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Há 115 anos Lacan nascia

A psicanálise, para mim, só é possível com a releitura que ele fez de Freud. Lacan vinha de uma época em que se colocavam muitas regras para a psicanálise, e ele rompeu com várias delas. Dos ensinamentos que ele fez ao longo de sua vida, um dos que mais me marcam é o dito “coloquem algo de si na psicanálise, não se identifiquem comigo, tenham seu estilo próprio, eu tenho o meu”. Isso é libertador. Lacan convida a cada um que se interessa pela psicanálise, a dar sua própria assinatura ao modo de fazê-la. Esse é o próprio fundamento da psicanálise, ser ético com o próprio desejo, se parecer consigo mesmo, inclusive no modo de psicanalisar.

Se a neurose nos empurra a um sofrimento onde a grama do vizinho é mais verde e queremos ter uma grama como a dele, estamos diante de uma paralisia. Para manter um ideal sem furos, copia-se. Nessa lógica, psicanalista não pode ter facebook, não pode usar aliança, não pode cumprimentar paciente com beijinho, tem que falar difícil, tem que falar lacanês, não pode responder mensagem de texto de paciente, não pode sorrir, não pode ter tatuagem, não pode, não pode, não pode.

E aí a gente cai naquele clichê ridículo do psicanalista mudo com cara de paisagem. No meu entendimento, isso é pura defesa. Quando não sabemos o que dizer é melhor ficarmos quietos. Mas isso não é coisa de psicanálise, é coisa da vida mesmo. Para além disso, o silêncio tem uma função, mas nem todo silêncio tem função. Tem silêncios que são puro vazio, e que é preciso quebrá-los, sim. Não todos. É preciso muita teoria e prática para saber diferenciá-los.

Não há um manual de como ser psicanalista. Por isso é preciso estudar tanto! E eu só posso agradecer a Lacan (estudando muito a sua teoria) por todas as contribuições que ele permitiu e continua permitindo nessa loucura que salva tanta gente, chamada psicanálise.

Ana Suy.

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CORAÇÃO NÃO É GAVETA

Engole o choro. Engole sapo. Cala a boca. Cala o peito. Mas o corpo fala, e como fala.

Fala a ponta dos dedos batendo na mesa. Falam os pés inquietos na cama. Fala a dor de cabeça. Fala a gastrite, o refluxo, a ansiedade. Fala o nó na garganta atravessado. Fala a angústia, fala a ruga na testa. Fala a insônia, o sono demasiado. …

]Você se cala, mas o falatório interno começa. … As pessoas adoecem porque cultivam e guardam as coisas não digeridas dentro de seus corações…

Expressar tranquiliza a dor. Dor não é pra sentir pra sempre. Dor é vírgula. Então faz uma carta, um poema, um livro. Canta uma música. Pega as sapatilhas, sapateia. Faz piada, faz texto, faz quadro, faz encontro com amigos. Faz corrida no parque. Fala pro seu analista, fala para Deus, para o universo… se pinta de artista. Conversa sozinho, papeia com seu cachorro, solta um grito pro céu, mas não se cale. Pois “se você engolir tudo que sente, no final você se afoga”.

Somos de vidro, também de pedra, água e areia…

Viajantes do tempo. O remetente e o destinatário.

Tudo que jogamos contra o vento vem ao nosso encontro. Somos o próprio reflexo que vemos no espelho e além dele.

Somos a vida e a morte. O tudo e também o nada. Somos idealizadores. Sonhadores. Propagadores.

Feitos de inocência num mundo de regras. Maldosos ou bondosos – no tempo exato…

Ora oferecemos riscos, ora somos a mais perfeita das ternuras. O ponto de encontro está em cada um de nós. Encontrar-se é o desafio. Entender-se sagrado é o caminho.

Enxergar além de, é o que falta. Permitir-se acolher o irmão e entender que ele é tão frágil e tão forte como nós é a meta. Que ninguém é melhor do que ninguém. No final das contas somos pó…

Nem sempre intactos. Nem sempre puros…

O importante é buscar, olhar para dentro de si e observar que o mundo é benção, que somos filhos da Graça – temos a divindade dentro de nós…

“Sejamos gratos às pessoas que nos proporcionam felicidade, são elas os adoráveis jardineiros que nos fazem florir a alma.”

Amém!


Carlos Romero (1923-2019), cronista paraibano.

TRANSTORNO DO PÂNICO

Ataques de pânico recorrentes e inesperados.

Um ataque de pânico é um surto abrupto de medo intenso ou desconforto intenso que alcança um pico em minutos e durante o qual ocorrem quatro (ou mais) dos seguintes sintomas:



1. Palpitações, coração acelerado, taquicardia.
2. Sudorese.
3. Tremores ou abalos.
4. Sensações de falta de ar ou sufocamento.
5. Sensações de asfixia.
6. Dor ou desconforto torácico.
7. Náusea ou desconforto abdominal.
8. Sensação de tontura, instabilidade, vertigem ou desmaio.
9. Calafrios ou ondas de calor.

10. Parestesias (anestesia ou sensações de formigamento).
11. Desrealização (sensações de irrealidade) ou despersonalização (sensação de estar distanciado de si mesmo).
12. Medo de perder o controle ou “enlouquecer”.
13. Medo de morrer.

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A Depressão É Um “Câncer Na Alma”, Mas “Ninguém” Se Compadece

Se eu disser que fui diagnosticada com câncer no fígado, por exemplo, todos se compadecerão de mim. Muitos se colocarão à minha disposição para fazerem algo por mim para que eu me sinta melhor. Mas se eu disser que fui diagnosticada com Depressão Recorrente Grave, a maioria dirá que é frescura, falta de Deus, falta de ocupação, que é fraqueza de espírito… que preciso sair dessa e enfrentar a vida com coragem.

O que as pessoas ignoram, é que a saúde mental é tão carente de cuidados quanto é a saúde do corpo. Nosso cérebro, nossa mente e nossas emoções adoecem sim, e uma vez diagnosticado um transtorno mental é preciso urgentemente da ajuda de um profissional na busca da cura, pois a depressão grave é um risco iminente de suicídio.

Com 11 milhões de brasileiros (6% da população) com depressão, suicídio já é considerado uma epidemia
No Brasil, cerca de 11 milhões de pessoas foram diagnósticas com depressão, quase 6% da população. É o número 1 com maior prevalência da doença na América Latina, o 2 nas Américas, ficando atrás apenas dos estados unidos. Além da dor psíquica debilitante causada pela depressão, a doença ainda aumenta o risco de desenvolver vícios, comportamentos suicidas, diabetes e doenças cardíacas. A saúde mental precisa urgentemente ser reconhecida como umas das prioridades nas políticas públicas. Em muitos países, programas de prevenção do suicídio passaram a fazer parte das políticas de saúde pública. Na Inglaterra, o número de mortes por suicídio está caindo em consequência um amplo programa de tratamento de depressão. Reduzir o suicídio é um desafio coletivo que precisa ser colocado em debate. A indiferença, a omissão, o silêncio, não podem ser nossas respostas. Fazer nada é a pior decisão que podemos tomar sobre qualquer assunto.

Como saber se estou com depressão?

A depressão é na realidade uma ampla família de doenças, por isso denominada Síndrome. Há uma série de evidências que mostram alterações químicas no cérebro do indivíduo deprimido, principalmente com relação aos neurotransmissores. Sendo assim, depressão é a Síndrome Amotivacional: uma falta de sentido para tudo. Mas é preciso diferenciar tristeza passageira de depressão. É muito comum dizer que alguém está meio “deprê” e por isso não quer sair de casa: fulano anda depressivo depois que terminou o namoro…

Entretanto, a depressão é um transtorno mental grave com risco iminente de suicídio, e precisa ser visto como um problema de saúde pública.

Dentre sintomas recorrente da depressão, e enfatizo “recorrente”, estão:

  • ou a pessoa tem insônia ou dorme demais;
  • a pessoa não tem apetite nem mesmo para as coisas que mais gosta de comer: se ama mouse de limão, nem mesmo mouse de limão vai lhe motivar a comer;
  • a pessoa vivencia em si um sofrimento intenso do qual ela não sabe a origem;
  • ela sente uma espécie de angustia, uma sensação de que o coração está sendo esmagado ou está inflado constantemente;
  • ela tem vontade de chorar a qualquer momento, como se coisa alguma fizesse sentido para ela, nunca está mental e emocionalmente onde o seu corpo está;
  • ela experiencia um desânimo inexplicável, o corpo não, a mente, o coração são todos cansaço, por mais estimulo que a pessoa receba, ela permanece apática mesmo tentando não ser e é por isso também que a pessoa tem falta de vontade de fazer atividades recreativas;
  • a pessoa começa a sentir confortável somente quando se isola de tudo e de todos, e é nesse estágio que ela tende a se cortar ou se queimar. Em seu íntimo precisa – naquele instante – um alívio em sua dor psíquica e para isso, opta pela automutilação.

Fatores que podem aumentar as chances de desenvolver a depressão:

  • Abuso: Sofrer abuso físico, sexual ou emocional pode aumentar a vulnerabilidade psicológica, agravando as chances de desenvolver a depressão
  • Medicações específicas: Alguns elementos químicos, como a Isotretinoína (usada para tratar a acne), o antiviral interferon alfa, e o uso de corticoides, podem aumentar o risco de desenvolver depressão
  • Conflitos: A depressão em alguém que já tem predisposição genética para a doença, pode ser resultado de conflitos pessoais ou disputas com membros da família e amigos
  • Morte ou perda: A tristeza ou luto proveniente da morte ou perda de uma pessoa amada, por mais que natural, pode aumentar os riscos de desenvolver depressão
  • Genética: Um histórico familiar de depressão pode aumentar as chances de desenvolver a doença. É de conhecimento científico que a depressão é complexa, o que significa que podem haver diversos genes que exercem pequenos efeitos para o surgimento da doença, ao invés de um único gene que contribui para o quadro clínico
  • Eventos grandiosos: Eventos negativos como ficar desempregado, divorciar-se ou se aposentar podem ser prejudiciais. Porém, até mesmo eventos positivos como começar um novo emprego, formar-se ou se casar podem ocasionar a depressão. Entretanto, é importante reiterar que a depressão não é apenas uma simples resposta frente à momentos estressantes do cotidiano
  • Outros problemas pessoais: Problemas como o isolamento, causado por doenças mentais, ou por ser expulso da família e de grupos sociais, também podem contribuir para o surgimento da depressão
  • Doenças graves: Às vezes, a depressão pode coexistir com uma grande doença, como por exemplo, o câncer. Ou então, pode ser estimulada pelo surgimento de um problema de saúde
  • Abuso de substâncias: Aproximadamente 30% das pessoas com vícios em substâncias apresentam depressão clínica ou profunda.

O que fazer?

 Depois que você observou que esses sintomas são uma constante em sua vida, você precisa de ajuda. Você até pode sair de uma depressão sozinho, mas isso depende muito de seu nível de força mental. Sozinho você pode correr, nadar, dançar, pintar, escrever, cantar, tocar um instrumento, lutar, fazer musculação, Yoga, meditação… tudo isso pode fazer o seu cérebro produzir oxitocina, serotonina, adrenalina… hormônios fundamentais para que se sinta feliz, energizado e cheio de amor para ofertar. Mas se você não conseguir fazer nada disso, não conseguir se mover sozinho em direção a sua autocura, não se isole na dor, busque ajuda.

Procure um profissional da psicologia ou psiquiatria. Eles farão o diagnóstico corretamente e apontarão os caminhos a seguir. Mas somente recorra a medicamentos quando todas as outras alternativas tiverem falhado e sob a estrita prescrição de um psiquiatra. Pois somente um psiquiatra pode prescrever antidepressivos. Atualmente tornou-se muito comum, os clínicos gerais, os neurologistas, os endócrinos e etc, passarem “calmantes” para seus pacientes. Isso é errado. Repito, a depressão é um transtorno mental grave que deve ser tratado por um profissional que passou anos estudando para isso. Somente ele poderá diagnosticar corretamente e dizer se você precisa de medicamentos ou não. Não vamos enriquecer a indústria farmacêutica tomando antidepressivos que causam dependência só porque o neurologista disse que precisamos dormir melhor para amenizar a dor.

Se ame acima de tudo. Ouça a voz interior que clama por socorro e aceite ser ajudado. É lindo o despertar para cura, para o desejo de ser curado. Abrace a sua dor psíquica, cuide dela, leve-a para ser amparada, cuidada, sarada. A culpa por estar doente das emoções não é sua. Você não merece esse “câncer” em sua alma. Você merece compreender que o seu cérebro passa por transformações terríveis ao longo da vida e você não pode controlar isso. O que você pode fazer, repito, é abraçar a sua dor e cuidar dela até que você consiga viver sem a constante presença dela. Até que a ausência dela lhe seja libertador.

Em suma, lembre-se do que nos ensinou Carl Jung, “o sofrimento precisa ser superado, e o único meio de superá-lo é suportando-o”.

(Autor(a): Clara Dawn)

Fonte: portalraizes.com 

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A virtualidade da outra cena

Uma sessão virtual quebra o standard. Será que se vão os anéis e ficam os dedos?

O ano de 2020, ao menos para nós, brasileiros, começa como outro ano qualquer: o rito de passagem do Réveillon, a liberação do estresse no carnaval e… as semelhanças param por aí.

Poucos dias depois, cada um de nós foi sacudido de seus hábitos de convivência e levado, pelo terror, a se isolar em casa, longe das ruas, dos escritórios, das escolas, dos consultórios. Apenas serviços essenciais permanecem autorizados a seguir.

Serviços essenciais. Alguns analistas seguiram, não como se nada tivesse acontecido. Levaram seu consultório para o endereço virtual das plataformas on-line, mantendo em segurança a sua saúde, a de seus pacientes e de suas análises. Será?

O que é que muda? É claro, não é a mesma coisa ver ao vivo ou intermediado por uma tela.

O que se perde no encontro virtual? O que se ganha? E o divã, o corte, o enigma e a surpresa, como ficam?

Estou entre os que defendem que quando analista e paciente se encontram virtualmente, alteramos a forma, mas o conteúdo fica preservado. Dizendo tecnicamente, quebra de standard mas não de princípio*.

A quarentena do corona vírus flexibiliza o setting, mais uma vez. Ele que já foi uma montanha na floresta negra, uma estação de trem em Leiden e agora é uma sala virtual na web. Será que algo mudou? Desde Freud, o setting analítico é muito menos físico, que um tipo específico de discurso a ser sustentado diferentemente de todos os outros, naquilo que Lacan nomeia como apreensão dialética da verdade**. No “conteúdo” analítico aquilo de que se trata é de penetrar numa outra cena, a cena do inconsciente, estabelecido por ele como tendo a estrutura de uma linguagem para ser escutada. É claro que não se pode sentir o cheiro do paciente, nem ele o do analista, não se sabe se sua mão está gelada, se está tremendo. Isso se poderia saber caso se cumprimentassem dando as mãos ao abrir da porta. Ainda assim, se pode ter a expressão fisionômica, a fala, o silêncio, os lapsos, as escanções, os suspiros, as hesitações***. Esse material físico se mantém intacto. E do lado do analista, sua escuta com curiosidade genuína pelo paciente e seu ato se mantém a seu dispor e sensível à circunstância. Como só há de ser, é um work in progress, uma reinvenção contínua. Da opacidade, que permite o enigma e a surpresa, o analista continua operando a partir de sua falta a ser, reiterada na virtualidade desse encontro.

Aliás, o que define o virtual? Segundo a teoria saussuriana, virtual é aquilo que se atualiza na fala. Definição interessante para nosso momento, ela quebra o sentido mais usual de oposição entre real e virtual, realidade “verdadeira” e realidade virtual. Por extensão, a outra cena tem um quê  de virtual desde sempre.

Freud fez a sessão de 50 minutos. Lacan, a sessão de tempo variável. E a Psicanálise permaneceu Psicanálise. Se nosso tempo nos propiciar a Skype-sessão estaremos perdendo o DNA da Psicanálise ?

Somos parte de um momento histórico e disruptivo, que cada de nós se pergunte sobre nosso desejo para responder a isso.

* A prática lacaniana, sem standard mas não sem princípios, Forbes, 2009

** Intervenção sobre a transferência, Lacan, 1951

*** A situação da Psicanálise em 1956, Lacan, 1956

Trabalho apresentado no XI Simpósio do ISEPOL e III SAMPARIOCA IPLA/ISEPOL – conversação clínica organizada por Jorge Forbes e Tania Coelho dos Santos –, em 3 de outubro 2020

FONTE:http://www.ipla.com.br/conteudos/artigos/a-virtualidade-da-outra-cena/

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