E se o final desejado não fosse apenas sobre morrer?

A morte é algo que nunca pode ser dito, mas contornado apenas, e, do mesmo modo, o ato suicida nos aponta para uma angústia sem fim localizada para além dos véus de fantasia que nos protegem!

Setembro de 2020. Tempo de campanhas salutares sobre o risco de suicídio que vivemos ao longo de todo o ano. Essa possibilidade pode ocorrer em qualquer um dos tipos humanos, e a impossibilidade de atribuição de causalidades absolutas dificulta as ações profiláticas. O desmonte gradativo em nosso país do aparelho de saúde mental estatal torna a busca de socorro sofrível para algo que, muitas vezes, não dá uma segunda chance a quem passa por aquela estrada.  

A palavra tabu, refere-se a um conteúdo constrangedor que precisa ser evitado nos discursos como algo proibido. Neste sentido, o silenciamento afeta as falas como se ao pronunciar tal palavra conjurássemos algum tipo de maldição sobre os participantes da roda de conversa. O susto provocado evoca o horror da morte ou Das Unheimliche, o assombro, como nos diria Freud em seu maravilhoso texto de 1919. A morte é algo que nunca pode ser dito, mas contornado apenas, e, do mesmo modo, o ato suicida nos aponta para uma angústia sem fim localizada para além dos véus de fantasia que nos protegem.  

Escute! Coisa mais difícil em nossos dias individualistas-lacradores-fila-andantes! Mas, insisto: escute o outro humano e escute-se! Intimidade é algo tão precioso, e expor nossa vulnerabilidade diante da vida a alguém pode ser uma aprendizagem incrível. Ouvindo de perto, podemos muitas vezes colher esses sussurros e pedidos de ajuda onde as ruas se encontram travadas. O acolhimento pode gerar algum primeiro sentido de oportunidade, uma vontade de tentar criar uma vida possível. Talvez, com esse primeiro abraço, o sujeito possa escolher dar mais uma chance para mudar o rumo da proza, buscando ajuda especializada a um profissional de saúde mental, que possa oferecer amparo nesse percurso desafiador.  

É comum observarmos uma associação entre suicídio e depressão, que, por sua vez, é muito mais do que uma tristeza profunda. Tristeza é sentimento e não há psicofármacos para sentimentos, mas apenas um processo analítico pode socorrer nesses casos. Muitas vezes vemos o ato chegando aos pensamentos de quem exibia sorrisos e felicidade. Novamente, intimidade e proximidade parecem sempre falar. Aproximação afetiva exige tempo e interesse verdadeiros no outro, coisa démodé demais atualmente. Talvez nos caiba pensar um pouco sobre o tipo de humanos que nos tornamos e se isso é efetivamente a escolha mais feliz para a humanidade. Se a vida do outro não me importa, a quem minha breve existência poderia importar? Estamos nos referindo aos laços de afeto. 

A decisão pela vida passa pelo desejo de ficar, de insistir na vida, mas há sempre muita luta antes do momento crítico se instalar. Força há, e muita! O que o sujeito suicida mais fez foi lutar. E agora, é preciso enfrentar mais um pouco de guerra para manter seu desejo de insistir vivendo. O sujeito com ideias suicidas – já dissemos, qualquer humano vivo – está exausto e pensa em desistir dos laços de afeto com o seu mundo. O sujeito sente-se absorvido na dor e não consegue mais seguir sonhado.  

A psicanálise aposta na construção de novos laços com novos sonhos, buscando novos objetos de amor e para isso o desejo desperto é fundamental. Que possamos nessa existência seguir fazendo laços, e tentando sobrepor à dor da miséria afetiva, alguma felicidade possível para que uma vida mais interessante possa se construir. Essa é uma aposta que o caminho da psicanálise propõe. Então, conte-me mais sobre isso que em ti insiste!

Sandra Araujo Hott é psicanalista, professora e supervisora clínica. Sandra tem 25 anos de experiência clínica e mais de 20 anos como professora e supervisora. Texto publicado originalmente no jornal eletrônico Tudo Rondônia, 26/09/2020

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