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O PSICANALISTA E SUAS FORMAS DE PRESENÇA

De tempos em tempos, a Psicanálise é convocada a posicionar-se frente a críticas vindas de outros campos do saber ligados ao sofrimento humano no que diz respeito à sua atualidade clínica. Muitas dessas críticas atestam um desconhecimento sobre o movimento psicanalítico e, principalmente, sobre os desenvolvimentos no sentido de responder aos desafios da clínica contemporânea.

Nas últimas décadas, os psicanalistas vêm se debruçando sobre o tema do enquadre (Winnicott, Bleger), convocados pela clínica a inventar novas formas de presença que favoreçam o trabalho junto a pacientes ou situações clínicas nos limites da analisabilidade.

André Green é um psicanalista que nos ajuda a construir metapsicologicamente a necessidade dessas novas possibilidades de presença. Se o trabalho do aparelho psíquico é o da representação, as condições da análise devem ser tais que favoreçam esse trabalho (e não serão as mesmas em diferentes situações).

Em Freud, a clínica e a pesquisa nunca estiveram dissociadas, tendo a primeira sempre provocado investigações que o fizeram reformular a teoria. O lugar do analista nessa linhagem freudiana não poderia ser o de mero reprodutor de teorias bem acabadas, mas, possuidor de um repertório herdado de seus

mestres, participar do espírito do seu tempo buscando responder a perguntas pelas quais se deixará tocar. Isso implica uma apropriação crítica e criativa da

herança recebida, retrabalho constante em uma psicanálise vitalizada, como pode ser visto mesmo nos movimentos internos à própria obra freudiana.

O trabalho com as neuroses demonstra que a atitude abstinente e mais silenciosa do analista e o uso do divã limitando o polo motor, tal qual o modelo do sonho, favorecem a associação e o processo de simbolização. Diante da angústia despertada na situação analítica, a força pulsional investe as representações que vão, através da cadeia associativa, encontrar vias secundárias de satisfação. O paciente fala, sonha, produz sintomas e o analista se dispõe a um estado de atenção flutuante que o permite acompanhar e atuar nas trilhas que as palavras do paciente puderam deixar. Essa aposta, no caso do funcionamento neurótico, é geralmente bem-sucedida, pois nesses casos podemos contar com as condições para o processo representacional que se encontram construídas e mais ou menos bem preservadas.

Mas nem sempre é assim. Há situações clínicas, ou momentos na análise, em que essas condições de enquadre estabelecidas para favorecer a representação, ao contrário, as dificulta. O excesso de excitação pulsional reavivado na situação transferencial interrompe as cadeias de ligação. Diante de angústias que oscilam entre abandono e intrusão, o silêncio do analista pode ser sentido pelo paciente como mortífero. As falhas do trabalho da representação tais como reveladas na análise denunciam as marcas das condições constitutivas de origem junto ao objeto (invasão e abandono) o que impõe ao analista um manejo diferente para restaurar em certa medida a via associativa. Nessas condições menos favoráveis, o trabalho psíquico do analista é chamado a comparecer, sua própria elaboração imaginativa ganha lugar e o analista buscará encontrar a justa distância que o permita se manter vivo sem se tornar invasivo. Como intervir respeitando essa justa distância? O que faz o trabalho de simbolização falhar em certas condições?

Foi diante destas dificuldades impostas ao trabalho analítico que Green propôs seu projeto para uma psicanálise contemporânea, um projeto coletivo de investigação das condições de representação no enquadre analítico, tomando como matriz clinica as situações nos limites da analisabilidade. O projeto é coletivo, e estamos todos convidados a dele participar.

Algumas das respostas pessoais de André Green a essas perguntas serão trabalhadas no curso “André Green e a Psicanálise Contemporânea”, oferecido pela SBPSP.

 Berta Hoffmann Azevedo é membro filiado ao Instituto de Psicanalise Durval Marcondes da SBPSP, mestre em Psicologia Clínica pela PUCSP, docente do curso “André Green e a Psicanálise Contemporânea” pela SBPSP e autora do Livro Crise Pseudoepiléptica, coleção Clínica Psicanalítica (Ed. Casa do Psicólogo).

                                                                                           bertaazevedo@hotmail.com

Fonte: psicanaliseblog.com.br/2017/04/02/o-psicanalista-e-suas-formas-de-presenca/

 

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GENTE TÓXICA

Não existe grupo social, família, empresa onde não existam uma ou mais pessoas tóxicas. É preciso saber reconhecê-las com uma certa rapidez, para podermos acionar as defesas necessárias, ou para fugir correndo do raio de alcance delas. Estou falando dos vampiros psíquicos, ladrões de emoções e afetos, homens e mulheres que aparentam ser totalmente normais e inofensivos, mas que na verdade parecem ter na vida um único objetivo: arruinar a nossa. Foi a psicóloga norte-americana Lillian Glass, especialista em linguagem corporal, que os definiu “gente tóxica” e os classificou em dez categorias. Glass sugere para cada uma delas as medidas de defesa mais adequadas. Trata-se de pura sobrevivência: Ou nós, ou eles.

  1. O sociopata. 

É o indivíduo tóxico mais perigoso de todos, até porque, de início, ele produz uma ótima impressão, pois é um sedutor e costuma dizer tudo aquilo que agrada ao outro. Destituído de escrúpulos, incapaz de assumir a responsabilidade pelos seus próprios atos, o sociopata mente sem hesitação para alcançar seus objetivos. Ele não se preocupa com os sentimentos, nem com os direitos dos outros. Tampouco se preocupa em demonstrar um pouco de bom senso, visto que é capaz de se contradizer desde que isso lhe traga algum proveito. Cheio de si, sempre a se vangloriar, repete continuamente a palavra “eu”. O melhor modo para se reconhecer um sociopata é olhar firmemente o seu rosto: não move os músculos, não exprime emoções. Até porque não as experimenta. A melhor defesa contra esse tipo de psicovampiro? Fugir dele o mais rapidamente possível.

  1. O invejoso. 

Está continuamente a remoer na própria mente e na fala aquilo que os outros possuem e ele não. Na versão mais extrema, o seu objetivo torna-se o de destruir os invejados maltratando-os verbalmente e desvalorizando cada uma das conquistas que eles alcançam.  O invejoso não consegue conceber que os sucessos obtidos pelos outros possam ser o resultado de sacrifícios, fadiga e perseverança, e assim sendo espalha veneno sob a forma de fofocas malignas, piadas sarcásticas, murmúrios e críticas destituídas de fundamento. Curiosamente, muitas pessoas desse tipo gostam de se manter em forma, frequentam spas de ginástica: elas são narcisistas dotadas de cérebros vazios. Você vai bem na escola, tira notas altas? O invejoso dirá que você é um puxa-saco dos professores, e coisas do gênero. Mas, no fundo, quem mais sofre com isso é o próprio invejoso: vive na insegurança e na frustração.

  1. O arrogante presunçoso.

Pertencem a esta categoria tóxica pessoas que podem se apresentar pedantes e sempre a se vangloriar, convencidas de terem sempre razão e de fazer inevitavelmente as escolhas melhores.

Têm sempre resposta pronta sobre qualquer tema, e chegam a decorar uma série de frases de efeito apenas para dizê-las, como quem tira uma arma do coldre, no momento oportuno, aparecendo assim como pessoa brilhante e melhor do que os outros. Por outro lado, recebem a opinião dos outros sempre com um certo ar de desprezo. Sua frase típica: “Mas você tem certeza disso?” São déspotas intelectuais. Somente as suas opiniões são importantes e todos os meios e recursos são bons para manter viva a atenção dos outros quando pontificam sobre alguma coisa. Quando são obrigados a ouvir, fazem caretas de desprezo, torcem a boca, suspiram, sacodem a cabeça.

No ambiente de trabalho, os arrogantes presunçosos fazem todos os esforços para convencer os outros de que são indispensáveis, mas a verdade é que a sua convicção de ser infalíveis os leva a errar com frequência. Encorajados pelas suas convicções errôneas, acabam, como se costuma dizer, “se enforcando com suas próprias mãos”: um bom grau de autoestima é positivo e útil para se progredir na carreira, mas além de um certo ponto, ela nos torna cegos diante dos erros que cometemos. Até que fica tarde demais.

  1. O fofoqueiro maledicente.

Este é um tipo supertóxico, especializado em criar um ambiente de descontentamento no ambiente de trabalho. Com suas indiscrições, pode comprometer profissionalmente até os colegas mais competentes, e sem com isso usufruir de qualquer vantagem: o maledicente se realiza quando percebe que lhe dão ouvidos e a sua máxima ambição é saber tudo de todos. Exatamente por isso, no entanto, não hesita em exagerar aquilo que acredita saber ou inclusive a inventar fofocas com requintes de imaginação. É muito hábil em decorar uma falsidade com uma enorme quantidade de detalhes mais ou menos verossímeis, até conseguir fazer com que uma mentira seja recebida como verdade. A única defesa contra um fofoqueiro desse tipo é manter-se longe dele e nunca lhe contar nada, nem sequer uma pequena notícia: se o fizermos, entraremos na sua rede de pequenas e grandes mentiras, misturadas a confidências que, cedo ou tarde, o fofoqueiro tornará públicas sem sentir nenhum remorso.

É preciso dizer, no entanto, que todos nós participamos da difusão de fofocas, nem que seja somente através de comentários. Um pouco de autocrítica e de controle da própria língua são qualidade necessárias se não quisermos nos tornarmos pessoas tóxicas.

  1. O chefe autoritário.

Em uma relação de trabalho, o chefe tem todo o direito de dizer aos seus subordinados o que ele espera deles, bem como o direito de criticar os seus resultados se achar isso necessário. Em alguns casos, porém, o chefe se transforma em um déspota que sente prazer em impor a própria vontade e se sente autorizado a humilhar quem trabalha sob as suas ordens. É nesse ponto que ele se torna uma pessoa tóxica. Os autoritários inspiram temor para manter o controle e são capazes de transformar em um fardo insuportável aquilo que aos seus subordinados poderia se tornar um projeto interessante e envolvente. Esses indivíduos tóxicos com frequência se manifestam de forma improvisada e inesperada, e muitas vezes o seu despotismo só aparece depois que obtém o posto de chefia. Até um minuto antes, ninguém podia suspeitar da sua toxidade. Nos casos piores, odeiam aqueles que consideram inferiores e boicotam as ações de alguém que começa a se sobressair porque não suportam o sentimento de serem superados. Chegam inclusive a se infiltrar no tempo livre dos seus empregados, a insultá-los e a ameaçá-los para reforçar o seu próprio domínio. Trabalhar com uma pessoa assim pode se tornar uma verdadeira calamidade. A defesa, em muitos países, vem das novas leis que agora reconhecem o delito de mobbing (uma forma de assédio moral).

  1. O medíocre.

A moleza, a preguiça e o imobilismo constituem comportamentos altamente contagiosos, e por isso é necessário não subavaliar essa tipologia de indivíduos tóxicos. Se eles conseguirem lhe convencer a ver a vida a partir do seu ponto de vista, poderiam inclusive lhe arrastar a uma situação na qual você iria para o trabalho cada vez mais desmotivado, envolvido por uma nuvem de depressão. Embora em geral provoquem danos sobretudo a si mesmos, os medíocres podem envenenar inclusive as pessoas de caráter mais aberto e vital, ao contagiá-los. A solução? Recordar-se sempre de que a escolha dos nossos companheiros de estrada depende sempre apenas de nós mesmos.

  1. A vítima imaginária.

Espalha negatividade a partir de todos os poros, está convencido de que o mundo seja um lugar terrível e se aninha na sua condição imaginária de desafortunado para não fazer nada que possa mudar esse estado de coisas. A sua aversão em relação ao mundo é tão intensa e repetitiva a ponto de contaminar aqueles que lhe dão ouvidos. E, ainda pior que isso: a vítima imaginária tem uma habilidade excepcional para fazer com que os outros se sintam culpados pela sua situação desesperada. Se bebem em excesso, ou se drogam, é um pouco por culpa nossa. Mas podemos ficar tranquilos: as coisas não são assim.

  1. O agressivo verbal.

A sua violência psíquica cria danos em nada inferiores aos maus tratos físicos. Sardônicos, ofensivos, intimidadores, os agressivos verbais têm como primeiro objetivo, em uma discussão, fazer com que o interlocutor se sinta inadequado, débil, frágil e incapaz. Exibem com frequência uma coloração avermelhada na face, inspirando belicosidade, e falam em tom estridente e gritante. Tentar dialogar com eles é tempo perdido: se um dia chegam a elogiar a sua argúcia e a qualidade dos seus argumentos, no dia seguinte – exatamente quando você se sente mais tranquilo – eles podem desferir contra você as flechadas mais ferozes.

Mas há um consolo: as pessoas tóxicas desse tipo não conseguem estabelecer relações duradouras com ninguém, e geralmente acabam sós e abandonadas por todos.

 

  1. O humilhador.

Esta é uma das categorias tóxicas mais odiosas: O humilhador sente prazer ao diminuir suas vítimas, desestabilizando-as emotivamente. Finge-se amigo, afirma querer ajudar, mas na realidade recolhe informações a respeito dos seus defeitos e fraquezas, para depois colocá-lo em situação difícil diante dos outros. Usa constantemente uma máscara e só mostra a sua verdadeira cara quando alcança uma posição de clara vantagem em relação aos outros. Nesse ponto, pode perfeitamente chegar ao insulto explícito.

Um tóxico desse calibre precisa ser vigiado com atenção, até porque suas contínuas flechadas podem criar nos outros um senso de inferioridade que os faz cair ainda mais nas mãos do humilhador. Quando esses tóxicos conseguem conciliar a vida dos outros com as suas tomadas de posição, podem inclusive convence-los de que age daquela forma agressiva para o bem delas, para ajudá-las.

 

  1. O neurótico.

Muitos indivíduos tóxicos podem ser definidos como “maus”, possuidores de índole negativa. Mas este não é o caso dos neuróticos, que ao mesmo tempo fazem danos aos outros e a si mesmos, sem ter nenhum motivo. Os neuróticos se atribuem continuamente objetivos inatingíveis, e se você estiver associado a eles pretenderão a mesma coisa de você.

O seu perfeccionismo desemboca com frequência na mania de controlar tudo aquilo que está ao seu redor, inclusive as pessoas, recorrendo continuamente à chantagem afetiva.
Mas, diferente de vários outros tipos tóxicos, os neuróticos não são pessoas más: gostariam de agradar a todos de uma maneira quase infantil. Fantasiosos e autossuficientes, não escuram conselhos mas estão sempre prontos a ajudar, desde que a pessoa obedeça as suas próprias regras. Os piores são os supertóxicos castradores, aqueles que lhe ajudam somente para poder dizer a fatídica frase: “Com tudo aquilo que fiz por você, é assim que você me paga?”

 Fonte: http://www.luispellegrini.com.br/tag/pessoa-toxica/                   Por Luís Pellegrini

 

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Desejos (que tentamos guardar) longe da consciência

“O inconsciente é por definição incognocível. O psicanalista está, portanto, na posição infeliz de um estudioso daquilo que não se pode conhecer”, escreveu Thomas Ogden, em The primitive edge of experience, de 1989. Na verdade, podemos pensar o inconsciente sob duas ópticas. Como adjetivo, é possível associá-lo ao que escapa à consciência, sem estabelecer discriminação entre conteúdos dos sistemas pré-consciente e inconsciente. Para melhor compreender, vale observar aqui que a concepção de consciência parece semelhante à de atenção: estamos conscientes daquilo para o que nos voltamos e inconscientes daquilo com que não nos ocupamos. Poderíamos, segundo essa lógica, estar conscientes de situações e fenômenos para os quais voltássemos nossa atenção – entraríamos então no que Freud chamou de pré-consciente. Aquilo para que evitamos dar atenção por acharmos que podem deflagrar perturbação e dor está no inconsciente reprimido. É possível, nesse caso, falar do inconsciente como substantivo, no sentido tópico. Trata-se, assim, de uma instância psíquica, faz parte da primeira teoria do aparelho psíquico desenvolvida por Freud, constituído de material recalcado, não diretamente acessível à consciência.

Características da mente oculta

▪ Impulsos ou ideias incompatíveis podem existir simultaneamente sem parecer contraditórios. É aceitável que amor e ódio se expressem ao mesmo tempo, sem que haja discordância.

▪ Os significados podem ser facilmente descolocados de uma imagem para outra.

▪ Muitos significados podem ser reunidos em uma única imagem; é o que chamamos de condensação.

▪ Processos inconscientes são atemporais e as ideias não têm ordem cronológica. Conteúdos referentes a anos atrás podem surgir misturados aos mais recentes.

▪ O inconsciente independe do mundo externo, representa a realidade psíquica, interna. Por isso, sonhos e alucinações são percebidos como reais.

A consciência pode ser comparada com o que está visível na tela do computador. Temos acesso imediato a outras informações “pulando” para outra parte do documento ou mudando de janela. Esse gesto seria análogo às partes consciente e pré-consciente da mente. Mas pode ser mais difícil acessar outros conteúdos, pois podem estar criptografados ou atachados, podem exigir senha ou ainda ter sido corrompidos, de modo que a informação esteja embaralhada e, portanto, incompreensível.

A ideia de que guardamos motivações sobre as quais não temos controle (e, por vezes, nem mesmo, ciência) traz à tona a hipótese que oferece consistência a comportamentos e vivências que, de outra forma, pareceriam completamente incoerentes. Freud se deu conta de que lapsos verbais e de  escrita, falhas da memória, ações confusas e outros equívocos podem ser, em um nível mais profundo, não casuais – mas inconscientemente intencionais. Para ele, os sonhos constituem um caminho privilegiado para o inconsciente, embora não seja possível desvendá-los completamente.

Da mesma forma que os sonhos, outras formas de comunicação podem apresentar representações de desejos e observações inconscientes que empregam os mesmos mecanismos oníricos. Os significados inconscientes são codificados, revestidos de metáforas e imagens. Um exemplo muito comum disso se dá em situações em que sentimos raiva, mas reprimimos essa emoção por sabermos que desencadeará sentimentos dolorosos e em especial quando é dirigida a alguém com quem temos relação mais próxima. Assim, os sentimentos reprimidos são disfarçados e deslocados – e aparecem, por exemplo, quando criticamos outra pessoa.

É possível pensar na seguinte situação: a orientadora de pesquisa de uma jovem avisa que vai ausentar-se do país durante um período crítico do trabalho. A estudante pode até compreender, de forma sincera, as razões da orientadora. Mas, prosseguindo a conversa, ela fala de um caso que ouvira: uma mãe havia deixado o filho pequeno sozinho em casa para fazer compras, a criança acordou e terminou se ferindo ao cair da escada. A mensagem inconsciente é clara: a orientadora é tida como a mãe negligente, a aluna é o filho desprotegido. A queda faz alusão ao risco que ela julga correr. Conscientemente, a garota fala como adulta, mas inconscientemente se ressente com a orientadora que não cumpre a função de mãe.

Cabe considerar que a consciência tem gradações. Vivências infantis que evocaram grande vergonha ou culpa podem ficar tão abafadas que se torna muito difícil resgatálas, sendo possível ter apenas indícios desse material. Já uma introspecção momentânea, aliada a alguma capacidade psicológica de tolerar o desconforto de lidar com algum conteúdo que estava inconsciente e pode levar o desejo que parecia escondido ao pleno conhecimento. Do mesmo modo, no decorrer de uma terapia psicanalítica na qual o paciente é encorajado a falar e pensar com maior liberdade para estabelecer associações, seus anseios e temores tendem a se aproximar, gradualmente, da consciência.

                                                                                                                                 Por Gláucia Leal

Fonte:http://www2.uol.com.br/vivermente/artigos/desejos__que_tentamos_guardar__longe_da_consciencia.html

Automutilação – Marcas do sofrimento na pele

o que levaria uma pessoa a se ferir ?
A questão da auto-mutilação é muito mais comum do que parece e acontece por inúmeros motivos. Li uma matéria na MarieClaire que fala bem do assunto:

Os cortes que aliviam a dor da alma

Machucar a pele para aquietar a mente. Assim os praticantes da automutilação definem o transtorno que os persegue. Eles se batem, se queimam, até quebram os ossos em momentos de raiva ou tristeza profunda. Aqui você vai ler o relato e os trechos do diário de uma jovem de 25 anos que dilacerava a pele quando o sofrimento interno era insuportável. Ela diz que não se mutila há um ano e três meses, mas ainda luta para superar a depressão

A artista plástica Beatriz*, 25 anos, poderia ser uma jovem comum, dessas que gostam de ir ao cinema, namorar e sonham em construir uma carreira. Mas por baixo das roupas, ela esconde um segredo: cicatrizes de várias formas e tamanhos. Profundas, rasas, algumas pequenas, outras nem tanto. As marcas na pele de Beatriz não existem por causa de um acidente, mas porque ela mesma as provocou. Até pouco tempo atrás, cortava-se com estiletes e facas de cozinha para aliviar a dor de viver. Em outras palavras, provocar dor física, rasgando a pele, deixava a alma momentaneamente calma. Dava prazer. Mas também vergonha -que, assim como as cicatrizes, ficou até hoje. Por isso ela não revela sua identidade. ‘Sempre escondi de todos que eu me cortava. A vergonha era tanta que nunca fui ao pronto-socorro dar pontos nos cortes, por mais que soubesse que eles eram necessários’, diz.

Beatriz começou a se automutilar na adolescência, aos 12 anos, quando ela se frustrou profundamente com uma nota baixa (D) em uma prova de inglês. Inconformada e com raiva de si mesma, começou a bater a cabeça na parede. Era hora do recreio e a sala estava vazia. Só parou quando a cabeça latejou. O galo roxo no meio da testa trouxe calma, alívio e tranquilidade. ‘Fiquei decepcionada comigo mesma. Sempre fui muito perfeccionista, tinha quer ser a melhor em tudo. Na prova seguinte tirei A.’ Beatriz descobriu, então, um remédio acessível e eficiente para estancar a dor: machucar o corpo. Daquele dia em diante, começou a se dar tapas, mordidas e socos nos braços e nas pernas todas as vezes em que ficava triste ou com raiva. Dez anos mais tarde, no auge de uma crise de depressão, começou a se cortar com arames, facas, lâminas e qualquer objeto afiado que estivesse ao seu alcance. Mutilou braços, pernas, tornozelos e mãos.

Há três anos, Beatriz faz sessões de terapia com uma psicóloga e toma remédios para superar a automutilação, um transtorno emocional antigo, mas pouco estudado pela ciência. Tornou-se mais conhecido nas últimas semanas, depois do episódio da advogada brasileira Paula Oliveira. Ela foi acusada pela polícia suíça de se automutilar para conseguir indenização do governo, alegando que os cortes foram feitos por neonazistas.

Os automutilados se batem, se cortam, se queimam e até quebram os ossos quando não conseguem lidar com a angústia, a tristeza, a raiva e outros sentimentos difíceis de suportar. Eles não querem pôr fim à própria vida com os cortes. No início, desejam apenas se punir, mesmo que inconscientemente. O primeiro machucado quase sempre acontece por impulso. Muitos dão socos nas paredes, furam as mãos com a ponta do compasso, da lapiseira, com a lâmina do estilete ou um caco de vidro durante um acesso de raiva. Depois de machucados, dizem que se sentem aliviados. A dor física ameniza a emocional. Lesionar-se intencionalmente acaba se tornando a saída para os momentos dolorosos, um vício, como drogas ou álcool.

No Brasil não existem números oficiais da quantidade de pessoas que se machucam para aliviar dores psíquicas. Só no Orkut existem mais de 20 comunidades relacionadas ao assunto. As maiores têm cerca de 600 participantes. Lá, pode-se ler relatos macabros. Em um deles, um participante que se diz gayafirma ter cortado o pênis por não lidar bem com a homossexualidade. ‘Cortei o que me incomoda’, escreve. No site YouTube, também há vídeos sobre o transtorno, muitos deles feitos por adolescentes que exaltam a automutilação.

Nos Estados Unidos, os estudos são mais avançados. Uma pesquisa publicada em 2006 mostrou que 17% dos jovens entre 18 e 24 anos em uma universidade americana já haviam se cortado intencionalmente uma vez na vida. E 75% deles levaram a prática adiante, sem a intenção de se suicidar. Wendy Lader, presidente da clínica americana S.A.F.E. Alternatives, especializada no tratamento do transtorno, diz que apesar da falta de estatísticas, percebe um crescimento no número de pacientes. ‘Em 22 anos de trabalho já tratamos três mil pessoas. Nos últimos anos passamos a ser procurados por indivíduos comuns, médicos e educadores do mundo todo interessados em mais informações. A maioria conhece o problema porque alguém próximo se machuca e logo depois nos procura.’

No Brasil, a maioria dos automutilados ainda está desamparada. O único centro de terapia por aqui é o Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso, ligado ao Hospital das Clínicas (HC), em São Paulo, que trata vários transtornos psiquiátricos, entre eles a automutilação, onde Beatriz faz terapia. ‘Antes de conhecer o HC, fui a três psiquiatras que ficaram assustados com o meu problema e não sabiam o que fazer’, diz. ‘Saí desolada de uma consulta porque o melhor profissional que visitamos mostrou despreparo e me perguntou qual remédio deveria receitar’, diz Joana*, mãe de Beatriz.

A origem do transtorno ainda é confusa para os especialistas. Uma parte dos estudiosos defende a ideia de que a autolesão é, sim, uma doença em si. Acreditam na hipótese de que os cortes liberariam mais endorfina em algumas pessoas do que em outras. Quando a substância age no cérebro, provoca sensação de bem-estar que diminui a ansiedade e a tristeza. É dessa maneira que a mutilação acaba se tornando um vício. A outra parte dos especialistas acredita que a automutilação é um sintoma de doenças emocionais, como a depressão. ‘Geralmente, está associada a outros transtornos como a dependência química’, diz a psiquiatra Jackeline Giusti, responsável pelo ambulatório do HC. ‘A maioria das pessoas que se mutila tem dificuldade de lidar com a vida sentimental. Algumas foram abusadas sexual ou fisicamente na infância. E metade delas sofre de algum distúrbio alimentar’, diz Wendy, da S.A.F.E.

O COMEÇO DO DESCONTROLE

À primeira vista, Beatriz parece uma jovem alegre. É morena, alta e tem um sorriso largo. A dificuldade em olhar nos olhos dos estranhos sugere timidez. As respostas monossilábicas comprovam. Com o passar do tempo, ela se solta, se mostra simpática e muito bem articulada. Risonha até. Mas quando discorre sobre os momentos mais difíceis da sua vida, abaixa a cabeça e o tom de voz. Silencia. Fala pouco, não faz perguntas nem sorri. Mantém o olhar fundo e distante. E até se contradiz para responder rapidamente a perguntas nitidamente incômodas. Age como quem quer se livrar da memória.

Filha única de pais separados, ela teve uma infância comum. Era boa aluna na escola e fazia aulas de inglês, teclado e natação. Morava com a mãe numa cidade do interior do estado de São Paulo e passava os fins de semana na casa do pai. A convivência familiar era harmoniosa. Ela adorava dar festas de aniversário. Mas aos 11 anos perdeu o contato com o pai por causa de brigas entre ele e sua mãe. A convivência com Leandro*, o padrasto, que viera morar em sua casa, também era difícil. Ela diz que não aceitava as ordens dadas por ele e também tinha ciúmes do padrasto com sua mãe. ‘Me senti duplamente abandonada: pelo meu pai, que deixou de me ver, e pela minha mãe, que começou um relacionamento novo’, diz. Por causa dos problemas familiares, Beatriz entrou na adolescência como uma menina triste e solitária. Foi se afastando dos amigos, até que os perdeu completamente. Aos 21 anos, entrou em depressão profunda.

Beatriz começou a se cortar aos 22. Estava na faculdade fazendo um trabalho com arame. Frustrada por não conseguir pôr suas ideias em prática, começou a chorar desesperadamente. Sentou no chão, pegou um fio de arame e começou a desenhar listras nos braços. Não chegou a se arranhar, mas aquilo fez com que se sentisse melhor. Beatriz levou o arame para casa. Na segunda vez, também se arranhou. Na terceira, poucos dias depois, se cortou. ‘Comecei a me mutilar todas as vezes em que sentia raiva de mim mesma ou culpa de errar. Sempre fazia isso escondido. Não queria que ninguém soubesse. Às vezes era por um motivo bobo: porque eu tropeçava na rua e me sentia ridícula (eu não podia ser ridícula). Quando sentia que chateava alguém, quando brigava com a minha mãe, quando sentia saudade, quando me frustrava. Ao mesmo tempo que a mutilação era uma forma de punição, era também uma redenção. Era um sentimento ambíguo’, afirma. ‘Uma vez me cortei porque liguei para uma amiga para dar parabéns no seu aniversário e ela me disse, chorando, que o melhor presente que eu poderia dar era parar com a mutilação. Aquilo foi horrível para mim.’

Durante dois anos, Beatriz diz que se cortou quase todos os dias, inclusive quando estava feliz. ‘No dia em que entreguei a minha pesquisa de iniciação científica, meu orientador disse que estava tudo certo, que o trabalho estava bom e me encheu de elogios. Fiquei muito feliz, mas era como se não pudesse sentir aquilo. Ao mesmo tempo, me cortar também era uma alegria. Aumentava minha felicidade. É difícil explicar… Então me cortei.’ Com o tempo, as colegas de república estudantil e os amigos de faculdade descobriram que Beatriz se mutilava. Foi ela mesma quem contou para alguns deles. A reação dos mais próximos, segundo conta, foi de chegar ainda mais perto para tentar ajudar. As companheiras de apartamento vigiavam-na, faziam companhia, conversavam. ‘Mas em um segundo momento as pessoas se cansaram, foram se enchendo o saco porque eu continuava com o mesmo comportamento. Não aguentaram a situação e se afastaram. E eu fiquei pior ainda. Perdi grandes amigos. E as amizades que não perdi ficaram profundamente abaladas.’

 

 

AS ETAPAS DO TRANSTORNO

O caminho da automutilação é semelhante ao do vício em drogas. Os cortes começam pequenos e rasos, assim como o vício pelas drogas pode começar com um pega de baseado. À medida que o tempo passa, os cortes também aumentam de tamanho e profundidade, e se tornam tão pesados e destrutivos como uma pedra de crack. ‘Só parava de me cortar quando conseguia fazer o corte perfeito. Precisava ter uma simetria. Se fazia um no braço direito, tinha que fazer no mesmo lugar, no braço esquerdo. Comecei com dois cortes, um em cada braço, e cheguei a fazer 30 cortes de uma só vez’, diz. ‘Se não encontrava o corte perfeito, só parava quando me assustava, quando minha pele estava toda retalhada, destruída.’ Variar o instrumento também é importante. ‘Teve um momento em que o arame deixou de me satisfazer. Passei para o estilete. Depois a gilete. Mas também usava outras coisas: a ponta do compasso, faca de cozinha, agulha e até cigarro. Nunca fumei, só comprei para me queimar’, afirma.

A maioria das vezes em que Beatriz se mutilou foi dentro de casa. ‘De manhã ia para a faculdade e não dava para fazer aquilo lá porque alguém poderia perceber. À tarde era um período muito difícil para mim por causa da depressão. O tempo demorava para passar e eu ficava sozinha. Então tomava muitos remédios, até dez de uma só vez. Não queria me intoxicar, só queria que aquela angústia passasse. Mas a consequência é que dormia muito. Me cortava no final do dia, quando acordava. Colocava Elis Regina no som, uma toalha em cima da cama e deitava em cima. Me cortava e gostava de ficar vendo o sangue escorrer. Até brincava às vezes com o sangue, fazia desenhos no meu corpo, passava de uma mão para outra. Aquilo me distraía. Depois entrava no banho, onde também cheguei a me cortar. Quando terminava tudo, quando estava mais calma, lavava a toalha e limpava as gotas que tinham caí-do no chão’, diz. ‘Depois de um tempo você aprende que partes do corpo sangram mais. O tornozelo, por exemplo, sangra muito. Durante uma época, cortava a palma da mão para não ficar marca, para as pessoas não verem.’

Beatriz diz que não se corta há um ano e três meses. Durante o processo de recuperação, escreveu um diário que traz relatos impressionantes e elucidadores sobre a mente das pessoas que se mutilam. ‘Estive pensando nisso. Por mais profundo que seja o corte, já não sinto dor. Será possível que meu corpo, sabendo que meus atos de agressão são conscientes, já não precise da dor como alerta? Das últimas vezes senti náuseas, por tempo prolongado, o que não aconteceu antes. Talvez pela dimensão dos meus atos’, escreve.

‘Como seria minha vida sem os remédios? Nas últimas semanas, as cápsulas de felicidade foram trocadas e fizeram (ainda estão fazendo) uma rebelião contra o meu corpo. Náuseas, dor de cabeça, tontura. E, além do mais, uma tristeza irreparável, irreprimível, nem mesmo por um mar de sangue. Hoje experimentei a ponta de um compasso depois de uma difícil sessão de vômitos. Tantas coisas na minha cabeça que me canso. Tantas coisas no meu corpo que quero ser ar!’

A cicatriz que ela diz ser o último corte feito mede cerca de três centímetros por cinco e está localizada na batata da perna. É mais escura e mais saliente que o restante da sua pele. Sua mãe havia recebido um convite para uma festa e só podia levar um acompanhante. Chamou o padrasto e Beatriz ficou enciumada. Para muitos, o motivo pode parecer pequeno. Mas para ela não. ‘A automutilação traz um prazer interno enorme. Sabe quando você sente um frio na barriga, quando está tudo muito ruim? Depois que eu me cortava, é como se sentisse soltar toda a pressão do balão’, afirma.

Beatriz diz que foi a psicóloga quem conseguiu convencê-la a parar com a mutilação. ‘Ela me convenceu de que não era legal. Eu não via problema nenhum. Era uma coisa boa, um bem que fazia a mim mesma. Parei para agradar os outros, e não a mim. Eu via que minha mãe ficava desesperada . Quem estava por perto ficava alarmado.’ Mas hoje acha que a automutilação é ruim? Silêncio. ‘Espero que um dia fale que não quero mais. Por mais que pense diferente agora e saiba que existem outras maneiras de lidar com a vida, acho que…’ Respira fundo, desvia o olhar, tamburila os dedos sobre um livro e emudece. ‘Sempre vai ter uma vontadezinha, não tem jeito.’

fernandapimentel.com.br
Fonte: http://viafreud.blogspot.com/2009/03/automutilacao.html?m=1

 

 

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“Ritalina é usada em crianças por reações adversas e não pelos efeitos terapêuticos”

“Há uma epidemia de diagnósticos de TDAH, que foi difundida pela Associação Americana de Psiquiatria, por várias entidades no Brasil e que estourou neste século. Então você tem algo que é divulgado como algo científico e inquestionável, e que na realidade é questionado por pesquisadores relevantes para a medicina no mundo inteiro. Houve também uma divulgação midiática totalmente acrítica do TDAH e com informações que não são verdadeiras. Por exemplo, se fala que o transtorno é igual no mundo todo e isso não é verdade, pois ela varia de acordo com os costumes, com a cultura de cada local. Também há uma divulgação de que a ritalina é uma droga absolutamente segura e sem reações adversas, o que também não é verdade. Existem famílias com crianças com problemas reais e que sofrem muito mais pelo estigma do que pelo modo de agir. Algumas associações que difundem o TDAH e o uso da ritalina conseguem fazer com que as famílias se sintam acolhidas e elas acabam achando que estão fazendo o melhor para os seus filhos.”

Fonte:https://www.gazetadopovo.com.br/saude/ritalina-e-usada-em-criancas-por-reacoes-adversas-e-nao-pelos-efeitos-terapeuticos-1u420hsfmgz4h38lrhtdpwfwi

 

 

 

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