlar a si mesma.

Quando são adultos, ao invés de se sentirem seguros de si mesmos, sentem que os outros sempre os estão analisando em detalhes e os tratam com desconfiança ou desaprovação. Também é possível que apresentem sintomas de transtornos obsessivos compulsivos e delírio de perseguição.

Entre 3 e 6 anos o amor se demonstra pelo incentivo à independência, apoiando a iniciativa, a curiosidade e a criatividade. Se os pais não permitem que o filho se comporte de maneira autônoma nesta fase, e respondem sempre com castigos, eles vão criar uma enorme sensação de culpa na criança.

 

_____________________________________________________________________________ PERSONA CLÍNICA ESPECIALIZADA

 

 

A vida adulta de uma pessoa com este tipo de carência se caracteriza pela falta de foco para resolver problemas, colocar objetivos e metas e alcançá-los. Além disso, o constante sentimento de culpa pode ser a causa de passividade, impotência ou frigidez, além de comportamento psicótico.

Na idade escolar se desenvolvem a diligência e o amor ao trabalho. Se, nesta etapa, existem dúvidas sobre as capacidades da criança, o desejo de continuar estudando será ameaçado, dando lugar ao sentimento de inferioridade que, no futuro, acabará com a sua própria capacidade de ser uma pessoa ativa e produtiva dentro da sociedade.

Se as crianças percebem as vitórias escolares e o trabalho como os únicos critérios que determinam o sucesso, na vida adulta elas provavelmente se transformarão na chamada ‘massa trabalhadora’, caracterizada pela hierarquia preestabelecida.

Proponho, portanto, dar a mão à sua criança interior e ajudá-la a crescer. Para isso, procure uma foto sua de quando era criança, ou apenas pense na criança que vive dentro de você. Quantos anos ela tem? Como ela é? Em que pensa? Quem está ao lado dela? O que a preocupa?

 

Fale com ela.

 

Peque uma folha de papel e duas canetas de cores diferentes, uma com a mão esquerda e a outra com a direita. Se você é destro, a mão direita será o seu ‘eu’ adulto e a esquerda o ‘eu’ criança. Se você é canhoto, será ao contrário.

Agora, a conversa é apenas entre você e a sua criança interior. Quem fala primeiro? Como começa a conversa? As respostas podem ser inesperadas e surpreendentes.

Neste momento em que você encontrou a sua criança interior e está falando com ela, chegou a hora de começar uma relação. Converse o tempo que quiser, pergunte se ela precisa de alguma coisa e dê a ela o que ela pedir. Chame-a pelo nome (o seu), fale palavras doces e amorosas, expresse o seu amor e dê sugestões. Seja para ela o pai ou a mãe que você gostaria de ter com essa mesma idade.

 

Autor: Irina Parfénova — Psicóloga

 

Fonte: http://www.psicologiasdobrasil.com.br/paramos-na-idade-em-que-nos-falta-amor/

 

 

 

 

 

Edif. Itabuna Trade Center- sala 912, Av. Princesa Isabel, 395, Banco Raso- Itabuna (BA).

CEP: 45.607-291 – Tel.: (73) 3212-7070 / 8882-8060

E-mail: clinica_persona@yahoo.com.br

 

 

Depois dos 50, a vida amorosa passa a ter outros desafios

Enquanto os homens conseguem contornar a disfunção adotando novos hábitos, as mulheres precisam repensar seus valores.

Os homens se preocupam mais em se manter ativos, mas encontram na disfunção erétil um obstáculo a ser vencido – em muitos casos, simples mudanças de hábito já resolvem o problema. As mulheres, por sua vez, perdem a libido não só por questões físicas, mas também pelas emocionais: muitas não se veem mais na idade de fazer sexo devido a construções sociais ultrapassadas, mas isso vem mudando.

Essa é a análise da psiquiatra e professora da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) Carmita Abdo, 66 anos. Fundadora e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP, ela esteve à frente dos maiores estudos sobre sexualidade já realizados no país. Confira, a seguir, os principais trechos da conversa com a especialista.

Quais os principais problemas que as pessoas de 50 anos ou mais enfrentam em relação à vida sexual? Como combatê-los?

A principal dificuldade sexual do homem que envelhece é a disfunção erétil. Ela pode se agravar em geral a partir dos 50 anos e está ligada ao envelhecimento, mas não exatamente a ele, e sim em relação às doenças mais comuns que surgem com a idade e que afetam a circulação do sangue, dificultando a ereção. O problema é minimizado se o homem tiver mantido bons hábitos ao longo da vida, ou mesmo se passar a cuidar bem da saúde depois de mais velho.

Esses cuidados incluem uma alimentação balanceada, dormir as horas de sono necessárias, não fumar, beber com moderação e praticar exercícios. As atividades físicas, inclusive, liberam endorfinas que acabam favorecendo o bem-estar e, indiretamente, a atividade sexual. Existem também medicamentos que ajudam na ereção. Mas, para tomá-los, é preciso consultar um urologista que receite o remédio mais indicado para o tratamento de cada tipo e intensidade da disfunção. Deve-se investigar a sua causa, buscando a raiz do mal, que pode estar relacionado a pressão alta, colesterol elevado, deficiências hormonais e diabetes, entre outras. Tudo isso impacta o desempenho sexual.

“Sempre é necessário investigar mais a fundo os fatores que levam à falta de desejo.” 

 

________________________________________________________________________________PERSONA CLÍNICA ESPECIALIZADA

 

E o que mais afeta as mulheres?

Em geral, seu desejo sexual diminui pela queda da lubrificação vaginal, ocasionando dor na relação e desconforto na penetração. Esse problema pode ser resolvido com a aplicação local de cremes que contêm estrógeno e recuperam a mucosa da vagina. Podem ainda ser usados hidratantes e lubrificantes que não têm essa substância na fórmula, mas que ajudam a ter uma prática sexual mais confortável. Porém, sempre é necessário investigar mais a fundo os fatores que levam à falta de desejo. O diabetes, por exemplo, pode levar à lesão dos vasinhos mais periféricos da mucosa da vagina e dificultar sua lubrificação. A disfunção hormonal também pode afetar o desejo sexual.

Parte superior do formulário

Em que medida aspectos psicológicos contribuem para essa perda do desejo sexual nas mulheres de 50 anos ou mais?

A depressão pode ser uma causa. Existem também questões de ordem cultural, caso das mulheres que pensam que não estão mais na idade de ter vida sexual ativa e se inibem nesse sentido. Mas isso está mudando na medida em que elas ganham mais espaço na vida profissional e mesmo na social, não se restringindo ao ambiente doméstico. As mais inseridas nesses contextos percebem a importância de se manter ativas na vida amorosa e sexual.

“87% dos homens brasileiros na faixa dos 70 anos se interessam em manter uma vida sexual ativa.” 

 

Os homens, por sua vez, geralmente se preocupam mais em prolongar sua vida sexual?

Pelas estatísticas que temos levantado, 87% dos homens brasileiros na faixa dos 70 anos se interessam em manter uma vida sexual ativa. Em relação às mulheres, um quarto delas não faz mais sexo quando chega à sexta década, e mais outro quarto deixa de fazer entre a sexta e a sétima décadas. Ou seja, aos 70 anos, só metade das mulheres brasileiras ainda mantém algum nível de atividade sexual. As modificações hormonais depois da menopausa e os fatores culturais explicam esse desinteresse delas pelo sexo.

 

Podemos então dizer que o homem está mais propenso a buscar um novo relacionamento e uma nova vida sexual quando se separa ou se torna viúvo?

Sim, e geralmente eles buscam parceiras mais jovens, porque têm mais facilidade de se excitar com elas. Se, pela própria idade, encontram dificuldades de ereção, procuram parceiras que aumentam a probabilidade de terem sucesso nas relações sexuais. Da mesma forma, muitas mulheres se envolvem com homens mais jovens que sejam mais atraentes e mais interessantes sexualmente para elas.

Os filhos “devem entender que a solidão é um dos principais problemas enfrentados por seus pais nessa fase da vida, e que sozinhos podem acabar deprimidos, sem prazer em viver”.

Nessa retomada da sexualidade das pessoas que enviuvaram ou se separaram, qual o papel dos filhos, que em geral já são adultos? Como eles devem se comportar?

________________________________________________________________________________PERSONA CLÍNICA ESPECIALIZADA

 

Há os que comentam que os filhos encorajam suas novas relações, o que acaba facilitando essa retomada. Por outro lado, muitos filhos não aceitam muito bem a ideia de os pais encontrarem novos parceiros, e essa situação não é muito saudável. Eles devem entender que a solidão é um dos principais problemas enfrentados por seus pais nessa fase da vida, e que sozinhos podem acabar deprimidos, sem prazer em viver. Eu não diria que o papel dos filhos é estimular os pais a ter novos relacionamentos, mas de não censurar que os tenham.

 

E no caso de parceiros que estão há muitas décadas juntos, como manter a libido em alta?

A vida sexual desses casais depende de cuidados, como tudo na vida. Não pode ser algo muito rotineiro, sem novidades ou desafios. É preciso escolher os momentos mais propícios para o sexo, e não tentar fazê-lo depois de um dia cansativo ou de muita preocupação. E aceitar como natural a queda na frequência das relações sexuais depois dos 50 anos, isso faz parte das mudanças próprias do envelhecimento. Aos 60 e aos 70 anos, no Brasil, as pessoas mantêm em média três ou no máximo quatro relações mensais, e esse número é totalmente compatível com o de outros países.

 

Fonte: http://institutomongeralaegon.org/estilo-de-vida/depois-dos-50-a-vida-amorosa-passa-a-ter-outros-desafios

 

 

Edif. Itabuna Trade Center- sala 912, Av. Princesa Isabel, 395, Banco Raso- Itabuna (BA).

CEP: 45.607-291 – Tel.: (73) 3212-7070 / 8882-8060

E-mail: clinica_persona@yahoo.com.br

Contardo Calligaris: ‘Não quero ser feliz. Quero é ter uma vida interessante’

Mais do que buscar permanentemente felicidade máxima, um arrebatamento mágico, deveríamos nos preocupar em tornar interessante nossa vida de todo dia.

É o que defende o doutor em psicologia clínica e psicanalista Contardo Calligaris. Uma rápida olhada em sua biografia mostra que ele não só prega como pratica. Italiano de Milão, depois de mais de duas décadas em conexão direta com o Brasil, já morou também na Inglaterra, Suíça, França e nos Estados Unidos e fez muitas viagens.

Aos 65 anos, atingiu a marca de oito casamentos – desde 2011, está com a atriz Mônica Torres – e teve um filho francês. Além de atender no seu consultório, nos Jardins, em São Paulo, já escreveu mais de dez livros, incluindo dois romances.

Criou até uma série para TV, Psi, no canal a cabo HBO. Diz que, semanalmente, abre mão de “parecer inteligente aos olhos dos pares” e publica toda quinta-feira uma coluna no jornal Folha de S.Paulo. Mais de 100 delas estão no livro Todos os Reis Estão Nus (Três Estrelas). Filmes, fatos, casos de amigos, tudo vira pretexto para traduzir um pouco das teorias da psicanálise, filosofar e provocar reflexão. “Não sou de dourar a pílula”, avisa. Não estranhe, portanto, se sentir um impulso diferente ao terminar de ler esta entrevista.

 

O que é felicidade hoje?

 

Não gosto muito da palavra felicidade, para dizer a verdade. Acho que é, inclusive, uma ilusão mercadológica. O que a gente pode estudar são as condições do bem-estar. A sensação de competência no exercício do trabalho, já se sabe, é a maior fonte de bem-estar, mais que a remuneração. Nós temos um ideal de felicidade um pouco ridículo.

Um exemplo é a fala do churrasco. Você pega um táxi domingo ao meio-dia para ir ao escritório e o taxista diz: “Ah, estamos aqui trabalhando, mas legal seria estar num churrasco tomando cerveja”. Talvez você ou o taxista sofram de úlcera, e não haveria prazer em tomar cerveja. Nem em comer picanha.

Mesmo que não vissem problema, pode ser que detestassem as pessoas lá e não se divertissem. Em geral, somos péssimos em matéria de prazer. Por exemplo, estamos sempre lamentando que nossos filhos seriam uma geração hedonista, dedicada a prazeres imediatos,

 

__________________________________________________________________________________ PERSONA CLÍNICA ESPECIALIZADA

 

quando, de fato, vivemos numa civilização muito pouco hedonista. Por isso, nos queixamos de excessos e nos permitimos prazeres medíocres ou muito discretos.

 

Mas continuamos acreditando que ser feliz é ter esses prazeres que não nos permitimos. E agora?

 

Ligamos felicidade à satisfação de desejos, o que é totalmente antinômico com o próprio funcionamento da nossa cultura, fundada na insatisfação. Nenhum objeto pode nos satisfazer plenamente.

O fato de que você pode desejar muito um homem, uma mulher, um carro, um relógio, uma joia ou uma viagem não tem relevância. No dia em que você tiver aquele homem, aquela mulher, aquele carro, aquele relógio, aquela joia ou aquela viagem, se dará conta de que está na hora de desejar outra coisa. Esse mecanismo sustenta ao mesmo tempo um sistema econômico, o capitalismo moderno, e o nosso desejo, que não se esgota nunca. Então, costumo dizer que não quero ser feliz.. Quero é ter uma vida interessante.

 

Mas isso inclui os pequenos prazeres?

 

Inclui pequenos prazeres, mas também grandes dores. Ter uma vida interessante significa viver plenamente. Isso pressupõe poder se desesperar quando se fica sem alguma coisa que é muito importante para você. É preciso sentir plenamente as dores: das perdas, do luto, do fracasso. Eu acho um tremendo desastre esse ideal de felicidade que tenta nos poupar de tudo o que é ruim.

 

O que adianta garantir uma vida longa se não for para vivê-la de verdade? É isso que temos de nos perguntar?

 

Quem descreveu isso bem foi (o escritor italiano) Dino Buzatti, no romance O Deserto dos Tártaros. Conta a história de um militar que passa a vida inteira em um posto avançado diante do deserto na expectativa de defender o país contra a invasão dos tártaros, que nunca chegam. Mas tem um lado simpático na ideologia do preparo. É que está subentendida a ideia de que um dia a pessoa viverá uma grande aventura. Mas o que acontece, em geral, é que a preparação é a única coisa a que a gente se autoriza.

 

Então, pelo menos há um desejo de viver uma aventura?

 

Mas os sonhos estão pequenos. A noção de felicidade hoje é um emprego seguro, um futuro tranquilo, saúde e, como diz a música dos aniversários, muitos anos de vida. Acho estranho quando vejo alguém de 18 anos que, ao fazer a escolha profissional, leva em conta o mercado de trabalho, as oportunidades, o dinheiro… Isso nem passaria pela cabeça de um jovem dos anos 1960.

 

 

__________________________________________________________________________________ PERSONA CLÍNICA ESPECIALIZADA

 

A julgar pela quantidade de fotos colocadas nas redes sociais de pessoas sorridentes, elas têm aproveitado a vida e se sentem felizes. Ou, como você aborda em uma crônica, hoje mais importante do que ser é parecer feliz?

 

O perfil é a sua apresentação para o mundo, o que implica um certo trabalho de falsificação da sua imagem e até autoimagem. Nas redes sociais, a felicidade dá status. Mas esse fenômeno é anterior ao Facebook. Se você olhar as fotografias de família do final do século 19, início do 20, todo mundo colocava a melhor roupa e posava seriíssimo. Ninguém estava lá para mostrar que era feliz. Ao contrário, era um momento solene. É a partir da câmera fotográfica portátil que aparecem as fotos das férias felizes, com todo mundo sempre sorridente.

 

E a gente olha para elas e pensa: “Eu era feliz e não sabia”.

 

Não gosto dessa frase porque contém uma cota de lamentação. E acho que a gente nunca deveria lamentar nada, em particular as próprias decisões. Acredito que, no fundo, a gente quase sempre toma a única decisão que poderia tomar naquelas circunstâncias. Então, não vale a pena lamentar o passado. Mas é verdade que existe isso.

 

As escolhas ao longo da vida geram insegurança e medo. Em relação a isso, você diz que há dois tipos de pessoa: os “maximizadores”, que querem ter certeza antes de que aquela é a opção certa, e a turma do “suficientemente bom”. O segundo grupo sofre menos?

 

Tem uma coisa interessante no “maximizador”: é como se ele acreditasse que existe o objeto mais adequado de todos, aquele que é perfeito. Mas é claro que não existe.

 

A busca da perfeição não gera frustração, pois sempre haverá algo que a gente perdeu?

 

Freud dizia que o único objeto verdadeiramente insubstituível para a gente é o perdido. E não é que foi perdido porque caiu do bolso. Ele fala daquilo que nunca tivemos. Então, faz sentido que nossa relação com o desejo seja esta: imaginamos existir algo que nunca tivemos, mas que teria nos satisfeito totalmente. Só não sabemos o que é.

 

Como nos livrar desse sentimento?

 

Temos de tornar cada uma de nossas escolhas interessante. Isso só é possível quando temos simpatia pela vida e pelos outros – o que parece básico, mas não é no mundo de hoje. Não por acaso, o grande espantalho do nosso século é a depressão. A falta de interesse pelo mundo e pelos outros é o que pode nos acontecer de pior.

 

Complica ainda mais o fato de, como você já abordou, enfrentarmos um dilema eterno: desejamos a estabilidade e também a aventura. Então, entramos em uma relação ou um

__________________________________________________________________________________ PERSONA CLÍNICA ESPECIALIZADA

 

emprego, mas sofremos porque nos sentimos presos e achamos que estamos deixando de viver grandes aventuras. Isso tem solução?

 

Não sei se tem solução. A gente vive mesmo eternamente nesse conflito. Agora, como cada um o administra é outra história. Pode-se optar por uma espécie de inércia constante, que será sempre acompanhada da sensação de que você está realmente desperdiçando seu tempo e sua vida, porque toda a aventura está acontecendo lá fora e, a cada instante, você está perdendo os cavalos encilhados que passam e não passarão nunca mais. Viver dessa maneira não é uma das opções. Mas você pode também, em vez disso, permitir se perder.

 

Permitir se perder no sentido de transformar a vida em uma eterna aventura?

 

Mas também nesse caso você terá coisas a lamentar. Eu, pessoalmente, fui mais por esse caminho. Mas o preço foi muito alto. Por exemplo, eu não estive presente na morte de nenhum dos meus entes próximos, porque morava em outro país e sempre chegava atrasado, no avião do dia seguinte. Hoje, por sorte, meu filho – que é grande, tem 30 anos – vive perto de mim. Por acaso, ele decidiu vir para o Brasil. Mas não o vi crescer realmente.

 

Para ser feliz, enfim, o segredo é não buscar a felicidade?

 

Isso eu acho uma excelente ideia. A felicidade, em si, é realmente uma preocupação desnecessária. Se meu filho dissesse “quero ser feliz”, eu me preocuparia seriamente.

 

Preferia que dissesse o quê?

 

Só gostaria que ele me dissesse: “Estou a fim de…” A partir disso, qualquer coisa é válida. O que angustia é ver falta de desejo nas pessoas, em particular nos jovens. Agora, se ele está a fim de algo, mesmo que isso pareça muito distante do campo do possível dentro da vida que leva, eu acho ótimo.

 

Por Dagmar Serpa, via M de mulher

 

Fonte: http://www.contioutra.com/contardo-calligaris-nao-quero-ser-feliz-quero-e-ter-uma-vida-interessante/

 

 

 

Edif. Itabuna Trade Center-  9º andar sala 912, Av. Princesa Isabel, 395, Banco Raso- Itabuna (BA).

CEP: 45.607-291 – Tel.: (73) 3212-7070 / 8882-8060

E-mail: clinica_persona@yahoo.com.br